29 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (15). Não há festa sem música (Parte VII): Gente danada para a folia, para cantar, para dançar...


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz >20 de outubro de 2012. Festa das boas de ouro da Rosa e do Quim (1963-2012). A festa foi tão comprida que gastámos as pilhas e as memórias das máquinas... pelo que os fotógrafos de serviço tiveram que se se desenrascar e fazer trocas e baldrocas... Foi o meu caso, que tive de pedir emprestada ao Gusto a máquina com que fiz os vídeos do serão... 


Vídeo (39''): Gusto/Luís Graça (2012).

28 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (14). Não há festa sem música (Parte VI):... nem baile mandado, com o Quim como mandador!




Vídeo (4' 09''): Gusto/Luís Graça (2012). Alojado no You Tube / Nhabijoes 

Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz >20 de outubro de 2012. Festa das bodas de ouro da Rosa e do Quim (1963-2012). Tuna Rural de Candoz: Músicos: Júlio e João (violinos), Nelo,  Luis Filipe, Tiago, Miguel  (violas, cavaquinho). Mandador: Joaquim Barbosa (Quim).

Uma tradição que infelizmente se está a perder, mas que ainda é acarinhada e cultivada nas nossas festas na Quinta de Candoz...


27 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (13). Não há festa sem música (Parte V): Siga a banda!...


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) >  O João e o Júlio (violinos), mais o Nelo (viola)... Mais um musiquinha tradicional, do reportório das velhas tunas rurais... Repare-se que o João está a tocar de improviso, de ouvido... Os dois músicos, um de Lisboa e o outro do Porto, nunca ensaiaram juntos...

Vídeo (49''): Gusto / Luís Graça (2012)

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (12). Não há festa... sem fogo de artifício



Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) >  Também não há festa, no norte, sem fogo de artifício e... alguns pequenos percalços (um dos foguetes bateu num fio de telefone e fez ricochete, mas felizmente ninguém de aleijou). Claro que a festa continuou até às tantas...

Vídeo ('' 53):  Gusto / Luís Graça (2012)

26 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (11). Não há festa sem música (Parte IV): "Vem viver a vida, amor / Que o tempo que passou / Não volta, não"...O coro dos filhos, netos e sobrinhos


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > Filhos, netos  e sobrinhos do casal entoam em coro uma paródia da conhecidíssima canção do José Cid (letra e música), "Vem viver a vida, amor / Que o tempo que passou / Não volta, não"...

Foi projetado também  um belíssimo filme feito pelo Miguel, relembrando estes cinquenta anos de amor de um casal que deu ao mundo quatro filhos (Zeza, Natália, Cristina e Miguel)...

Vídeo (2' 48''):

25 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (10): Mais um "número" encenado pela endiabrada da Zezinha, as "noivas matrafonas"...







Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) >  O desfile das "noivas matrafonas"... Um dos momentos altos, hilariantes, da festa, quando irmãs, cunhadas e sobrinhas da Rosa decidiram voltar a vestir os seus vestidos de noiva... Só Alice é que não ia de branco... Mais um "número" encenado pela endiabrada da Zezinha, que tem a quem sair...


Fotos: Luís Graça (2012)

Vivó´s noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (9): O desfile das noivas (Parte I)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) >  Festa é música, é comida,  é bebida, é alegria, é bom humor, é brincadeira... O programa das festas (, organizado em segredo pela Zeza,) foi uma caixinha de surpresas: ao fim da tarde, já em Candoz, sai o desfile das noivas, todas vestidas de branco, com exceção da Alice, a primeira a casar, em 1976, "fora da igreja"...

À frente do desfile, vem a Nitas, seguida da Becas, da Zeza, da Luisa, da Mi... e por fim da Alice, a noiva-que-não-ia-de-branco.Acompanhamenmyo musical: Júlio (violino), João (violino) e Nelo (viola). Coro: risada monumental da assistência...

