08 maio 2007

Os nossos dois novos doutores: Tiago Soares e João Carvalho

Porto > Queima das Fitas > 6 de Maio de 2007 > O Tiago, caricaturado, para a eternidade... "Quero ser sempre estudante", já lá diz a letra da canção de Coimbra...

Porto > Festa da Queima das Fitas > 6 de Maio de 2007 > Tiago Soares, 24 anos, Finalista do Curso de Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, filho da Nitas e do Gusto.

Porto > Festa da Queima das Fitas > 6 de Maio de 2007 > João Carvalho, 22 anos, Finalista do Curso de Solicitadoria pelo ISMAI. É o filho da Zezinha e do Eduardo, neto da Rosa e do Quim...

Fotos: Luís Graça (2007).

Vivam os nossos doutores...

Refrão:

Vivam os novos doutores,
O Tiago e o João,
Dignos de todos os louvores,
Nosso orgulho, nossa lição.

Para o Tiago:

Há muitas luas atrás,
Nascia o nosso Tiago,
Lourinho e bom rapaz,
Portuense dum carago!

É um lindo bebé-chorão,
Que a mãe embala, sem medo;
É p’ró Luís, o irmão,
O seu último brinquedo.

Teve uma infância feliz,
Numa família normal,
Foi saudável o petiz
Na sua terra natal.

C’a sua linda melena,
Parecia um querubim,
Cortá-la, foi uma pena,
Mas tudo tem o seu fim.

Constou que foi por receio
Duma calvície precoce,
Que na hora do recreio
O amor era mais doce.

No tempo em que andou na escola,
Dizem que muito se ria,
Mas também jogava à bola,
Imitando o Baía.

Outro sonho foi correr mundo,
Ser o Senna do kartódromo:
Mas foi desgosto profundo
Ver a morte no autódromo.

O Ayrton, campeão,
Marcou-lhe a puberdade,
Ficará no coração,
Como exemplo de heroicidade.

É Soares e Carneiro,
Gente de carácter forte,
C’o seu espírito aventureiro,
Irá sempre tentar a sorte.

Por cada porta fechada
Há mais duas por abrir,
- Pai, não quero a tua mesada,
Pró Brasil vou partir.

Não chores, querida Ana,
Ele vai ser grande surfista,
Mestre por Copacabana,
Do amor, especialista.

Estão à espera do doutor,
As garotas de Ipanema;
Que vida bela, Senhor,
Mais bela que no cinema.

E em Palermo, outra sabática,
Onde muito aprendeu,
Foi lição teórico-prática,
Ao Erasmus agradeceu.

Vocação p’ra medicina,
Não são cantigas e lérias,
Bons hotéis com piscina,
Já ele queria nas férias.

Tem o Porto outra magia
Para viver e para estudar,
Já passou na anatomia,
E o curso vai acabar.

Na Tuna do Orfeão,
Canta e toca, é rei e mago,
É outra grande paixão,
Do nosso doutor Tiago.

Muitas noites mal dormidas,
Olheiras fundas, cansaço,
Exames, horas sofridas,
Uma só vontade d’aço.

Teres chegado a esta meta,
Tiago, valeu a pena,
Como lá dizia o poeta,
Nunca foste de alma pequena.

Para o João:

Que linda hora esta,
Em que temos mais um doutor,
Para animar a nossa festa,
João, solicitador.

Pai feliz e mãe babada,
Que eu conheci de miúda,
Uma família adorada,
Tudo gente já graúda.

Parabéns por terem dado
O amor, a melhor lição,
Ao vosso filho prendado,
O nosso q’rido João.


Refrão:

Vivam os novos doutores,
O Tiago e o João,
Dignos de todos os louvores,
Nosso orgulho, nossa lição.

Letra: Luís Graça


Fotos de um grande dia (6 de Maio de 2007): Missa campal e benção das pastas (Estádio do Bessa) e o almoço-convívio da família e amigos do Tiago e do João (Hotel Ipanema, Porto) + o Cortejoa da Queima das Fitas, pelas ruas da cidade do Porto) (8 de Maio de 2007)

Porto > Estádio do Bessa > Missa da benção das pastas > 6 de Maio de 2007 > O Tiago entre outros finalistas. Na foto, aparece a falar ao telemóvel com a mãe, que estava na bancada central oposta, com o pai (Gusto), os tios (Luís e Alice) e os primos, Zézinha e Eduardo (pais do João Carvalho), além da Catarina irmã do João. À esquerda do Tiago, na foto, vemos o seu grande amigo João, com quem fez um estágio (Agosto e Setembro de 2005) no Rio de Janeiro, Brasil e o Erasmus em Palermo, Sícília, Itália (2º semestre de 2006).

Porto > Estádio do Bessa > 6 de Maio de 2007 > O João Carvalho entre colegas finalistas a assistir á benção das pastas no Estádio do Bessa.

"Fogo, acabou-se a bela vida de estudante!" - pensa o Tiago, ao fim da manhã, depois da maratona da missa e enquanto o cortejo da família e dos amigos se preparava para abancar à mesa do Hotel Ipanema... O João Carvalho, por sua vez, já a pensar no próximo curso que quer fazer, o de Direito...

Porto > Hotel Ipanema > 6 de Maio de 2007 > João Carvalho, brilhante aluno e futuro grande solicitador, vê com optimismo o seu futuro profissional... Na foto, o pai Eduardo à esquerda do filho, e em segundo plano a avó Rosa e a tia Natália...

Um dia que o Tiago e o João não vão esquecer...

Um beijo muito especial: o da Mãe Zeza...

Entre muitas prendas, o Tiago recebeu uma especial: um par de canetas, de prata dourada, pertencentes ao pai do Fernando e sogro da Natália (na foto, juntamente com a Mãe Nitas e os padrinhos Tio Quim e Tia Rosa), que era um conceituado médico na cidade do Porto...

Porto > Cortejo da Queima > 8 de Maio de 2007 > O Tiago durante o cortejo já com a sua cartola e bengala de Finalista.

Porto > Cortejo da Queima > 8 de Maio de 2007 > Ainda durante o cortejo o Tiago com a Tia Berta (casada com José Soares, irmão do pai Gusto) e a mãe toda babada a assistir.

Porto > Cortejo da Queima das Fitas > 8 de Maio de 2007 > O Tiago a receber da Mãe as 3 pancadas com a bengala na cartola (expressão de desejo de felicidade), com a assistência da Tia Berta.


Porto > Cortejo da Queima > 8 de Maio de 2007 > O abraço e o beijo da Mãe após as 3 pancadas com a bengala na cartola, sob o olhar da Tia Berta.


Porto > Cortejo da Queima > 8 de Maio de 2007 > Coitada da cartola no fim do cortejo depois de tantas pancadas com a bengala (desejos de felicidade), de colegas, amigos, familiares, e ...

