30 agosto 2012

José Carneiro (1911-1996). mordomo da festa da Nossa Senhora do Socorro em 1960



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Foto nº 1 - Discriminação das despesas da Festa de Nossa Senhora do Socorro (sem data). Escrituração feita por José Carneiro, mordomo da festa. Segundo a filha Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares, tratou-se da festa do ano de 1960.




Despesa
Valor
Música dos B. V. Portuenses
4100$00
Música dos B. V. de Rio Mau
2500$00
Fogo de quatro fogueteiros
7600$00
Iluminação
2750$00
Armação [dos andores]
1000$00
Zés Pereiras
450$00
Autofalante
250$00
Carne para as músicas [bandas]
1222$00
Carpinteiro do sr. Geraldes [do Juncal]
162$00
João de Magalhães  [que deitou o fogo]
50$00
Tipografia: programas e estampas
290$00
Selo de 35 programas
14$40
Licença da Câmara  para as músicas
66$00
Guarda [Nacional] Republicana
360$00
Carro em que regressou a GNR
40$00
Câmara {Municipal]: Energia e eletricista
137$50
Flores e correio
58$80
Pão de trigo e de milho
96$00
4 quilos de cavacas para os anjinhos
100$00
Despacho do fio de cobre para iluminação
9$70
Expediente
28$80
Mercearias
763$60
Gratificação para o electricista
50$00
Vinho para as músicas
1000$00
Padres
450$00
Total
23447$60





Foto nº 2 - Saldo da festa : "Rendimento de tudo da festa da Senhora do Socorro" (s/d). Escrituração feita por José Carneiro, mordomo da festa.


Receita
Valor
Rendeu a festa em dinheiro
 4240$20
Apurou-se em ouro
1817$50
Recebeu-se dos mordomos de Paredes
5791$60
Recebeu-se dos mordomos de Viadores
5186$50
Renderam as flores [de papel]
642$00
 Total
17677$80



Despesa
23447$60
Apuros
 17677$80
Saldo [negativo]
5769$80

Observ. O prejuízo foi dividido pelos 6 mordomos da comissão organizadora (cabendo 961$63, a cada um…). Outros tempos, outras gentes,outros valores!...

A Nitas lembra-se, tinha ela 13 anos já feitos, de andar na festa a angariara dinheiro com as florinhas de papel que eram espetadas na lapela do casaco dos homens, à entrada do recinto. As receitas que daí provieram ainda atingiram uma cifra razoável para a época: c. de 650$00... Também era vulgar as as pessoas ofereceram à Nª Srª do Socorro objetos em ouro (brincos, cordões, etc.), como forma de pagamento de promessas.

Repare-se, por outro lado, que o foguetório já nessa altura representava 1/3 do total das despesas, e mais de outro tanto a contratação de duas bandas de músicas, pagas em dinheiro e em géneros (38%). Nas despesas com os padres, inclui-se p pregador, que vinha de fora.

José Carneiro foi mais de uma vez mordomo destas festas de Nº Srª do Socorro, que se realiza todos os anos no último domingo de julho.  LG

PS - Cópia de documentos, avulsos,  do espólio de José Carneiro.Infelizmente sem data.

Luís Graça (com contributos da Nitas e da Mi)

29 agosto 2012

José Carneiro (1911-1996), construtor civil de ramadas


Foto nº 1 - Duplicado de recibo de 30 de dezembro de 1953

José Carneiro (1911-1996) exerceu, durante décadas, a atividade de “construtor civil de ramadas”, vulgo ramadeiro. Era uma atividade sazonal, que conciliava com a de agricultor e também, mais tarde, de negociante de uvas. Tinha fama de ser exigente para com os seus trabalhadores, e oferecer aos seus clientes garantias de obra acabada, bem feita e duradoura.

Tanto quanto sei, foi ofício que herdou do pai, e que foi continuado pelo irmão mais velho, António Carneiro, nascido em 1909 e já falecido (em data que não posso precisar; 1974 ou 1975, diz a Alice). José era o irmão mais novo da família Carneiro, de Ribeirinho. O pai deve ter morrido em 1929, quando ele tinha 17 ou 18 anos. O pai terá começado a trabalhar em ramadas na Casa da Igreja (ou de Paredes). O José trabalhou com o seu mano António como ramadeiro, até casar, em 1938. Depois estabeleceu-se por conta própria.

Devia estar inscrito como “construtor civil de ramadas” na repartição de finanças do Marco de Caneveses, e como tal sujeito a contribuição industrial, embora possivelmente isento. Não há documentos, no seu espólio, comprovativos da contribuição industrial. Pagava, entretanto, o imposto municipal de "prestação de trabalho", que existiu até ao 25 de abril

 Passava recibos dos serviços prestados, quando lhe eram pedidos. Um dos livros de recibos que nos chegou às mãos abarca uma década de atividade (1952-1962). O livro deveria ter 100 recebidos (original e duplicado). O nº de duplicados que contámos é de 90. Faltam portanto 10. (Segundo o Zé, seu filho mais novo, e que trabalhou com ele na década de 1960, alguém, um amigo,ter-lhe-á sugerido que mandasse fazer, numa tipografia do Marco, duas cadernetas de recibos; uma delas  ficou por estrear).

Os recibos eram passados pelo próprio, escritos a tinta azul, numa letra certinha de mais para quem só tinha a 3ª classe. Temos, no seu espólio, duas canetas fininhas, de aparo, que ele utiliazava em casa. Raramente usava papel químico, pelo que os duplicados eram também escritos a tinta. Os duplicados estão numerados até ao nº 19. Depois disso, deixa de haver numeração. Faltam os duplicados nº 1 a 4, 7, 14, 17 e 18.