Vídeo (4' 23''): Luís Graça (2012)

24 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (8). Não há festa sem música (Parte III)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > O Júlio, mais o Nelo, viola, a que se associou depois um segundo violino, o João... A ensaiar mais uma modinha conhecida lá terra ("A mim casa velhinha"),  com acompanhamentos vocais de desvairadas gentes... Destaque para o nosso Manel, corista... Entretanto, alguém anuncia que "vem aí o desfile das noivas!... Músicos e povo tomam posição...

Vídeo (1' 59''): Luís Graça (2012)

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (7): Não há festa sem música (Parte II)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > O Júlio e o seu violino mágico... Mais o Nelo, viola... A ensaiar uma valsa (?), sob o olhar atento do António, o nosso "mais velho",  que tem uma pena danada de não tocar nenhum instrumento...

Vídeo (2' 02''): Luís Graça (2012)

23 outubro 2012

Vivó's noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (6): Não há festa sem música (Parte I)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Missa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > 20 de outubro de 2012 >  Ainda na sacristia da igreja o Júlio, cunhado do Quim e da Rosa, e exímio tocador de violino, tocou, para mim e para o João, esta peça do seu reportório, e que ele tencionava executar na festa em Candoz...

O Júlio faz parte do grupo musical Os Baiões, e é um entusiástico representante da tradição das tunas rurais que tiveram, em Entre Douro e Minho,  o seu apogeu nos anos 50. Até por volta dos 40 anos também era um excelente tocador de violão. Um acidente com uma máquina de cortar madeira (ele é marceneiro de profissão), levou-lhe a falange do indicador da mão direita, obrigando-o a trocar o violão pelo violino (Repare-se, no vídeo acima, a mão que segura o arco do violino)...

 O Júlio é um exemplo extraordinário de força de vontade, talento, sensibilidade, coragem, disciplina e persistência. É, além disso, um homem afável e amigo do seu amigo. A morte, há uns atrás, de um companheiro e amigo, tocador de violão, levou-o a fazer um prolongado processo de luto, de vários anos, em que deixou pura e simplesmente de tocar.

Vídeo (1' 15''): Luís Graça (2012)

Vivó's noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (5): A cerimónia religiosa (Parte IV)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Missa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > 20 de outubro de 2012 >  À saida do templo não faltaram os tradicionais bagos de arroz e os ditos jicosos, como manda a boa tradição nortenha...

Os noivos e a comitiva seguiram depois para Porto Antigo, na barragem do Carrapatelo, Rio Douro, em cuja estalagem, com o seu magnífico espelho de água, partilharam um opíparo repasto, para lembrar que troika...tezas não pagam dívidas...

A festa continuaria à tarde em Candoz até às tantas da noite, com muita comida, muita bebida, muita música, muita alegria, muito amor... Ele há coisas que vale a pena, como no meu caso vir de Angola a correr p'ra ver os noivos... (LG)

 Vídeo (19''): Luís Graça (2012)

Vivó's noivos: As bodas de ouro da Rosa e do Quim (1962-2012) (4): A cerimónia religiosa (Parte III)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores  > Missa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > 20 de outubro de 2012 > A nossa querida Ana Maria, a filha mais velha do Manel e da Mi,  abrilhantou com a sua fé e a sua magnífica voz a cerimónia da celebração dos 50 anos de casados dos tios,  Rosa & Quim.

Salmo responsorial (128), 1-2-3-4-5

Felizes os que esperam no Senhor:
Felizes os que andam nos seus caminhos...

Vídeo (2' 40''): Luís Graça (2012)

Vivó's noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (3): A cerimónia religiosa (Parte II)


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Igreja da freguesia > Quim e Rosa > Missa das Bodas de Ouro (1962-2012) > 20 de outubro de 2012 > Rito da benção e entrega das alianças...  O casal estava visivelmente feliz e bem disposto...