01 março 2007

Bibó Porto, Bibó Gusto!

Porto > Restaurante Bibóporto > 1 de Março de 2007 > O Gusto, ao centro, celebrando o 60º aniversário. Com a família (Nitas, a mulher, e os filhos, Tiago e Luís Filipe; os cunhados, Zé e Teresa; Alice e Luís; Rosa e Quim; o imão, Zé e a esposa Berta)... Na foto, de costas, ainda aparece também o nosso sobrinho Miguel, filho da Rosa e do Quim... O Luís e a Alice vieram de Lisboa, de surpresa..


Agora sexagenário,
Tu não vais rir-te da gente,
És um homem solidário,
Hoje e daqui p’rá frente.

Gusto, amigo e cunhado,
Tu que não és um otário,
Vais pôr a nota de lado,
P’ra festa de aniversário.

Às vezes, andas f...,
Com os teus males da tripa,
É por muito teres vivido,
Não é por causa da Nita.

É uma coisa bem bonita
Esse longo casamento,
Não é filme, não é fita,
E é mais que um juramento.

E depois tens os teus filhos
Que em tua casa ainda moram,
Às vezes trazem cadilhos
Mas é facto que te adoram.

À mesa são uns senhores,
Os teus amigos e sócios,
Uns piores, outros melhores,
Para o trabalho e para os ócios.

Contigo, à tua mesa,
Muito gostam de abancar,
E uns para fazer surpresa,
Ao Porto vieram jantar.

Dia de anos, dia justo,
Parabéns vamos cantar
Ao nosso querido Gusto,
...E obrigado p’lo jantar!

Porto, 1 de Março de 2007,
Restaurante Bibóporto
Texto e foto: © Luís Graça (2007).

15 janeiro 2007

Parabéns, Nitas, pelos teus 60 verdes anos!

Para a Nitas, a futura avó, a mulher prendada, a esposa querida, a mãe babada, a irmã cúmplice, a cunhada terna, a tia meiga e solícita... que hoje faz 60 anos! Que a tua estrada da vida seja longa, e feliz seja a jornada. Que vás com Deus! (... e connosco).

Alice, Luís, Joana e João
Alfragide, 15 de Janeiro de 2007


Parabéns a Você !

Nasci em quarenta e sete
Do louco século passado,
Sou do tempo da Internet
E do circuito integrado.

Fui à Lua, fui a Marte,
Graças à televisão,
No meu tempo era arte
Seduzir um bonitão.

De família numerosa,
Fui a menina prendada,
Ajudei a mana Rosa,
P’ra poder ser diplomada.

Meu pai, quero ir estudar
Para o Porto, p’ra cidade,
E lá poderei casar
Em chegando a idade.

À família fiz um hino,
Sendo a coisa mais querida,
Não me queixo do destino
Nem das agruras da vida.

Com um sorriso para todos,
Sou uma mulher de trabalho,
Uso sempre de bons modos,
Mesmo quando vos ralho.

É pesada esta carga
Para uma mulher pequenina,
Pode às vezes ser amarga,
P’ra um coração de menina.

Se há na terra um purgatório
É o sítio onde trabalho,
É no meu laboratório
Que provo o quanto valho.

Não me bato ao Excelente
Por vaidade ou presunção,
Que a minha obra não mente
Na hora da avaliação.

E lá por fazer sessenta,
Não pensem que arrumo a bata,
O coração ainda aguenta
E de vocês não estou farta.

Saúde para o meu Gusto,
Pr’os meus filhos, alegria,
É o voto ardente e justo
Que faço neste meu dia.

Eles são a melhor prenda
Que a vida me podia dar,
Dou-me a Deus em oferenda,
Vou com Deus continuar.

E p’ro resto do caminho
Virão netos, com certeza,
Alegrar o meu cantinho,
Enchê-lo de mais riqueza.

01 janeiro 2007

A Consoada e as Janeiras

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar.

Viva o dono cá da casa,
Que nos deu este jantar,
Mesmo com um grão na asa,
Eu a todos vou saudar.

Obrigado, tio Gusto,
Foi ‘ma Santa Consoada,
Não vou perguntar o custo
Desta bela jantarada.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar

Obrigado, tio Gusto,
P’la posta de bacalhau,
Consegui comê-la a custo,
Não era posta, era um calhau.

Mandam-me ser responsável
Em matéria de consumo,
Mas é pouco aceitável
Nesta mesa só ter sumo.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar

Viva a fada deste lar,
Que dá o melhor que tem,
É por muito nos amar
Que a gente de longe vem.

Senhora Dona Aninhas,
Podem faltar as filhós,
Que o melhor são as prendinhas
Lá das pencas de Candoz.


Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar

A ajudante de cozinha
É a nossa q’rida Berta,
É uma babada avozinha,
Com mais uma linda neta.

Do nosso amigo José,
Pai da Sandra e do Miguel,
Dirão os netos que é
Um torrãozinho de mel.


Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar

É um avô muito feliz,
Com três belos repimpolhos,
Não é ele que o diz,
Vê-se o brilho nos seus olhos.

Um tipo muito porreiro
É também o nosso Pedro,
Marra às vezes como um Carneiro,
P’ra ninguém isso é segredo.


Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar.


Os doutores que à mesa ‘stão,
São dois tipos do carago,
De Lisboa, o João,
E o do Porto, o Tiago.

Já receitam aspirina,
Só não abrem corações,
Estão a acabar medicina
Os nossos dois valentões.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar


É mouro, o meu cunhado,
Não é caso p’ra ter pena,
Já tem lugar reservado
Neste hotel da Madalena.

De Lisboa com amor
Veio a Alice, minha mana,
P’rá festa ter mais calor,
Trouxe com ela a Joana.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar


Nesta quadra natalícia,
Falta saudar os mais VIP
A Sofia e a Patrícia,
O Rui e o Luís F’lipe.


Seus sorrisos calam fundo,
Não há melhores prendinhas,
Nada mais belo no mundo,
Que as nossas criancinhas.

Filhos do Rui e da Sandra,
O João Pedro e a Leonor,
Esta é a mais malandra,
Mas também um rico amor.

Filhos de Pedro e Patrícia,
O Diogo e a Tatiana
São também uma delícia,
Uma canalha bacana.
.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar


Mesa farta, caldo quente,
Na ceia de fim de ano,
É sinal de boa gente,
Bato à porta, não m’ engano.

Boas festas, Senhor Gusto,
Eu que sou seu convidado,
É com gosto, não a custo,
Que lhe digo obrigado.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar


Já lá vai o dois mil e seis
Que não nos deixa saudade,
Com os dedos sem anéis,
Salvou-se a maternidade.