O primeiro (recibo nº 5) data de 4 de fevereiro de 1952 e o último, de 28 (ou 22?) de fevereiro de 1962.

A equipa de ramadeiros era flexível, variando entre 3 a 7, incluindo o próprio construtor e pelo menos um dos seus filhos (primeiro o mais velho, o António, e depois o Manuel Ferreira Carneiro e, mais tarde, nos anos de 1963 a 1967, o José Ferreira Carneiro, o benjamim da família). 

Em geral, o construtor ganhava o dobro dos seus oficiais. Os honorários do construtor vão, nesta época (em que praticamente não havia inflação) , entre os 30 e os 50 escudos, dependendo do cliente e da distância da obra em relação ao local do estabelecimento principal (que era Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses). As ferramentas eram dele. O material (esteios, em pedra, e mais tarde em cimento, bem como o fio de arame) eram fornecidos pelo cliente (, o proprietário).

Durante toda esta década a equipa de ramadeiros era variável, de acordo com a dimensão da obra e a disponibilidade do pessoal. Mas há elementos que são mais ou menos constantes:

(i) José Carneiro;

(ii) José de Sousa ou “Zé de Celeiro” (residia em Ambrões; ganhava mais do que os outros, presumindo-se que fosse o mais experiente e desembaraçado: em geral, em termos de grelha salarial, havia uma diferença de 5 a 7,5 escudos entre ele e os restantes oficiais; acabaria de estabelecer-se por conta própria, no início dos anos 60; nessa altura, por volta de 1961, ganhava quase tanto como o patrão: por ex., 45$00, cinco escudos menos que o patrão, e dez escudos mais do que os restantes companheiros);

(iii) António Vieira (um nome constante ao longo deste período, começou por ganhar 20$00 em 1952 e 30$00 e 32$00 em 1962; era muito amigo do José Carneiro, e pessoa da sua confiança);

(iv) Manuel de Sousa:

(v) Francisco de Sousa;

(vi) Armando Cardoso (desde 1954);

(vii) António Vieira Couto (, de Viadores)

(viii) Francisco Vieira Leitão

(ix) José Ferreira Carneiro (às vezes, coadjuvado pelo irmão; era sobrinho do patrão)…

Outros nomes (por ordem alfabética), que trabalharam com José Carneiro ao longo destes anos (1952/62): Adriano Carneiro, Agostinho Ribeiro, Américo Ferreira Carneiro (sobrinho do empresário), António Almeida, António Fernandes, António Monteiro, António Peixoto, Ernesto M. Marques, João Magalhães, Joaquim Barbosa, Joaquim Madureira, Joaquim M. Mendes, Joaquim P. Lucas, José Soares (Nogueira), Manuel Barbosa, Manuel Couto, etc.

Em 1954, o filho mais velho do construtor, o António Ferreira Carneiro, ganhava 15$00, menos de metade que o pai (40$00), enquanto os restantes oficiais ganhavam 20$00, numa empreitada na Casa de Manhuncelos (Data: 19/12/1954. Valor total do recibo: 595$00). 

O António deve ter deixado de trabalhar com o pai por volta dos finais de 1957, altura em que emigrou para o Brasil (já em 1958), sendo substituído por outro filho, o Manuel Ferreira Carneiro, que nos anos de 1958/59 ganhava 18$00, passando a 20$00 em 1960 , e depois 23$00, em 1961, e 25$00/26$00, em 1962… (O Manel irá depois para o Porto, onde trabalhou numa fábrica e se casou, antes de emigrar para França).

Poucos recibos, desta época, ultrapassam o valor de 1 conto de réis. Um deles diz respeito a uma obra em Vila Boa de Quires, no concelho do Marco de Canaveses, tem data de 29/11/1953 e está assim discriminado:

Nome
Dias
Salário
Total
José Carneiro
18
50$00
1900$00
José de Sousa
18
27$50
495$00
António Vieira
18
20$00
360$00
António Couto
18
20$00
360$00
António S. Almeida
18
20$00
360$00
Francisco V. Leitão
18
20$00
360$00
José F. Carneiro e Luís (?)
14
20$00  (?)
266$00


Soma
4011$00

 Nesta data os honorários do construtor atingiam o máximo (50$00) deste período, o mesmo que cobrava no final, em 1962… A estes honorários a que acrescentar os dos filhos, que trabalham gratuitamente para a casa... Ele teria tabelas diferentes… para os “ricos” e os “pobres” (amigos, vizinhos…).

Num recibo sem data (mas do ano de 1956), referente a uma obra numa ramada do sr. Leite de Viadores, no valor de 215$00, o construtor  contabilizou apenas os dias (3) do seu pessoal (3), a 20$00 por dia (António Vieira, António Cardoso, e António Almeida), mais 1 do António Couto (20$00) e outro dia do Manuel Couto (15$00). Na parte que lhe tocava, escreveu o seguinte: José Carneiro, 1 dia, grátis.

O sr. Leite de Viadores – diz a Alice, sua filha  – era “fidalgo”, tinha rendeiros, várias quintas, era casado com uma professora, e tinha duas filhas, que iam à missa “todas pintadas”, e com lugar especial na igreja, apartadas do resto do provo cristão… Era amigo do José Carneiro. Segundo o Zé, este sr. Leite será o mesmo que lhe vendeu a propriedade da Carreira Chã, por volta de 1959, salvo erro, por 110 contos.

O José Carneiro também tinha “deferências” para com a Casa de Paredes (ou da Igreja), que era de gente “fidalga”, os maiores proprietários da freguesia, que faziam o favor de ser “seus amigos” (muito em especial a Dona Maria do Carmo, que morreu já depois do 25 de abril).