Vídeo (1' 40'' ): Luís Graça (2012)

Vivó's noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (2): A cerimónia religiosa (Parte I)


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Igreja da freguesia > Quim e Rosa > Missa das Bodas de Ouro (1962-2012) > 20 de outubro de 2012 > Uma cerimónia singela, mas muito tocante e bonita, presenciada por umas largas dezenas de familiares e amigos, e abrilhantada por belas vozes do coro da terra, órgão e dois violinos...

O Padre Joaquim, pároco do Padrão da Légua, e amigo do casal e amigo de Candoz, celebrou a missa e presidiu à cerimónia da renovação dos votos de amor e fidelidade do casal...

Vídeo (1' 19''): Luís Graça (2012)

20 outubro 2012

Vivó's Noivos: As bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) (1): Aos (e)ternos namorados...




A Rosa e o Quim, bodas de ouro (1962-2012)


Aos (e)ternos namorados!


Cinquent’ anos de casados,
Leva já este lindo par,
Rosa e Quim, enamorados,
Que voltam hoje a casar.

Voltam hoje a casar,
Na sua terra natal, 
São um caso exemplar
Neste nosso Portugal.

Neste nosso Portugal,
Neste berço da Nação,
Vai agora este feliz casal
Estar no altar em oração.

Estar no altar em oração,

E de novo a Deus rogar
Que abençoe a sua união,
Até a morte os levar.

Até a morte os levar,
Hão-de na terra viver,
Ora a rir, ora chorar,
E um poucochinho a sofrer.

Um poucochinho a sofrer,

É da condição terrena;
Mas, da vida, o que se quer ?
Que seja longa... e serena!

Que seja longa e serena
A estrada dos setenta,
E que valha mesmo a pena
O amor… aos noventa!

Os/as manos/as e cunhados/as de Candoz, 
António & Graça, 
Manel & Mi, 
Alice & Luís, 
Nitas & Gusto, 
Zé & Teresa

20 de outubro de 2012

14 setembro 2012

As nossas comidinhas (5): Filetes de sardinha com arroz de tomate




Candoz > 23 de agosto de 2012 >... Confesso que nunca tinha comido... eu que sou da terra da sardinha, ou melhor do mar... A receita é da Tia Berta, uma receita popular do Porto... A sardinha não é da Lourinhã (ou de Peniche, que o mar é o mesmo), mas de Matosinhos... Mas que isto é um petisco divinal, isso é!, garanto-vos.  

Para a próxima  prometo deixar aqui a receita: mas a coisa é simples, corta-se a cabeça à sardinha, depois é só escalá-la e tirar-lhe TODAS as espinhas, uma a uma... O resto já não me lembro: deve levar limão, aromáticas... frita-se e come-se à moda do pinguim!... Atenção: no céu também não há disto!...

Fotos: Luis Graça (2012)

As nossas comidinhas (4): Anho assado com arroz de forno à moda de Candoz






"Coma,  que no céu não há disto" - costumava eu dizer ao meu velhote,  em vida... Um dia destes digo qual a é a receita das manas Rosa, Chita e Nitas, herdeiras dos nossos saberes gastronómicos... Porque o que é bom, é para se partilhar com os outros (cristãos e não cristãos)...

50 anos de casada vai fazer a Rosa. E temos festa rija no dia 20 de outubro!...

Este aninho já se foi, no passado dia 1 de setembro de 2012, antecipando a festa de aniversário do Zé, que é sempre no dia da festa do Castelinho...

O anho estava, como sempre, melhor do que o último... Para acabar as férias,  em beleza, como manda a tradição. Felzmene que aqui, com o Marão à vista, ainda mandam os que aqui estão, não os da Troika!

Fotos: Luís Graça (2012)

08 setembro 2012

Cartas de Camabatela (Angola, 1970/71): do Zé para a mana Chita...



Candoz > 23 de agosto de 2012 > O Zé, com o seu afilhado João, filho mais novo da sobrinha Susana... O Zé, reformado dos seguros,  também já é avô, tem um belo neto, o Diogo, filho do Pedro.