Nasceu a bela Maria,
Alegria dos avós,
Do Miguel e da Sofia,
Prenda para todos nós.

Dois mil e sete, ano novo,
Saúde e algum dinheiro,
P’ra esta gente, este povo,
Dos Soares aos Carneiro.

Refrão

Boas festas, meus senhores,
Boas festas q’remos dar,
Vós sois todos uns amores,
E juntos vamos cantar


Madalena, noite de Consoada, 24 de Dezembro de 2006 / Ceia de Ano Novo, 31 de Dezembro de 2006

06 abril 2006

Monte: ida ao mato

O amanhecer em Candoz



Quatro da manhã. O luar espelhava pelos montes e vales iluminando a paisagem como quando está para alvorecer. O tempo estava bom, limpo, sem nuvens – as estrelas cintilavam por tudo quanto era céu – a temperatura fria mas suportável.

Era dia de ir buscar mato ao monte.

- Vá, rapazes, toca a levantar e preparar os bois. Já são horas!

Um pouco ensonados, com os olhos ainda semi-cerrados lá se levantavam todos para dar inicio aos preparativos necessários. Um dos rapazes mais velhos que se tinha levantado um pouco mais cedo para dar de comer aos bois – estes deviam estar bem fartos – e que aproveitando a quentura que se fazia sentir dentro da corte acabara por adormecer, enroscado a um canto da mesma, aparecia já com os bois pela soga. E com a mestria de quem já tinha feito essa operação dezenas de vezes, o chefe da casa, ajudado pelos filhos, pegava nas molhelhas que colocava por cima da cabeça dos bois e jungia-os apertando bem as fitas ao jugo (raramente a canga) para depois os "por" ao carro.

Bois?



A dona da casa já tinha preparada uma pequena cesta de verga onde embrulhado num pano de linho tinha colocado umas cebolas descascadas, um pouco de sal para as ditas, um bom naco de broa, azeitonas, um pedaço de toucinho uma caneca de porcelana branca e … pouco mais. À parte seguia naturalmente o garrafão de vinho verde tinto. Era o que se poderia preparar para o almoço (hoje pequeno almoço), jantar (hoje almoço) e merenda que iriam ter quando chegassem ao monte (à serra por vezes, bem lá no alto de Montedeiras, onde só há mato e nenhuma ou quase nenhuma árvore) daí a duas ou três horas.

Tudo preparado. Os estadulhos do carro nos seus respectivos sítios; a corda do travão também a postos; um bom molhe de erva para os bois comerem durante o dia; as forquilhas, ganchos, sacholas (enxadas), cordas, tudo em cima do carro. Iniciava-se então o percurso para o monte através de caminhos apertados, escabrosos, irregulares, pedregosos, feitos pelos lavradores do antanho, há já provavelmente centenas de anos atrás, onde todo o cuidado era pouco para que não acontecesse algum percalço.


Serrões manuais? As moto-serras apareceram!




À frente a chamar os bois seguia um dos rapazes mais velhos com a sua vara de marmeleiro aguilhoada ao ombro. A trás, a pé (nada de pesar no carro para não cansar os bois já que era preciso poupá-los para o esforço que lá para o fim do dia teriam que fazer. Eles eram a única força de tracção que tinham para além de serem os produtores de estrume para fertilizar a terra e que aquando da sua venda, na Feira do Marco dos 3 ou dos 15, proporcionariam algum ganho) seguia o pai e os outros rapazes – alguns ainda bem novos que, sabe Deus, bem lhes custava andar por aqueles caminhos, descalços e meios a dormir –.

Comandados pelo andar ronceiro dos bois, chegam finalmente ao monte. Está a alvorecer. O sol ainda não nasceu. Está um ar fresco mas bom para roçar mato. Daqui a pouco o sol e o esforço fá-los-ão suar as “estopinhas”.

O carro é retirado dos bois e posto em posição para mais tarde ser fácil de carregar. Os bois embora mantendo-se aparelhados são levados (- Afasta pr’a trás!) para um sítio onde o sol não será tão intenso deixando-os com a vara de os “chamar” a prumo e encostada ao jugo entre as molhelhas. Aí permanecerão na sua mansidão apenas ruminando e sacudindo as moscas com o rabo.


Enxadas para cortar? E então as máquinas?



Enquanto um dos rapazes se encarrega do serviço de derramar os pinheiros, deixando-os mais esguios e limpos, para crescerem mais direitos, para os ramos assim cortados serem aproveitados para a lareira, os outros dão início ao corte do mato com as enxadas. È necessário cortar bastante para dar uma boa carrada já que não se vai ao monte muitas vezes. O corte é feito de uma forma ordenada. Aliás o mato não abunda muito e é preciso deixá-lo crescer. Era o tempo em que os montes estavam limpos, sem um ramo, pinha ou até caruma no chão. Tudo era apanhado e levado para baixo, para o estrume, para a lareira, para o alambique, para estacas, etc. Arvores caídas não existiam pois sempre que tal acontecia eram de imediato serradas (com serrões manuais – quando apareceriam as moto-serras?) e transportadas para junto da casa.


Derramar para no fim ajudar à amarração




Os incêndios eram por isso raríssimos, ao contrário de hoje em que já não são necessários caminhos para o monte em que a lenha não é precisa (há electricidade, gás, poucas lareiras, pouca gente disponível e interessada), em que há um desleixo que permite a acumulação de resíduos de lenha e mato, fáceis propagadores de incêndios, verdadeiros inimigos das árvores, florestas, ambiente e economia deste país.


As máquinas dão mais rendimento com menos esforço




Já há bastante mato cortado. Pausa para o almoço dos homens e dos bois. Após um pequeno descanso, de novo se começa a ouvir o som cavo e constante das enxadas a cortar o mato.

- Já chega! Já não sei se irá todo! Vamos merendar o que sobrou, beber um copo e começar a acartá-lo!

Exclama o pai.


Carregar o mato



Saciada essencialmente a sede, pois de comer pouco tinha restado, começa o trabalho de arrastar o mato pelo monte abaixo até perto do carro de bois onde será carregado.
Uns encarregam-se de fazer as paveias de mato, outro sobe para cima do carro para selectivamente ir arrumando e compondo a carga, os outros com as forquilhas vão, paveia a paveia, içando o mato para cima do carro.

A altura da carga já é bastante. Os últimos ramos cortados no derramamento dos pinheiros são colocados por cima de tudo para facilitar a amarração. As cordas são lançadas por cima da carga e bem puxadas e presas para uma maior segurança e estabilidade.

Pouco mato há para carregar



Os bois são “postos” ao carro. Quase que vão ter de andar um pouco de lado pois o mato, para se aproveitar todo quase que chega à cabeçalha.