Na altura das vindimas, geralmente em outubro, o José Carneiro era contratado como “feitor do vinho”, supervisionando a descarga das uvas e a feitura e a medição (“feitoria”) do vinho nos lagares das diversas quintas da Casa da Igreja, arrendadas em regime de parceria agrícola (e anualmente renováveis pelo São Miguel).
- Formavam-se grandes comboios de carros de bois carregados com pipas de vinho, em direção à Casa da Igreja, na época das vindimas. - lembra o filho mais novo, o Zé.

A Casa de Paredes tinha dezenas de quintas. Havia um feitor geral que escolhia depois, geralmente por freguesia, um homem da sua confiança para zelar pelos interesses da Casa (o pagamento das rendas eram em géneros, sendo o vinho e o milho os produtos mais importantes na época).

Aqui ficam 5 registos de recibos que o José Carneiro passava anualmente, relacionados com esta atividade “liberal” de “feitor do vinho” (1953- 1957):

(i)                  16 de outubro de 1953: Casa de Paredes – Vinho, 28 dias, a 25$00 por dia, 700$00. Sobrinhos da Casa, 12 dias, a 20$00 por dia, 300$00. Total: 1000$00;
(ii)                31 de outubro de 1954 Casa de Paredes – Vinho,   15 dias, a 25$00  por dia, 375$00. Sobrinhos da Casa,   5  dias, a 25$00 por dia, 125$00. Total: 500$00;
(iii)               11  de outubro de 1955: Casa de Paredes – Vinho, 20 1/5 dias, a 25$00 por dia. Total: 572$50;
(iv)              18  de novembro de 1956: Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 16 dias, a 25$00 por dia. Total: 400$00;
(v)                26  de outubro de 1957:  Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 10 dias, a 25$00 por dia. Total: 250$00.

 José Carneiro tinha “olho para o negócio”. A compra dos materiais (fio, esteios...)  era, em geral, por conta do dono da obra, como já se disse acima. Nos seus honorários como ramadeiro, incluía também “o desgaste das ferramentas”. Numa obra, em Amarante, para o sr(a). “D. Costa Santos”  (?), ele faturou um valor de 742$30, incluindo despesas de pessoal (ele, o filho António, o sobrinho Américo e mais oficiais, Armando Cardoso e António Vieira) e de comboio (106$30). Em “nota de rodapé” escreve no duplicado, a tinta azul: “Obra [con]tratada por 2000$00. Gainho (sic) por fora,  1250$00)"... Não se sabe se os materiais eram foram fornecidos pelo proprietário, embora nos pareça que sim.

Num outro trabalho para o Dr. Leal Olibeira (sic) (, ao que parece, no Marco de Canaveses, segundo informação do Zé),   o José Carneiro faturou, só por sua conta, 16 dias a 50$00 (vd. fotocópia do recibo, foto nº 1). Todo o restante pessoal (António Vieira, António Couto, João Magalhães,  Francisco Leitão, José de Sousa ) ganhava 20$00 por dia, com exceção do José de Sousa que auferia sempre mais (25$00). Há também dois meios dias   por conta do “carreto do material” (sic), no valor de 90$00. O total da obra foi de 2185400, mais ou menos equivalente a duas semana de trabalho. Os recibos (dois) são de 30 de dezembro de 1953 e 16 de janeiro de 1954. 

É preciso esperar pelo ano de 1961 (20 de janeiro) para encontrar outro recibo (passado a José Diogo Sampaio, que também não sabemos quem é) com os honorários de 50$00 por dia, o máximo da tabela...

Nesta época (início dos anos 60), José Carneiro fez vários trabalhos para a Casa de Paredes, como ramadeiro, faturando o seu trabalho  a 45$00 por dia. Provavelmente ele fazia uma atenção para os seus amigos da Casa da Igreja, gente que de resto tinha muita confiança e consideração por ele, muito em particular a sra. D. Emília, herdeira da D. Maria do Carmo. Nessa época o seu oficial mais bem pago era o António Vieira: 28$00 por dia.

 Alguns dos trabalhos para a Casa de Paredes que consegui apurar, através da caderneta de recibos:

(i) 7 de fevereiro de 1959 (dois recibos): total: 4412$50 (José Carneiro tem 32 ½ dias a 35$00 por dia, e o António Vieira 37, a 26$00, fora o restante pessoal, incluindo o Manuel F Carneiro, 36 ½ dias, a 18$00 por dia);

(ii) 18 de abril de 1960: total: 1235$00 (José Carneiro, 8 dias, a 35$00 por dia; o António Vieira, 13 ½ a 26$00, e o Manuel F. Carneiro, filho do patrão, a 22$00, o mesmo que os restantes ajudantes: Adriano Carneiro, Alfredo Pereira, Agostinho B (‘);

(iii) 18 de fevereiro de 1961: total: 3885$50 (José Carneiro, 22 1/5, a 45$00 por dia);

(iv) 22 de fevereiro de 1961: total; 1399$00 (José Carneiro, 11 dias, a 45$00 por dia) de abril de 1961: total: 279$50 (José Carneiro, 1 1/5 a 45$00 por dia, o António Vieira 2 dias a a 28$00 por dia, o Manuel Couto 2 dias a 25$00 por dia, e o Manuel F. Carneiro, também dias a 23$00 por dia);

(v) 2 de janeiro de 1962: total: 2921$50 (José Carneiro, 19 1/5 dias a 45$00 por dia, com o António Vieira a 30$00 e o restante pessoal, incluindo o filho a 26$00…

Estranha-se que neste período não apareçam referências a obras longe de casa... Havia temporadas (não sei se neste período) em que o José Carneiro, com pelo menos um dos seus filhos, e vários elementos da sua equipa, iam por períodos relativamente longo, fazer ramadas na região do Douro. O Zé falou-me de um delas, no Pocinho, por volta de 1963/64, numa quinta do sr. Montenegro, da Casa de Manhuncelos, amigo do José Carneiro e pessoa politicamente influente na região. 