Lourinhã, Praia da Areia Branca > 17 de agosto de 2012 > A mana Chita, na hora do pôr do sol... Em 1973 ela veio trabalhar para a Lourinhã, por um mês, para suprir a falta de um elemento da equipa local da Junta de Colonização Interna...

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


1. O Zé faz hoje anos. 64. Nasceu no dia da festa do Castelinho, a 8 de setembro de 1948. O mais novo de 7 irmãos, 3 rapazes e 4 raparigas (das quais uma morreu, ainda criança).

Como todos os rapazes da sua geração, foi chamado a servir o país, durante a guerra do ultramar. Esteve em Angola. Foi 1º  Cabo Transmissões de Infantaria, de rendição individual, numa companhia que guardava os cafezais lá região, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe. Hoje, Camabatela ou Kamabatela, sede do município de Ambaca, pertence à província de Kwanza Norte. CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar. A CCAÇ 312 estava Belongongo e CCAÇ 311 em Mussungo.

O Zé  não parece ter grandes saudades do seu tempo de tropa e de guerra. Recebia e escrevia muitas cartas e aerogramas, isso sim. Das que recebeu (dos manos, pais, cunhados,  amigos, amigas ...) guardou-as todas, e arquivou-as, uma a uma, por autor e data... S´da Chita, tem mais de 100, no seu arquivo. Essa coleção é já um hoje um fonte de informação interessante não só para a história da família mas também sobre o quotidiano da guerra em África, e das necessidades e preocupações que os nossos militares deixavam transparecer. As saudades da terra eram sempre mais do que muitas, as referências às festas anuais, à matança do porco, às vindimas, ao Natal, etc., eram frequentes.  Era isso que fazia lembrar a pátria distante... Nos dois anos que lá esteve, nunca veio a casa, que as viagens eram caríssimas.

Quisemos fazer-lhe uma pequena surpresa, selecionando algumas das cartas que ele mandou à mana Chita, e que felizmente chegaram até nós (apenas umas 20 e tal). Muitas outras ter-se-ão perdido, com o tempo. A Alice já trabalhava e andou por vários sítios. Aqui vai então uma pequena antologia de excertos dessas cartas, com os parabéns natalícios da mana Chita (e do Luís). Para o Zé, que merece tudo, muita saúde e longa vida!...AC / LG





2. Cartas de Camabatela: do Zé Carneiro para a mana Chita (1970/71) > Excertos

Remetente: José Ferreira Carneiro, Caixa postal 150, Camabatela, Angola

Camabatela 19/05/70 

Querida mana.

Aqui me tens de novo, conversando como estivesses a meu lado. Começo por te desejar óptima saúde na companhia das tuas colegas e de toda a nossa família.

Já deves ter conhecimento de que estou de novo no destacamento. Cá estou a passar mais 45 dias de férias no mato…

Quanto ao meu castigo, tenho-te a dizer que ficou tudo em águas de bacalhau. O Capitão chamou-me e só me disse que não devia ter feito a troca sem o avisar. Escusas de te preocupar, está tudo bem.

Por hoje é tudo. Recebe do teu mano um xi coração muito forte, adeus até 1971. 



Camabatela 16/06/70

Querida mana Chita

Estou a escrever uma carta porque os aeros [aerogramas] chegam a demorar cerca de um mês até chegarem ao seu destino, isto quando não são devolvidos. Estou mesmo muito aborrecido com isto. Pensei agora só escrever cartas, mas de 15 em 15 dias. Assim as cartas só demoram 3 dias a chegar a vossa mão. Tens que escrever é para a caixa postal. Que achas? Assim não repetimos as notícias. Quando receberes carta minha, peço-te que telefones aos pais para ficarem descansados. Está bem assim?

Já te mandei o nº dos sapatos por 4 vezes e ainda continuas a pedir!.. Isto quer dizer que não tens recebido o correio.