Tudo pronto. Inicia-se a marcha pela encosta abaixo, pelos caminhos em que cada rocha saliente (ainda que bem escavada) obriga a um esforço redobrado pelo desnível que apresenta.

- Puxa pela corda! Força! Trava-me bem essas rodas! Não as deixas rodar!


Não é necessário fazer paveias. Só carregar.


E, com o “chamador” dos bois a tentar segurá-los para que descessem lentamente, o rapaz a puxar à corda que passava no eixo e fazia de travão e os outros de lado, a segurar com as enxadas a carga para esta se manter equilibrada, as rodas deslizavam, sem girar, pela saliência da rocha, evitando os solavancos.

Felizmente o carro não tombou (não raro acontecia), o que, para além do perigo que isso representava para os bois, do trabalho de ter que descarregar e voltar a carregar o mato era uma vergonha por que se passava sempre que tal acontecia.

Bem pisado e composto




Com todos os cuidados, com todos os vagares do mundo (o tempo não contava – era mais que muito) finalmente chegavam a casa cansados mas ufanos da carga que traziam, da forma cuidada e bem composta da mesma e de nada de mal ter acontecido.

- Carrada de mato Tio Zé! Bem compostinho!

O sol começava a entrar no seu ocaso. A noite avizinhava-se. A ceia – bem merecida – estava quase pronta.

Mais um dia de estafada labuta estava a chegar ao fim.

A ramagem no topo



Hoje! Só quase por desporto se vai ao monte ao mato.
Bois? Vacas? Touros? Não há! Apenas algumas ovelhas que pouco precisam e que vão produzindo algum estrume para a horta.
Só de tractor, com moto-serras, com máquinas a gasolina de roçar mato, com “estradões” largos, com pouco mato para cortar porque os incêndios devastam tudo.

Como os tempos mudaram – e em termos de qualidade de vida ainda bem – nestes últimos 30 a 40 anos!

Amarrar o mato para não cair


Texto de Augusto Pinto Soares (2006)
Créditos fotográficos: Augusto Pinto Soares

25 março 2006

A tradição da matança do porco (Sandra Nogueira, antropóloga)

Cara D. Alice,

Sou antropóloga e pesquiso desde 2001 a matança do porco em diversas regiões do País, apesar de residir no Cartaxo - Ribatejo - e ter as tradições daqui como ponto de partida para a pesquisa.

Foi com agradável surpresa que vi há pouco o seu blog onde fala da tradição da matança do porco em Marco de Canavezes. Dado que recolho informação de diversos pontos do País, gostaria de saber se poderia de alguma forma colaborar comigo, enviando-me não só descrições do que conhece, receituários relativamente a enchidos e almoços ou jantares de matança, assim como fotos.

Procuro entretanto uma editora para editar a primeira parte da pesquisa concluída em 2005, mas preparo-me agora para avançar com uma segunda parte.

Desde já grata pela atenção dispensada, apresento os melhores cumprimentos.

Sandra Nogueira

Rua Júlio Dinis, 72070-664

Vila chã de Ourique
CartaxoPortugal
Móvel: 96 479 4411

http://www.geocities.com/sandrix65/Mainpagesandrix.html

http://antropologia.com.sapo.pt

05 março 2006

Carnevale, adeus carne!

Paredes de Viadores > Carnaval de 1993 ou 1994 > O grupo de foliões de Candoz ... Vejam lá se descobrem quem é quem...
O Capuchinho Vermelho é a nossa Nita, o sapo é o Tiago (filho da Nita e do Gusto), á esquerda o militar é o Filipe (filho da Nita e do Gusto) ao seu lado, vestida de noiva é a Joana (filha da Alice e do Luis), a figura grande é o Eduardo casado com a Zezinha que está por trás com um cobertor) - genro e filha da Rosa e do Quim. Por trás de todos, com peruca de mulher está o Pedro filho do nosso Zé. À frente do militar (Filipe) está a Rosa a tapar a boca da máscara. Por trás da noiva , vendo-se só a máscara, está o João (nosso futuro médico) - filho da Alice e do Luis, a seu lado encoberto pelo capuchinho vermelho (Nita) está um índio (Alice).


São fotos do carnaval de Paredes de Viadores (e, por extensão, de Candoz) de há 12 ou 13 anos atrás! E que nos faz recordar os carnavais de outros tempos, da nossa infância... em que não havia dinheiro para comprar os atavios que hoje se usam, desde as máscaras às roupas... Nessa altura tudo se improvisava com o material (pobre) que aparecia à mão: faziam-se máscaras com meias, os rapazes vestiam-se de raparigas, estas apalpavam os rapazes... Era o mundo de pernas para o ar...

O Carnaval de outrora era, de acordo com etimologia da palavra latina carnevale, o "adeus à carne": a partir da quarta-feira de cinzas, durante toda a quaresma e até ao Domingo de Páscoa, a Santa Madre Igreja impunha aos cristãos, aos camponeses, pobres, o jejum e a abstinência...

O Carnaval marcava o fim do solstício do Inverno e o início do equinócio da Primavera: para os camponeses do Norte, pequenos proprietários ou rendeiros, a casa estava farta, tinha-se feito a vindima, as colheitas do cereal (o milho, o centeio), a matança do porco... O solstício do verão é a dura labuta, cíclica, pelo pão: novas sementeiras, novos trabalhos, sangue, suor e lágrimas... até ao São Miguel...

O Carnaval era a descompressão, a transgressão, a inversão de papéis, a ilusão de que se podia subverter os papéis, os valores...

Paredes de Viadores > Carnaval de 1993 ou 1994 > Os reis da festa, os noivos: "Aqui vão os jovens noivos / Que nunca souberam namorar / Agora desta idade / São bons é para mijar"....
Ela é a Glória "de Passinhos", ele o Sr. José "Barbeiro".


O João (casado com a Ana Maria-filha do Manuel e da Mi), o Filipe e o Pedro.


O Tiago (o nosso futuro médico), filho da Nita e do Gusto.


A Nita e a Zezinha


Á direita a Mi (casada com o Manuel) e a sua irmã Amélia, tascando o linho.


A Joana (filha da Alice e do Luis) com o Filipe (filho da Nita e do Gusto).

A Nita com a sua mana Alice.


Fotos do álbum de Luís Graça (2006)

04 março 2006

A nossa querida Ana Maria


A Ana Maria (filha do Manuel e da Mi) com a sua filha Tânia
Candoz > Festa de Carnaval > Década de 1990 >

© Luís Graça (2006)


A Ana Maria, filha mais velha do Manel e da Mi, é uma das nossas sobrinhas que tem um lugar especial no nosso coração. Durante anos, ela foi uma enfermeira exemplar e dedicada, à cabeceira dos seus avós, a Maria Ferreira e o José Carneiro. Temos para com ela uma dívida que nenhum dinheiro do mundo pode pagar: ela ajudou a dar qualidade de vida aos últimos anos de vida dos nossos pais,sogros e/ou avós...