-Só vínhamos a casa no fim do mês. Comíamos e dormíamos lá. - informou o Zé.

O Gusto confirma-me que terá sido a única obra que o nosso sogro fez na região do Douro. A propriedade está hoje submersa pela barragem do Pocinho. O proprietário sabia que estava a valorizar os terrenos, com a construção de uma grande ramada.

Em 1978, de acordo com uma das suas agendas que chegaram até nós, o José Carneiro ainda trabalhava, sempre sazonalmente, como ramadeiro, profissão que o "pai-patrão" não conseguiu passar a nenhum dos filhos rapazes (António, Manuel e José) que escolheram a cidade para viver e trabalhar (e temporariamente a emigração, no caso dos dois primeiros) .

Dos seus assalariados, houve um, pelo menos, que se transformou em em empresário no ramo, o José de Sousa (também conhecido como Zé do Celeiro). Segundo a Alice, o pai trabalhou praticamente até ao fim, ou seja, até ter tido um AVC, em 1980, com 69 anos. Ofereceu a sua preciosa caixa de ferramentas a um ou mais  dos seus antigos colaboradores, como o Armanmdo Cardoso.  A família tem pena que as ferramentas do José Carneiro, ramadeiro,  tenham saído de casa e e se tenham dispersado.

Numa das pequenas agendas que ele usava para registar notas da sua atividade profissional (como ramadeiro, como agricultor e como negociante de gado), pode ler-se:

"José Carneiro - Ano de 1978: Gainho (sic) nas ramadas:
82,5 dias x [ ?] = 34525$00."

Nessa época, ele cobrava 400$00 e mais  por dia, como ramadeiro, o que era uma boa féria para a época, mas que reflectia já as tendências inflacionistas da economia portuguesa do pós-25 de abril. Veja-se um "apanhado" das suas contas nesse ano, conforme documentos avulsos que encontrámos no seu espólio (Fotos nº 2 e 3).


Foto nº 2 - [1978]: Discriminação dos dias de trabalho do ramadeiro José Carneiro (82 1/5) e da equipa:   A. V. [António Vieira]: 44,5> A. Rx. [António Rocha ?]: 45,5; Ar. C. [Armando Cardoso]: 19,5; M. V. [?] [Manuel Vieira ?]: 22.


Foto nº 3- [1978]: Uma das últimas obras  que o José Carneiro deve ter feito, e em que gastou 22 dias, e pelos quais recebeu um total de 10325$00. Cliente: António [de] Ermezinde, telef. 972560.

Registe-se op facto de com ele continuarem a trabalhar companheiros dos anos 50 como os amigos e vizinhos António Vieira e Armando Cardoso. Ao longo destes anos, o José Carneiro ganhou honradamente o seu dinheiro e deu a ganhar, não havendo grande oferta de trabalho na freguesia de Paredes de Viadores. Foi uma atividade que ele exerceu, durante muitos anos, sem concorrência a nível local, e que lhe dava prestígio, a para da sua condição de proprietário rural, dono de duas quintas, Candoz e a Carreira Chã (esta arrendada a caseiros).

Luís Graça (com contributos do Gusto, da Nitas, da Alice e do Zé)


27 agosto 2012

Gente feliz... com uma lágrima ao canto do olho (14): Encontro da família Ferreira, Paredes de Viadores, 10 de julho de 2011

Encontro da Família Ferreira, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, 2011

Gerações

1ª João Ferreira (1821/1897), casada c/ Mariana Soares

2ª João Ferreira (1847/1918), casado c/ Maria Joaquina

3ª Balbina Ferreira (1876/1938, casado c/ José Nunes Ferreira (“Vitorino”)

4ª Os nossos avós: 


António Ferreira, casado c/ Amélia Rocha, 
Maria Ferreira, casada c/ José Carneiro, 
Rosa Ferreira, casada  c/ José Mendes,
 e Ana Ferreira, casada c/ Joaquim Cardoso (já todos falecidos), 

sendo o mais velho António, nascido em 1910, e a mais nova, Ana, nascida em 1917.

Somos muitos, mais que as mães,
Ana, Rosa e Maria,
Nascidas em Fandinhões,
Muy antiga freguesia.

Muy antiga freguesia
Do ex-concelho de Bem Viver,
Onde Ferreira era família,
Gente de ser e de parecer.

Gente de ser e parecer,
Sendo António o varão,
No Brasil não quis morrer,
Vitorino, homenzarrão!

Vitorino, homenzarrão,
Filho de outro Vitorino,
O do chicote na mão,
‘Inda mais bravo e mais fino!

‘Inda mais bravo e mais fino,
P’ra o salteador de estrada,
Armado em pobre menino,
Nesses tempos de fome danada.

Nesses tempos de fome danada,
Cresceram nossos avós,
E com tanta filharada,
Mimos só houve p’ra nós.

Mimos só houve p’ra nós,
Os da sexta geração, 
Cujos queridos trisavós
Foram Mariana e João!

Foram Mariana e João,
Uma Soares, outro Ferreira,
Deles seis filhos nascerão,
Todos com eira e com beira.