Então como anda a tua saúde? Iniciei a carta sem fazer aquela lenga, lenga de sempre… Quanto a mim, desde já te digo que estou forte e que gozo de boa saúde.

Termino com um xi coração muito apertado do teu mano que te adora. Bjs 


Camabatela 04/07/70

Agora mesmo acabo de receber mais uma carta tua, juntamente com uma encomenda que trazia os sapatos e a camisa. Cada vez as encomendas estão a demorar menos tempo. Comparar com as primeiras que foram enviadas!...

Os sapatos e a camisa ficam-me a matar, só não queria que mos oferecesses. Tens mais em que gastar o dinheiro, mas aceito. Esta não está esquecida!

Já estou de novo em Camabatela, já estava cansado de tanto capim. Não posso dizer mal, porque desta vez engordei 3kg e aqui perco sempre peso.

Faz hoje 11 meses que embarquei em Lisboa, já pouco mais falta do que um ano, e um já se passou!...


Camabatela 18/11/70

Depois de ter chegado de uma operação que durou 5 dias, aqui estou a dar-te notícias.

Hoje mesmo parto novamente para o mato, onde vou passar o Natal e talvez o Ano Novo. Desta vez calhou-me a mim, o ano passado foram os meus colegas.

Com isto, estou quase a entrar no ano da peluda [, fim da comissão e passagem à disponibilidade]. Cada vez falta menos. Oxalá que este termine sem problemas.

Apesar de ainda não saber o que vou fazer quanto ao meu futuro de vida, não me sinto com ideias de meter o xico….

Por aqui vou ficar, mandando cumprimentos para todos os nossos vizinhos, as tuas colegas, e tu do mano muito amigo, um forte xi coração. 


Camabatela 14/01/71

Aproveito estar uma grande trovoada e chuva para te escrever, porque assim as comunicações não funcionam, tenho que desligar os aparelhos.

A encomenda que mandaste, chegou dois dias depois do Natal. Chegou tudo bem. As castanhas começamos a comê-las e só terminamos quando acabaram. Sabes uma coisa? O bolo Rei não tinha fava!

Já só faltam 7 meses! Isto vai com calma.

Enquanto vós estais aí com grandes nevões, (segundo dizem os jornais), por aqui a temperatura é agradável, só as chuvas é que são esquisitas.

Já estou de novo em Camabatela. Já estava saturado de estar no mato e de ver tanto capim.

Acompanhado duma boa musiquinha, consegui estar contigo no pensamento.

Agora que o temporal já lá vai, tenho que regressar ao trabalho e ligar os aparelhos que já me provocam raiva só de olhar para eles. Tenho que estar em forma.

E assim me despeço com um forte xi coração do teu mano amigo. Adeus e até Agosto ou Setembro.


Camabatela 15/02/71

Querida mana,  não calculas como eu fiquei ao ler a tua carta e me falavas da matança do porco. Aquelas fêveras e os rojões de que falavas. Não continha a minha cabeça e os meus pensamentos. Pareciam o Rio Douro quando traz uma enchente das chuvas. O mano António também me falou do mesmo.

Sabes uma coisa? Estou muito, muito cansado. Andei 3 dias e 3 noites no mato a andar sem poder dormir e ainda carregado com o respectivo rádio. A roupa molhou-se e secou-me no corpo por 3 vezes. Foi por esta razão que te demorei mais a escrever.

Querida mana, quanto ao que vou fazer quando acabar a tropa, o mais certo é eu ir estudar. Sem isso eu não tenho possibilidades de ter um emprego digno. Já falei com o Capelão para me colocar como Perfeito no Seminário, assim já podia estudar e trabalhar. 


Camabatela 17/05/71

Espero que esta minha carta te vá encontrar de óptima saúde, bem como toda a nossa família.

De facto tens razão em dizer que estou a esquecer-me um pouco de voz, mas não. Nada tem acontecido de grave por cá. Tudo corre pelo melhor.