É sempre com alegria que a gente está com ela... É um torrão de açúcar, a Ana Maria, para além de boa mãe (Tânia e Maria João) e esposa (do João).

Ela há dias foi à casa do Meco (e da Vera, sua irmã - outra das nossas sobrinhas, e são muitas!, que nós adoramos) e deixou-nos na caixa do correio esta mensagem que nos tocou a todos e que merece este destaque de hoje:

"Senti hoje ao consultar o vosso blogue muita nostalgia.

"Orgulho-me imenso de fazer parte desta familia, que me diz muito. Aprendi muito com vocês, podem crer!!

"Apoiaram-me sempre nos bons e maus momentos da minha vida, já foram alguns.

"Continuem a divulgar a nossa aldeia que é muito bela.

"Beijinhos da Ana Maria. Já me ia embora sem vos dizer que os meus pais (Manel e Mi) estavam presentes nesta visita.

"A sobrinha e prima: Ana Maria Carneiro"


20 janeiro 2006

A Vida É uma Festa!

A Vida É uma Festa!

Querida Nitas:

O Dia dos Anos é sempre um dia especial
E devia ser repetido todos os dias,
... Ou talvez não!
Porque se assim fosse,
Todos os dias,
Tornava-se monótono, chato, sensaborão!

O teu dia, desde há 59 anos,
É o 15 de Janeiro
E nesse dia todo o mundo
À tua volta é simpático,
Amável, porreiro,
Delicado, afável,
Para contigo
E sorri para ti
E dá-te beijinhos
E abraços
E oferece-te um bolo,
Talvez até uma prenda bonita,
Um belíssimo ramo de flores,
Promessas de felicidade,
Votos de boa saúde,
Um jantar romântico à beira-mar
Ou à beira-rio.

Marido e filhos,
Amigos e amigas,
Manos e manas,
Cunhados, primos,
Colegas de curso e de trabalho,
Professores e alunos...
Lembram-se de ti,
De uma maneira especial,
Para que te sintas em perfeita harmonia
Com o mundo
E quiçá para apreciares melhor
O quanto a Vida é uma Festa
E que é um privilégio estarmos vivos
E de boa saúde
E de ter alguém a nosso lado
Que nos ama, estima, gosta de nós...

Por isso, Nitas,
Ana,
Aniversariante,
Amiga de Alex,
Tu és uma felizarda...
E a ti assenta que nem uma luva
A letra da canção da Violeta Parra
(Interpretada, entre outros, por Joan Baez,
Lembras-te):

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros, que cuando los abro,
Perfecto distingo lo negro del blanco,
Y en el alto cielo su fondo estrellado,
Y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado el oМdo que, en todo su ancho,
Graba noche y dМa grillos y canarios
Martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
Y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me ha dado el sonido y el abecedario.
Con èl las palabras que pienso y declaro,
"Madre,", "amigo," "hermano," y los alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados.
Con ellos anduve ciudades y charcos,
Playas y desiertos, montañas y llanos,
Y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón, que agita su marco.
Cuando miro el fruto del cerebro humano,
Cuando miro al bueno tan lejos del malo.
Cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa, y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
Los dos materiales que forman mi canto,
Y el canto de ustedes que es el mismo canto.

Y el canto de todos que es mi propio canto.
Gracias a la vida que me ha dado tanto.

(Se quiseres relembrar a melodia, clica em:
http://ingeb.org/songs/graciasa.mid)

Daqui de Lisboa (com um cheirinho a Itália, Florença)
Recebe muitos beijinhos e xicorações dos teus
Luis, Alice, Joana e Joana

15 de Janeiro de 2006

01 janeiro 2006

As cores e os sabores do nosso Natal de 2005

Candoz tem outro encanto... no Natal, na Páscoa, na festa da Senhora do Socorro, nas Vindimas, na hora da despedida...(Que não me interpretem mal os meus sócios e cunhados do Porto - e acima de tudo, amigos - para quem Candoz é o sábado, o 'levantar o cu cedo da cama', o frio da madrugada, a poda até Fevereiro, os enxertos, os trabalhos (es)forçados ao longo do ano, a vinha, o vinho, a horta, as batatas, as regas, o mato, a lavoura, a limpeza dos 'montes', o corpo dorido e cansado sábado à noite, 52 semanas por ano, etc., etc.).

O Natal vamos sempre (há quantos anos ?) passá-lo no Norte, primeiro em Candoz (até finais dos anos 80), e depois na Madalena, em Vila Nova de Gaia. O Natal é a família, os amigos. Somos recebidos como príncipes na Madalena, tratados magnanimamente pelo Gusto e pela Nitas, sem esquecer o Luís Filipe e o Tiago, que são os herdeiros daquele turismo de habitação... . E sem nunca ter ouvido ou lido o famoso provérbio popular, segredado, insinuado, pensado ou escarrapachado no espelho da casa de banho: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem". E, depois, o melhor, ainda é a conta que nos apresentam, no final das férias...

Na realidade, estamos em casa na Madalena, sentimo-nos em casa na Madalena, Rua Dom Afonso Henriques, nº 30. É o melhor hotel de Portugal, passe a publicidade.

Mas o Natal também são as cores, os cheiros, os sabores da aldeia... Vamos sempre a Candoz matar saudades, mesmo que o Natal agora seja no Porto. Aqui ficam alguns registos, breves, fotográficos, no Natal dos mouros no Norte, e sobretudo da curta visita (com almoço, para comer o arroz de grelhos com moiras...) do dia 26 de Dezembro de 2005. L.G.



A Foz do Douro, ao pôr do sol, vista de carro na ponte da Arrábida, no sentido norte-sul



Um aspecto da nossa vinha, com as serras, ao fundo, que inspiraram o Eça de Queiroz e o seu príncipe Jacinto...


A linha do Douro ao fundo, no troço entre as estações do Juncal e de Mosteiró...

A penca, a famosa penca, comida com o bacalhau lascudo do Natal... No dia seguinte faz-se o não menos famoso farrapo velho...


As cores (fabulosas) dos nossos carvalhos e castanheiros nesta altura do ano...


Um arbusto que em Candoz não está em extinção...


Folha e bolota do carvalho...


As crianças divertem-se, apesar do frio...


Sangue, suor e lágrimas... Uma terra roubada à floresta de carvalhos e de castanheiros...


As delícias do fotógrafo...


A albufeira da barragem do Carrapatelo, com Porto Antigo ao fundo... Paragem obrigatória dos barcos rabelos de antigamente...