Todos com eira e com beira,
Rapazes e raparigas,
Três Soares e três Ferreira,
E o resto são só cantigas.

E o resto são só cantigas,
Os rapazes só Ferreira,
Os Soares, tudo ‘prigas,
Mas que grande trabalheira!

Mas que grande trabalheira,
A do nosso bisavô, peleiro,
Casado com lavradeira,
Neta de João, o primeiro.

Neta de João, o primeiro,
Que casou com a Mariana,
Bom rapaz, melhor olheiro,
Porque ela… tinha grana!

Porque ela tinha grana,
Comprou terras de Candoz,
E não contente, a magana,
Foi mais longe até Leiroz.

Foi mais longe até Leiroz,
E em Fandinhões casou neta…
Se aqui estamos todos nós,
Foi graças a essa avó esperta.

Foi graças a essa avó, esperta,
Tão velha como o Brasil,
Que temos janela aberta
P’rá vida, sendo mais de… mil.

P´rá vida, sendo mais de mil,
Os Ferreira, por esse mundo,
São uma família gentil…
A todos, xicoração fundo!

Paredes de Viadores, 10 de Julho de 2011 

[Quadras de Luís Graça]


Encontro da família Ferreira,
28 anos depois do 1º encontro em Fandinhães (1983).

Lembrando os que, a contar da 4º geração, 
a dos avós dos organizadores deste encontro, 
já partiram 
e de quem guardamos uma doce saudade

(i) António Ferreira, e Amélia Rocha,
Manuel Nunes Ferreira e Maria da Rocha, 

Balbina Nunes Ferreira, 
Jorge Carvalhais.

(ii) Maria Ferreira e José Carneiro,
Carmen Ribeiro,

(iii) Ana Ferreira e Joaquim Cardoso
Luísa Cardoso,

(iv) Rosa Ferreira e José Mendes,
 Nelo Mendes

24 abril 2012

O nosso saudoso Luís Henriques (1920-2012), um amigo de Candoz


Lourinhã > Abril de 1999 > Luís Henriques (1920-2012) e Maria da Graça (n- 1922)


1. Texto de Luís Graça, publicado no jornal Alvorada, [Lourinhã,] nº 1103, 20 de abril de 2012, p. 26

Morreu o Luís Sapateiro (1920-2012), uma figura muita popular e querida da nossa terra 





Luís Henriques, mais conhecido por Luís Sapateiro, nasceu na Lourinhã em 1920. Homem de fé, morreu no passado domingo de Páscoa, dia 8, na Atalaia, no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, onde vivia desde 2008 com a esposa, Maria da Graça. 

 Filho de Domingos Henriques e de Alvarina de Sousa, ficou órfão de mãe, aos dois anos. Viveu nos primeiros anos de infância com a nova família do pai, que casou pela terceira vez. Ao todo teve uma dúzia de irmãos. Depois de feita a 4ª classe, o seu primeiro emprego foi como marçano na loja do fotógrafo e comerciante Manuel Lourenço da Luz, pai do fotógrafo António José da Luz (Foto Luz).

Aos 13 anos, terá uma nova família de acolhimento, a do seu tio materno, Francisco de Sousa (Fofa), músico e industrial de sapataria. Aprende o ofício de sapateiro. Aos 20 anos assenta praça nas Caldas da Rainha. Entre julho de 1941 e setembro de 1943, esteve como expedicionário na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A saudade da terra era mitigada pela presença de diversos lourinhanenses que pertenciam à mesma unidade. Do Mindelo escreve à sua namorada, futura noiva e esposa: Maria, minha cachopa,/ Não me sais do pensamento, / Tão logo saia da tropa, /Trataremos do casamento

De regresso à Lourinhã, faz sociedade com o seu irmão Domingos Severino. Abrem a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda. Casa, entretanto, em 1946. A 29 de janeiro de 1947 nasce o seu primeiro filho, Luís. Até 1964, terá ainda mais três raparigas: Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel. 

Atleta amador, joga futebol e é treinador das camadas juvenis, ao mesmo tempo que participa na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o Sporting Clube Lourinhanense (SCL) até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia e ainda as irmandades de N. Sra dos Anjos e de São Sebastião. Quando morreu, era de há muito o sócio nº 1 do SCL, coletividade que de resto sempre o acarinhou e o homenageou, tanto em vida como na morte.

Era um bom lourinhanense, muito querido e estimado por toda a gente. Espirituoso, bem humorado, com jeito para o improviso poético, definia assim a sua terra: Lourinhã, uma vila catita, / Bonita, sem vaidade,/ tem montras como uma cidade, / Mas também ninguém nos engana: / Ao fim de semana, / Sem sol, sem bola e sem missa, / É uma terra de preguiça… 



Trabalhador por conta própria, deu trabalho a muitos sapateiros. O seu negócio teve altos e baixos. Ainda está na memória de muita gente o local da sua última oficina, na Praça Coronel António Maria Batista, nº 9. Daí também o seu desabafo, sob a forma de parlenda popular: À segunda feira [o tradicional dia de descanso dos sapateiros] , o trabalho abunda; à terça, dor de cabeça; à quarta, trabalho à farta; à quinta, dança a pelintra; à sexta, o patrão é uma besta; ao sábado, o patrão arreliado… passa-se para o outro lado! 


Foi, além disso, um bom pai e um avô carinhoso. Tinha 12 netos e 5 bisnetos. Viveu pobre e morreu pobre, mas com dignidade, vítima de doença prolongada. Escreveu um diário (cerca de 500 páginas manuscritas) entre 2008 e 2011.