Não te devia dizer, mas já estou de novo no mato. Esta estadia aqui, será a última para completar a minha comissão.

Não estejas preocupada que eu aqui no mato só tenho como rival o isolamento. De resto tudo é melhor do que na vila de Camabatela.

Quando me falas do que vou fazer quando regressar. Nada te sei dizer, estou a ver tudo muito escuro, mas na lavoura eu não quero ficar.


Camabatela 14/06/71

Querida mana.

Só hoje recebi a tua carta e logo te respondo. Parece impossível que as cartas demorem tanto tempo. Entre tu escreveres e eu receber, chegam a demorar 15 a 20 dias. Chegamos a estar 20 dias sem correspondência o que é muito duro para quem está aqui. As coisas ainda pioram mais quando estamos no destacamento (mato) que chegamos a estar 45 dias.

Também penso o mesmo que tu, que sou preguiçoso, que já não tenho saudades vossas, etc. etc. mas o que interessa é que só faltam 50 dias para isto acabar.

Vou te contar um segredo: Andei a fazer umas economias para comprar uns presentes para vos levar, mas acontece que um colega que sabia do meu mealheiro, foi lá e roubou-mo. Eram 2.500$00. Este colega foi-me falso e ando muito triste, mas tenho que esquecer. Depois quando eu chegar, te contarei melhor como tudo aconteceu.

Gostava de chegar aí e tu estares ainda de férias, seria bom, mas a tropa é que manda!..


Camabatela 04/08/71 


É precisamente o dia que devia terminar a minha comissão e que te escrevo para desta forma estar em contacto contigo.

Aquilo que desejas saber, ainda não é desta. Porque apesar de ter terminado a minha comissão, ainda não chegou o substituto para me render, mas como há falta de pessoal tenho que aguentar. Com a graça de Deus tudo vai acabar bem.

Desta vez a minha carta levou pouco tempo a chegar aí. Nesse mesmo dia escrevi também a mana Nitas.

Desculpa não escrever mais, mas estou cheio de sono.

Um forte abraço de saudades do teu mano Zé

30 agosto 2012

José Carneiro (1911-1996): uma outra faceta, a de negociante e criador de gado


Candoz > 2011 > O velho carro de bois .

Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados


1. José Carneiro não era propriamente um "homem dos sete ofícios"... Mas a verdade é que teve três ou quatro, onde foi bem sucedido: ramadeiro, agricultor, comerciante de uvas, criador de gado... Tinha duas quintas, uma com caseiro (Carreira Chã).

Nas suas agendas (anuais), de pequeno formato, ele costumava registar alguns apontamentos dos seus negócios... Na agenda de 1980 (completa), fui encontrar os seguintes registos relativos à compra e venda de gado:

17 de janeiro, sábado:

Comprei uns bois  [de trabalho]  para Passinhos por 14950$00. Gainho (sic): 250$00 [ Este último averbamento é posterior, foi escrito depois da venda da junta de bois, presume-se. O negócio era feito no mercado do gado, no Marco, ou porta à porta; ele volta a comprar bois para Passinhos em 16/3/1980].

25 de janeiro, domingo:

Comprei 1 touro para Candoz [, ou seja, para engorda], por 4750$00. Perca: 250$00.

16 de março, 2ª feira:

Comprei uns bois para Passinhos por 16400$00. [Por lapso, não indicou o lucro ou perda depois da venda; nessa altura ele tinha alguns vizinhos com quem trabalhava de parceria pecuária: adiantava o capital, o outro parceiro dava o trabalho, e os eventuais lucros eram divididos a meio].

5 de abril, domingo de Pascoela

Comprei 1 touro para Candoz por 4200$00. Gainho: 500$00

12 de abril, domingo

Comprei 1 touro para Candoz por 4800$00. Ganho em 2 meses: 750$00 [Quer dizer que o touro tinha sido comprado por 4050$00].