A Igreja da Freguesia do Grilo vista de Candoz com uma aproximação de 12 vezes.





O estrume que vai alimentar as videiras... Os muros de pedra que suportam as leiras...

Viva a senhora engenheira!

Agora que o ano está a acabar, é altura de fazer limpeza às gavetas da secretária e aos ficheiros de computador. Nessas andanças descobrimos mais uns versinhos que também fazem parte do nosso álbum de Candoz e que seria uma pena irem para o lixo. Não tanto pela sua qualidade (literária) como sobretudo pela pessoa que é (foi)homenageada...


Viva a senhora engenheira,
Em química diplomada,
No trabalho é a primeira,
Em tudo é muito prendada.

Em tudo é muito prendada,
A começar p’lo amor;
É feliz e bem casada
Co’um sortudo dum doutor.

Co’ um sortudo dum doutor,
Danado p’ra trabalhar;
Ele, bom pai e gestor,
Com ela faz belo par.

Com ela faz belo par,
A nossa querida Tia,
Parabéns lhe vamos dar
Por ser hoje o seu dia!

Por ser hoje o seu dia,
Dia quinze de Janeiro,
Fiz-lhe esta poesia,
Eu, a Joana Carneiro.

Eu, a Joana Carneiro,
Não lhe vou tocar um hino;
O João é mais porreiro,
Vai-lhe tocar violino.

Vai-lhe tocar violino,
P’ra animar o serão;
A Alice toca o sino,
E fala com o coração.

E fala com o coração
O Luís, para lhe dizer:
- Nitas, aquele abração!,
Muita força p’ra viver!

Lisboa, 15 de Janeiro de 2002

Hoje faz anos a nossa Nitas!,

Mais que mana, cunhada e tia, aquela amiga de todos os bons e maus momentos da nossa vida. De Lisboa com amor a pensar em vocês todos, a Nitas, o Gusto, o Luís Filipe, o Tiago…

27 dezembro 2005

Comentários ao blogue (2)

Candoz > Os primos Joana (Graça) e Miguel (Barbosa), há vinte e tal anos atrás... Quando ainda se faziam enormes medas com as canas do milho... Candoz é mais do que um espaço físico: é também o universo (mágico) da infância de tios e primos... © Luís Graça (1980)














Queridos tios e primos,

Depois do nosso encontro de ontem, fantástico, vim de imediato consultar o vosso blogue...Sem dúvida fiquei muito orgulhosa por aquilo que vi.Tenho vaidade e orgulho por fazer parte desta familia!
Parabéns!

Beijinhos da sobrinha e prima que vos admira.

Vera Carneiro

25 dezembro 2005

Vivó os noivos!!!

Para o mano velho, Carneiro, que nesse dia era o home mais feliz à face da terra... Eles versinhos andavam por aí perdidos, mas hoje passam a fazer parte do álbum de Candoz... Até por que hoje, dia de Natal de 2005, fomos visitar o Jorge e a Paula que, além da Carolina, têm também a uma lindissima Maria... Saúde e alegria para ele e elas no novo ano que aí vem... LG


Viv' os noivos, vivam todos
Os amigos que aqui estão,
Uns são mouros, outros godos,
Fazem bela união.

Fazem bela união
O Jorge e a Paulinha
Que hoje deram a mão,
Para o resto da vidinha.

Para o resto da vidinha,
Deram o nó a preceito,
Numa velha igreijinha,
Com os amigos do peito.

Com os amigos do peito,
Os dois Ruis mais o Vitor;
O casamento está feito,
O resto é só amor.

O resto é só amor,
Já cá temos a Carolina
É uma jóia, é uma flor,
Uma querida menina

Uma querida menina,
Diz o pai, Jorge Dinis,
O amor é uma mina
P'ró economista f'liz!

P'ró economista f'liz
Amor vem sempre primeiro
A Paula assim o quis,
Com a benção do Carneiro

Com a benção do Carneiro,
No vale dos Raposinhos
Não falte paz e dinheiro
A este par d'amorzinhos

Boda do casamento e baptizado,
28 de Agosto de 1999

Os amigos da mesa seis

Rosa Carneiro
Alice Carneiro
Ana Carneiro
José Carneiro

mais os consortes: Quim, Luis, Gusto e Teresa, respectiavmente

22 dezembro 2005

A matança do porco de antigamente


O amanhecer em Candoz... Porto Antigo, ao fundo, coberto de nevoeiro cerrado.



Manhã cedo, quase a alvorecer, fria como convinha. Ao longe, as serras estão brancas, cobertas com um manto de neve. Típica manhã de Dezembro.

Os dedos enregelavam. O dono da casa e os filhos já espigadotes, com corpo de homem, agasalhados com capotes e samarras com pele de coelho no colarinho, calçados com socos de madeira que estropiam nos montes de geada congelada no chão, esfregam as mãos tentando fazer girar o sangue para as aquecer.

Era o dia da matança do porco.

Dia esperado com alguma ansiedade pois parecia dar abundância naqueles tempos de míngua, de escassez. A matança era um momento solene, porque muitas famílias não tinham mais nada além do porco.

O ambiente ia sendo preparado. O carro de bois já tinha sido colocado de feição. As panelas com água já estavam na lareira, entretanto acesa, para ferver água. Molhos de palha, amarradas como archotes, estavam prontos. Um alguidar com um pouco de vinho verde tinto no fundo aguardava junto ao carro.


O velho carro de bois, agora peça de museu, onde, antigamente, se sacrificava o animal...

Os preparativos estavam feitos.Munido das suas facas e do respectivo afiador, eis que chegava o matador. Homem experiente, já de certa idade, lavrador como todos os outros mas que há já muitos anos, nestas alturas, se dedicava a matar os porcos que a vizinhança das redondezas lhe solicitava. Era uma arte a que poucos se dedicavam.

A dona da casa já tinha preparado o mata-bicho (broa de milho e centeio e aguardente – alguns preferiam-na com um pouco de açúcar) para aquecer os corpos, ainda esfriados como a manhã.

O dono da casa, o matador e mais três ou quatro filhos lá se dirigiam para a corte onde o bicho, qual condenado sem saber a sentença que lhe coubera de sorte – mas parecendo que a adivinhava – olhava de soslaio, e com alguns guinchos, para aqueles vultos que não era costume aparecerem àquelas horas para lhe darem de comer – o que tanto desejava pois desde o dia anterior que pouco ou nada tinha comido, apenas alguma água de lavagem. Desconfiado, ia-se resguardando no canto mais recôndito que encontrava na corte.


O porco era o governinho da patroa e o boizinho, vendido na feira do Marco, uma das poucas fontes de receita dos caseiros, para além do vinho.