Os seus familiares e amigos mais próximos lembrá-lo-ão sempre como um homem simples mas único, que irradiava alegria de viver e boa disposição. Não deixa “obra feita”, como sói dizer-se. Mas o seu exemplo de generosidade, bondade e otimismo perdura para além da morte. Para os seus filhos, netos e bisnetos, foi um privilégio tê-lo como pai e avô. Para eles, foi e será sempre o melhor pai e avô do mundo.

Uma palavra muito especial de agradecimento é devida à direção do SCL e ao pessoal do Lar e Centro de Dia de N. Sra. da Guia, na Atalaia, bem como ao médico dr.Rui Martins. Mas também aos seus parentes, amigos, conterrâneos e vizinhos que se interessaram pelo seu estado de saúde e que o acompanharam até à sua última morada na terra, incluindo os elementos do Coro Municipal da Lourinhã, Rui Mateus, Moura, Quim Zé e Ana Mateus que no cemitério cantaram para ele a famosa e sublime canção alpina Signore delle cime (do italiano Giuseppe de Marzi, 1958). 

Texto e foto: Luís Graça.

16 abril 2012

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte III)

Luis Henriques (19.8.1920-8.4.2012)  > Praia da Areia Branca, esplanada do Bar dos Cinco Paus > 17 de março de 2012 > A sua despedida do mar azul,com as Berlengas ao fundo, que ele tanto amava... 

(Continuação)

Era um bom lourinhanense, muito querido e estimado por toda a gente. Espirituoso, bem humorado, com jeito para o improviso poético, definia assim a sua terra: 


Lourinhã, uma vila catita, 
Bonita, sem vaidade,
Tem montras como uma cidade, 
Mas também ninguém nos engana: 
Ao fim de semana, 
Sem sol, sem bola e sem missa, 
É uma terra de preguiça… 

Ou noutra variante: 

Lourinhã tem três entradas, 
Três saídas, 
Três igrejas, 
Três ermidas,
Três  moinhos de vento 
 E ladrões em todo o tempo.

Era um homem de palavra e de palavras, que nunca usou como arma de arremesso contra ninguém. Talvez por essa razão não tinha inimigos conhecidos: 

Palavra fora da boca 
É pedra fora da mão, 
Tu pensa bem as palavras 
E tira-as do teu coração.

Trabalhador por conta própria, deu trabalho a muita gente, numa época em que o emprego era escasso e mal remunerado… Muitos deles, os que ainda estão no meio dos vivos, falam dele como um patrão que dava camisa ao seu empregado... Ao fim da semana, podia não haver dinheiro em casa, mas não falhava a semanada do seu pessoal...


Tinha, por outro lado,  inúmeros clientes, quer da vila, quer das aldeias mais a norte do concelho (do Sobral a São Bartolomeu) e até fora do concelho (Bufarda, por exemplo). Terá percorrido, na sua vida, muitas dezenas de milhares de quilómetros, de bicicleta, levando e trazendo calçado dos seus “fregueses”, que muito o estimavam. 

O seu negócio teve altos e baixos, e conheceu várias sociedades e vários locais. A última e a mais conhecida das suas oficinas foi na Praça Coronel António Maria Batista, nº 9 (junto ao beco quer liga à Rua João Silva Marques). Daí também o seu desabafo, sob a forma de parlenda popular: 

À segunda [o tradicional dia de descanso dos sapateiros] , o trabalho abunda; 
à terça, dor de cabeça;
 à quarta, trabalho à farta; 
à quinta, dança a pelintra; 
à sexta, o patrão é uma besta; 
ao sábado, o patrão arreliado… passa-se para o outro lado! 

Foi, além disso, um bom pai e um avô carinhoso. Tinha orgulho nos seus filhos, netos e bisnetos, os quais, por sua vez, tiveram a rara felicidade de estarem junto dele na hora, difícil, da sua partida deste mundo. Viveu pobre e morreu pobre.  A maior riqueza que lhes deixa são os valores por que norteou a sua vida, o seu sorriso, a sua bondade, o seu exemplo de  trabalhador honesto e incansável, enfim, a sua alegria de viver que contagiava tudo e todos.


Foto à esquerda, acima: Lourinhã > Abril de 1991 > Luís Henriques (1920-2012) e a sua companheira de toda uma vida, Maria da Graça (n. 1922)

Morreu com dignidade, vítima de doença prolongada. Viveu os seus últimos quatro anos no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, na Atalaia, onde encontrou uma segunda família. 


Em 30/10/2008 escrevia no seu diário: “(…) nesta nova família que nos arranjaram, fico triste pelos que se encontram piores do que eu. Não tenho culpa de ter nascido assim. Por tudo isto, sou feliz, embora pobre, mas alegre, e gosto de conviver com todos. É esta a minha política: esquecer as minhas dores lembrando dos que se encontram bem piores do que eu (…)”.

Os seus familiares e amigos mais próximos lembrá-lo-ão sempre como uma homem simples mas único que irradiava alegria de viver e boa disposição à sua volta.

Uma palavra muito especial de agradecimento é devida à direção do SCL e ao Lar e Centro de Dia da Atalaia (na pessoa da sua diretora técnica dra. Ana Caetano, do médico dr. Rui Martins e dos demais profissionais que cuidaram do meu pai, até à sua morte, com uma inexcedível competência, dedicação e humanidade). Mas também aos seus parentes, amigos, conterrâneos e vizinhos que se interessaram pelo seu estado de saúde e que o acompanharam até à sua última morada na terra. 


Por fim, um xicoração muito especial aos elementos do Coro Municipal da Lourinhã, Rui Mateus, Moura, Quim Zé e Ana Mateus que no cemitério cantaram para ele e para todos nós a famosa e sublime canção alpina “Signore delle cime”, composta em 1958 pelo italiano Giuseppe de Marzi: 

Dio del cielo, Signore delle cime,
Un nostro amico hai chiesto alla montagna. 
Ma ti preghiamo, ma ti preghiamo: 
Su nel Paradiso, sul nel Paradiso lascialo andare per le tue montagne…

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte II)




Lourinhã > Vídeo feito em 19 de agosto de 2010, no 90º aniversário > Luis Henriques, nascido na Lourinhã, em 19 de Agosto de 1920, filho de Domingos Henriques e Alvarina de Jesus. Casado com Maria da Graça, 88 anos. Foi expedicionário em Cabo Verde (Mindelo, 1941/43). 

Órfão de mãe aos dois anos, foi criado por um tio, sapateiro e músico (Francisco, Fôfa). Começou a trabalhar aos 9 anos, como caxeiro, na loja do fotógrafo da terra (e o primeiro da Praia da Areia Branca, no final dos anos 20). Aos 13, aprendeu o ofício do tio. Fez a tropa, no RI 5, foi mobilizado para Cabo Verde. Regressou à vida civil em Setembro de 1943. Casou em 2 de Fevereiro de 1946, com Maria da Graça, natural de Nadrupe (e que como muitas outras raparigas camponesas, do seu tempo, foi criada de servir em Lisboa, até casar). 

Estabeleceu-se por conta própria depois da tropa, os negócios conheceram altos e baixos. O futebol foi sempre a sua paixão, primeiro como jogador e depois como treinador (nomeadamente das camadas juvenis e júniores). É o sócio nº 1 do Sporting Club Lourinhanense. O Ti Luis Sapatêro  é uma das figuras mais populares e queridas da sua terra. Tem 4 filhos: Luís, Graciete, Maria do Rosário, e Ana Isabel. Tem 12 netos e 4 bisnetos. Vive hoje, com a esposa, no Lar Nossa Senhora da Guia, Atalaia, Lourinhã. Ainda escreve o seu diário... e lê (jornais e romances).

Vídeo (10'  50''): ©    Luís Graça (2010). Alojado em You Tube > Nhabijoes 

(Continuação)


Aos 20 anos assenta praça no Regimento de Infantaria nº 5, Caldas da Rainha. Em 1941 parte para Cabo Verde, como expedicionário, com o posto de 1º Cabo Inf da 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5. Tinha memórias muito vivas (incluindo registos fotográficos) dos difíceis tempos que passou no Mindelo, Ilha de São Vicente (26 meses, entre julho de 1941 e setembro de 1943; nos últimos 4 meses esteve hospitalizado, por problemas pulmonares, entre maio e agosto de 1943).
A saudade da terra era mitigada pela presença de diversos lourinhanenses, o Caixaria, o Boaventura Horta, o Jaime Filipe, o Leonardo, e outros - naturais da vila, da Atalaia, da Serra do Calvo... - que pertenciam à mesma unidade (RI 23, constituído na Ilha de São Vicente, 1941/44).

 Numa época de elevado analfabetismo, sacrificava os seus tempos livres escrevendo dezenas de cartas por semana em nome de muitos dos seus camaradas. Aos 91 anos ainda se lembrava dos números de tropa (!) de alguns dos seus camaradas, e até das moradas (!) para onde enviava as cartas. 

Em nome do Fortunato Borda d'Água, do Cercal, Azambuja, por exemplo, chegava a escrever 22 cartas por semana... O Fortunato tinha duas namoradas, "uma que chorava ao pé da mãe dele, e outra que se ria, em plena rua"... O meu pai um dia teve que o ajudar a decidir-se:
- Ó Fortunato, afinal de quem é que tu gostas mais ? Com queres casar ? Da que se ri, na rua, ou da que chora no ombro da tua mãe ?...
- Ó Luís, claro que é da que chora...


  A seca e a fome que assolaram Cabo Verde nessa época, e que fizeram dezenas de milhares de mortos, tiveram impacto na sua consciência de bom português e bom cristão. O seu "impedido", o Joãozinho, que ele alimentava com as suas próprias sobras do rancho, também ele morreu, de fome e de doença, em meados de 1943. Comove-se ao dizer-me que deu à família do miúdo todo o dinheiro que tinha em seu poder (c. de 16$00) - na altura, estava hospitalizado -, para ajudá-la nas despesas do enterro. Lembro-me de ele me dizer que um cabo ganhava na época qualquer coisa como 130$00 por mês... De volta à metrópole, não terá mais do que 200$00 ou 300$00 no bolso. Para ele o dinheiro nunca foi fêmea...

Do Mindelo escreve à sua namorada, futura noiva e esposa: 


Maria, minha cachopa,
Não me sais do pensamento,  
Tão logo saia da tropa, 
Trataremos do casamento… 

De regresso à Lourinhã, em setembro de 1943, vinha cheio de saudades… de comer uvas. Faz sociedade, durante mais de 10 anos, com o seu irmão Domingos Severino. Abrem a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda. Chegam a ter bastantes empregados. Na época ainda não havia produção industrial de calçado. 

Casa, entretanto, em 2 de fevereiro de 1946 com a Maria da Graça, natural do Nadrupe, criada de servir de senhores e senhoras de Lisboa, da Praia e da Lourinhã, desde tenra idade [Foto à esquerda, acima].

A 29 de janeiro de 1947 nasci eu. Até 1964, terá ainda mais três raparigas: Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel. [Foto à direita, eu e a Graciete, por volta de 1953].

Continua a jogar futebol, como atleta amador, e ao mesmo tempo participa na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o SCL - Sporting Club Lourinhanense,   até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia. É mordomo de festas (como a da Sra dos Anjos e de São Sebastião). 