O dono da casa ou normalmente o próprio matador, munido de uma corda de amarrar os bois, entrava e aproximava-se do animal. Os outros, à porta cercavam o local.

- Oh bicho! Oh bicho!

Com alguma dificuldade mas com a mestria de quem tantas vezes já tinha efectuado aquela tarefa, o matador colocava a corda, como um açaimo, em redor do focinho e entre os dentes do animal.

Agora, puxado para fora da corte e com os restantes homens a vigiar – não fosse o bicho fugir, o que não seria a primeira vez – era conduzido para o carro de bois. E todos num verdadeiro esforço lá conseguiam deitá-lo com a cabeça para baixo junto à cabeceira do carro.

Os quatro homens seguram-no, cada um em sua pata e colocado o alguidar com o vinho (para o sangue não coagular) por debaixo da cabeça do bicho, o matador, dando uma palmada (tal como se fosse para dar uma injecção) por cima do sítio onde a faca iria entrar, espeta-a com precisão cirúrgica, junto à goela, no único sítio que fará com que o sangue flua completamente para o alguidar. Os berros do bicho são essenciais para que o sangue saia todo e são sinal que a faca foi espetada no sitio certo.

- Sim senhor! A faca foi bem metida! Nem uma pinta de sangue lá ficou! Deu-o todo!

O alguidar já vai para a cozinha onde o sangue será cozido (a água já ferve na panela de ferro que está à lareira) para, daqui a pouco, ser levado como pitéu, juntamente com broa e vinho verde tinto, aos homens. È o dejuadouro (deixar de estar em jejum) daquele dia.


A matança do porco (c. 1980): uma cena que Bruxelas quer banir definitivamente baniu dos nossos campos e aldeias em nome de uma concepção fundamentalista da saúde pública e de uma Europa globalizada, normalizada e tecnocrática, matando a etnodiversidade...


Aceso um molhe de palha pouco a pouco vai-se tostando a pele do bicho, queimando-se os pêlos para que o couro fique o mais liso possível. Os homens já não sentem tanto o frio. O esforço e a tocha a queimar a pele do bicho já os fez aquecer. Entretanto já lá vem o sangue cozido que, com a broa e o vinho, os fará aquecer ainda mais. Os casacos e as samarras já são um estorvo!

- Bicho ! ...Pesa bem cem quilos!
- Eu não dou tanto! P’raí uns noventa e três!
- Depois veremos! Há aí uma balança para tirar as teimas!

A pele do animal já está quase escura. Com sacholas, facas, escovas e pedras rapam-se os pêlos já queimados, lavando ao mesmo tempo o couro.


A palha de centeio com que se limpava e tostava a pele do animal...



Escaldada a língua e a orelheira, faz-se a limpeza a essas partes. Dá-se agora mais uma achega de calor com a palha a arder para que a pele fique mais tostada – a cor dum verdadeiro leitão assado – e com água e sabão completa-se a aparência final.

Com as mãos da frente amarradas a um estadulho do carro de bois e o mesmo para as patas traseiras o bicho é erguido pelos quatro homens que, quais gatos-pingados em cortejo fúnebre, o levam para a loja da casa – o sítio mais fresco – onde pendurado nuns ferros fixos ao tecto (que sempre lá existiram para o efeito) e com a cabeça para baixo será preparado para uma primeira dissecação.


A desmancha do bitcho na loja (1)...


Enquanto os homens se ocupam em outros serviços (é tempo de podar as videiras), o matador e a dona da casa iniciam a primeira operação de desmanchar o porco. Aberta a barriga desde a garganta até ao ânus, são-lhe então retiradas as tripas (que depois de frenética e convenientemente lavadas em água corredia, passadas várias vezes por água bem quente, esfregadas com sal e limão e marinadas com vinho alho e limão serão usadas para fazer as moiras e os salpicões); os miúdos (coração, bofes, goela, etc.) que no dia seguinte devidamente cortados em pequenos pedaços, adicionadas com vinho verde tinto, algum sangue, de carne das capas e demais condimentos, darão as referidas moiras que depois de fumadas no sarilho (cravado na chaminé por cima da lareira), propiciarão um lauto manjar de arroz “a fugir pelo prato fora” com feijão branco e grelos.



A língua servirá para um óptimo salpicão que será apreciado no Carnaval. O fígado cozia-se para depois ser comido frio, ás fatias, com um bom naco de broa. A bexiga, depois de cheia com ar e amarrada no topo, como um balão, vai a secar junto ao fumo da lareira como sinal que se tinha feito uma matança de porco e em alguns casos para servir como irrigador para dar clisteres a quem deles necessitava. Desde o unto à bexiga nada se podia perder. Nesses tempos, o porco era o governo da casa, algo de que a patroa se poderia socorrer sempre que era preciso confeccionar uma refeição mais elaborada (em dias de festa por exemplo) para a família ou para eventuais visitantes citadinos que de quando em vez apareciam. Era uma boa oportunidade para a patroa pôr à prova os seus dotes culinários e de gestão alimentar transformando o corpulento animal em fartura para a casa durante o ano.

Já sem as entranhas, com a barriga bem aberta e segura por espetos de madeira cravados duma banda à outra para melhor expor o interior, recheado de ramos de folhas de loureiro aí vai ficar o bicho a secar e a arrefecer a carne até ao outro dia.

A porta devidamente fechada à chave não só para prevenir a entrada de moscas (não são normais neste tempo de frio mas…) que poderão conspurcar a carne, mas também não vá aparecer um daqueles vizinhos maganões que por brincadeira leve o porco da loja deixando os donos da casa atormentados e com os cabelos em pé por pensarem que lhes roubaram o que tanto lhes tinha custado a criar no último ano e que seria o principal sustento da família durante o próximo.

O almoço já apetecia. O odor do salpicão paioto (o maior) – reservado até agora da matança do porco do ano anterior – a cozer juntamente com um arroz malandro convidava ao repasto e fazia crescer água na boca.

Novo dia. Nova expectativa de mais fartura.

A meio da manhã, o matador chegava preparado para a segunda operação de desmanchar o porco. Descido dos ganchos que o sustiveram durante a noite era então levado para a balança.

- Cento e cinco quilos!
- Eu sempre tinha razão! Tenho o peso nos olhos!
- Pois olhe, eu fazia-lhe menos um bocado!

Preparada a tábua – em cima de uns cepos – com uma toalha de linho onde o porco seria dissecado, preparados os panos – também de linho – onde as várias qualidades de carne seriam colocadas consoante o seu destino – o matador, sob a vigilância aguçada da dona da casa, começava a desmancha cortando sabiamente cada peça de forma a ter o maior aproveitamento possível.

- Corte mais por ali! Tire as capas mais fininhas!
- Tá bem, Tia Maria!
- Arredonde-me mais esse presunto! Essa gordura vai para pingue!

Meticulosamente cada peça dá o seu melhor para a salgadeira ou para o fumeiro.

A desmancha do bitcho na loja (2)...

E pouco a pouco as várias partes do porco lá iam sendo cortadas, preparadas e separadas: as bandas (para fazer os rojões), os coelhos (para os melhores salpicões pois é a coisa mais gostosa que tem o porco, muito tenrinha.), a cabeça com as orelhas a serem comidas por altura do Entrudo ou na primeira lavourada, a caluba (para salpicões), a espinha (para dar sabor à sopa), os lombos (para os salpicões), as costelas, as capas (donde saíam as melhores fêveras para assar – que sabor… – mas poucas, pois poupar era preciso e eram bem necessárias para as moiras), os meios, os presuntos, as pás e finalmente a cumeeira (couro com a parte mais gorda que se usava para fazer banha ou unto – cortava-se aos poucos, um bocadinho de cada vez, para durar o ano todo - e juntava-se à sopa para lhe dar a gordura que a enriquecia ou, quantas vezes, migava-se com sal fazendo-se assim extrair mais gordura).

A hora de almoço chegava e naturalmente era servido um arroz de costelas mas, um ossinho para cada pessoa e, só porque era o dia da matança. À lareira umas boas brasas aqueciam o ambiente frio da manhã e … assavam fêveras das bandas, só com uma pitada de sal para – uma por pessoa – acompanhar aquele arroz com o suco que delas saía.

O cheirinho que exalava.

- Oh! Sabor dos sabores… Só possível dum porco caseiro, criado durante quase um ano com os restos da comida caseira. Era quando uma boa caneca de vinho verde tinto da casa, da colheita há pouco acabada de fazer, com o característico sabor málico – a transformação malo-láctica ainda não se tinha efectuado – bem adstringente, fazia exclamar:

- Isto até dá vida a um morto! …

Acabada aquela soberba refeição e enquanto os homens se dirigiam para os trabalhos do campo (podar, cortar erva para os bois, pensar o gado, etc.), o matador e a dona da casa lá iam para a loja tratar de salgar o porco.



E esfrega que esfrega, os presuntos e as pás, mais que as outras peças, lá iam ficando bem impregnados de sal. Então, na salgadeira (caixa enorme de madeira) – o frigorífico da altura – onde iriam ser consumidos entre cem a cento e vinte quilos de sal, as peças, de acordo com a sua utilização temporal iam sendo acondicionadas com cuidado e sempre bem cobertas e aconchegadas com o sal – nisso a “patroa” era intransigente –.

- Olhe, Tio Rocha, aqui está a cumeeira! Ponha-a bem no fundo! Tem que dar para o ano todo!

E lá seguiam os presuntos (que aí permaneceriam cerca de quatro meses, para depois, previamente esfregadas com colorau - pimentão doce - e conjuntamente com as pás, serem expostas ao fumo), as pás (cerca de três meses), os ossos a calçar as várias peças, as unhas, os lombos (aí estariam só cerca de dois a três dias para depois serem colocados em vinha d’alhos e quarenta e oito horas depois se fazerem os salpicões) e a cabeça.

Mais umas boas garfadas de sal a cobrir tudo para que nada ficasse exposto ao ar e… estava terminado o trabalho.


A panela de ferro onde se faziam os rojões...


A noite aproximava-se. Era preciso preparar a panela de ferro onde os rojões seriam feitos para dar cumprimento à tradição e ao manjar final do dia da matança do porco. Uma pequena parte, das bandas do porco, já tinha sido separada e cortada aos pedaços. A carne entremeada de uma parte gorda e outra magra (próprio daquela parte da barriga), juntamente com o couro e sempre acompanhada do redenho ou gola ou lenço – tecido que separa as tripas grossas das finas – é então deitada na panela com um pouco de banha e com paciência e a ajuda de uma colher de pau, mexe e remexe e torna a mexer, lá se vai vendo os rojões a ficar douradinhos, untados, deliciosos quanto baste para se ter a tentação – sem que a dona da casa o visse – de sorrateiramente se surripiar um, bem quentinho, directamente de panela, que é o que melhor sabe de todos os que se irão comer. A boca até parece empolar com a quentura e sofreguidão com que é facilmente mastigado e digerido. As batatinhas mais miúdas – separadas especialmente para o efeito – também já estão prontas e bem molhadas na banha que serviu para as cozer.


Os rojões douradinhos...


Que cheirinho!... Que sabor!... Que saudade!…

Uns bons travos de vinho para acompanhar e está terminado o dia da matança do porco. Durante o ano que se vai aproximar, naco a naco, o porco vai ser utilizado para ocasiões especiais mas sempre poupadinho para durar até à matança do próximo.



A matança do porco era também uma festa...

Vinham os vizinhos, os amigos e os familiares de mais perto e de mais longe...


Hoje em dia, a matança do porco ainda se realiza aqui ou ali, mas com menos frequência e os métodos utilizados também evoluíram sendo já mais modernos. Cada vez é mais rara a criação doméstica do porco e tende a desaparecer a tradição da matança. Em Bruxelas vai-se discutindo se isto é uma tradição mas, mesmo que decida em sentido contrário (alguém se importará?) tal não é necessário porque enquanto este costume se for mantendo a tradição completar-se-á. Naturalmente, pouco a pouco, este uso vai perder-se porque é mais fácil, menos trabalhoso, provavelmente mais económico ir a qualquer grande ou pequeno supermercado comprar as partes e quantidades necessárias para simular uma matança de porco.

A freima, aquela pequena festa, aquela fugaz alegria de ter fartura durante uns tempos, essas não se compram e... o sabor da carne daquele porco caseiro, criado durante quase um ano com os restos da comida caseira, algum farelo, couves, batata cozida, etc., esse… muito menos.


A festa à volta da mesa...



Texto de Augusto Pinto Soares (2005)
Créditos fotográficos: Luís Graça e Luís Filipe Soares

em dezembro era natal

em dezembro
não fazia frio

em dezembro
não fazia ainda neve

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal

não havia neve
à porta dos camponeses pobres do norte
nem as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil

batem leve levemente
como quem chama por mim...
ah onde está o tipicismo da miséria rural
que os escritores burgueses descobriram antes de nós
o camilo o eça o ramalho o aquilino

em dezembro
o pai natal já não descia pelo fumeiro
por entre os salpicões e os presuntos
vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparrillos pra malta fumar
à lareira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró gado
e cantava a plenos pulmões
uma canção do sul

candoz.

natal de 1976

luis graça



Publicado originalmente no Blogue-Fora-Nada, em post de 28 de Janeiro de 2005 > Blogarias V - Em Dezembro