Quando morreu, era de há muito o sócio nº 1 do SCL, coletividade que de resto sempre o acarinhou e o homenageou, tanto em vida como na morte.

(Continua)






Luís Henriques (1920-2012) é mobilizado  para Cabo Verde. 1º Cabo Inf, nº 188/41, 1º Pelotão, 3ª Companhia, 1º Batalhão, Regimento de Infantaria nº 5 (Caldas da Rainha). Esteve no Mindelo, S. Vicente,  entre Julho de 1941 e Setembro de 1943. Neste episódio, conta como foi de táxi da Lourinhã para Lisboa, em estrada de macadame (70 km), com mais camaradas, chegando atrasado à formatura para o embarque, em 15/7/41... Ouve, pela última vez, a caminho do Cais da Rocha Conde de Óbidos, a voz da sua amiga Fernandinha, que conhecera na Praia da Areia Branca... Quando  voltou, 26 meses depois, procurou-a e soube da triste notícia...da sua morte.

Vídeo (4'  14''):  ©  Luís Graça (2009). Alojado em You Tube > Nhabijoes  

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte I)


Luís Henriques, mais conhecido por Luís Sapateiro, nasceu na Lourinhã, distrito de Lisboa, em 19 de agosto de 1920, na atual rua da Misericórdia, num prédio hoje em ruínas. Homem de fé, morreu numa manhã soalheira de domingo de Páscoa, no passado dia 8 de abril, na Atalaia, no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, onde vivia com a esposa, Maria da Graça, desde meados de 2008. 


Morreu em paz, consigo, com os seus descendentes (4 filhos, 12 netos, 5 bisnetos), com Deus e com o mundo.

Tinha raízes, pelo lado do pai, Domingos Henriques, no Montoito, e pelo lado da avó materna, Maria Augusta de Sousa, em Ribamar. O meu avô paterno, que ainda conheci na infância, terá morrido com 91 anos. Usava muletas e fumava a sua beata: é a imagem que eu tenho dele. Dizia o meu pai que ele tinha ficado mal das pernas por causa do mar: como muitos agricultores das zonas ribeirinhas (Montoito, Atalaia, Areia Branca...), era nos tempos livres um mariscador, dedicando-se à apanha tradicional de polvos e crustáceos. Foi homem de teres e haveres, tendo casado três vezes. Do primeiro casamento, não teve filhos; do segundo, teve o meu pai e o meu tio (e padrinho de batismo), Domingos Severino, já falecido. Do terceiro casamento, teve "uma equipa de futebol e um suplente", como dizia, com graça, o meu pai.


Sua mãe, Alvarina de Jesus [, foto à esquerda], filha de Francisco Sousa, da Lourinhã, e de Maria Augusta, de Ribamar, morreu jovem, em 1922, de tuberculose, fato que o marcou para toda a vida: a mãe nunca lhe pôde dar um beijo!... E nos seus três últimos dias de existência, em que eu tive o privilégio de o acompanhar no seu leito de morte, evocou o nome da mãe Alvarina por mais de um vez. 

A minha avó paterna, Maria Augusta, nasceu em 1864, em Ribamar. Era uma Maçarica, que veio casar na Lourinhã, com um peixeiro.

Luis Henriques, órfão aos dois anos, viveu nos primeiros anos de infância com a nova família do pai, que casou pela terceira vez. Ao todo teve uma dúzia de irmãos. Fez a instrução primária (na época quatro anos de escolaridade) na velha Escola Conde de Ferreira (demolida pelo camartelo camarário antes do 25 de abril), sob a direção do saudoso Prof José António, que ainda conheci na minha infância, pai do nosso conterrâneo Jorge Pedro.

O meu primeiro emprego foi como… “máquina registadora e de calcular”, nas duas lojas do fotógrafo e comerciante Manuel Lourenço da Luz, que veio da Praia da Vieira para a Lourinhã, na primeira ou segunda década do séc. XX, e que foi pai do fotógrafo António José da Luz (Foto Luz). 

 A loja, na Rua Miguel Bombarda, vendia uma miscelânea de artigos fotográficos, vidraria, molduras, papelaria e bijuteria  [Vd. foto à direita, cortesia da bisneta do Manuel Lourenço da  Luz, a Ana Luz Pignatelli].

O Luís era muito rápido e fiável a fazer contas. Terá trabalhado para o seu primeiro patrão, na Lourinhã e na Praia da Areia Branca, a troco apenas da alimentação e de algumas gorjetas, durante cerca de 4 anos. 

O meu pai tinha recordações muito nítidas da época balnear, na loja da praia. Além da fotografia, o negócio do Manuel da Luz incluía o comércio de equipamento para caça e pesca. À segunda feira, ia com o patrão para a caça de patos, perdizes e coelhos ao longo do rio Grande…

Aos 13 anos, o meu pai terá uma nova família de acolhimento, a do seu tio materno, Francisco de Sousa (Fofa), músico e industrial de sapataria. Aprende o ofício de sapateiro. É criado com os seus primos António Francisco Sousa, Carlos Sousa e Milu (esta felizmente ainda viva; e todos eles com excelentes dotes musicais: o António tocava saxofone e fundou a primeira "banda de jazz" da terra, o conjunto Sol Do Ré Mi; o Carlos era um especialista em prata na banda da Lourinhã; e a Milú uma bela menina de coro; e o António Sousa era pai da Teresinha, a minha querida prima Teresinha, hospedeira de bordo em Angola, morta num um acidente aéreo, cujo ano não consigo precisar).

(Continua)