28 de junho, domingo:

Comprei 1 touro para Candoz por 5900$00. Ganho: 400$00.

17 de julho, 6ª feira:

Comprei 1 touro para Candoz por 5700$00. Ganho em 1 mês e meio: 1300$00,

8 de agosto, sábado

Comprei 1 touro para Candoz por 5300$00.

4 de setembro, 6ª feira:

Comprei 1 touro para Candoz por 5600$00. Ganho em 6,,5 meses: 1600$00


2. Na agenda de 1979 (incompleta), encontrei este registo com o resumo da atividade anual:

Gainho (sic) dos touros, de janeiro até ao fim do ano de 1979:

1 touro - 3 meses > 570$00
2 touros - 3 meses > 5400$00

Subtotal 11100$00

3 touros - 1 mês > 5500$00
1 touro - 4,5 meses > 16300$00 (*)

Total: 32900$00

(*) Deve corresponder ao registo de 21 de junho de 1979:

"Comprei 1 touro para Candoz: 24700$00. Gainho em 4 meses e meio: 16300$00".

Na agenda de 1979 (a que faltam folhas), ainda encontrei estes dois rtegistos:

(i) 7 de julho:

"Comprei 1 touro para Candoz: 31500$99. Para pensar ao Manuel. 1 mês, 550$00 [de lucro]. Vendido  em 15 de agosto.

(ii) 15 de agosto:

"Comprei 1 touro por 25400$00. Candoz e Manuela [, filha de vizinho, caseiro].

A prestigiada e sempre muito concorrida feira do gado do Marco de Canavezes entrou em declínio ou encerrou mesmo, como muitas outras no norte, por razões de zoossanidade, já na década de 1980,  se não me engano (não posso precisar nem o ano nem as razões, mas julgo que foi logo em meados dos anos 80, na sequência da BSE ou doença das "vacas loucas" ...

E o "pensar um tourinho" (sic) deixou, assim,  de ser uma atividade económica e socialmente interessante para as gentes da região, ainda ligadas à agricultura e á pecuárias, e a formas de exploração agroepcuária precapitalistas que sobreviveram ao 25 de abril...

Depois veio a  cantiga do bandido,a Cê-Ié-Ié, em 1986... o novo edolrado, o novos brasis, o dinheiro fácil, o "boom" da construção civil,  etc., nos anos seguintes, enfim fatores (endógenos e exógenos) que levariam, mais uma vez,  os mais jovens a sair da terra... Mais recentemente, veio, para ficar, a... troika, ou seja, os novos senhores que mandam neste terra milenária e resiliente...

Luís Graça (com contributos do Gusto e da Mi).

José Carneiro (1911-1996). mordomo da festa da Nossa Senhora do Socorro em 1960



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Foto nº 1 - Discriminação das despesas da Festa de Nossa Senhora do Socorro (sem data). Escrituração feita por José Carneiro, mordomo da festa. Segundo a filha Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares, tratou-se da festa do ano de 1960.




Despesa
Valor
Música dos B. V. Portuenses
4100$00
Música dos B. V. de Rio Mau
2500$00
Fogo de quatro fogueteiros
7600$00
Iluminação
2750$00
Armação [dos andores]
1000$00
Zés Pereiras
450$00
Autofalante
250$00
Carne para as músicas [bandas]
1222$00
Carpinteiro do sr. Geraldes [do Juncal]
162$00
João de Magalhães  [que deitou o fogo]
50$00
Tipografia: programas e estampas
290$00
Selo de 35 programas
14$40
Licença da Câmara  para as músicas
66$00
Guarda [Nacional] Republicana
360$00
Carro em que regressou a GNR
40$00
Câmara {Municipal]: Energia e eletricista
137$50
Flores e correio
58$80
Pão de trigo e de milho
96$00
4 quilos de cavacas para os anjinhos
100$00
Despacho do fio de cobre para iluminação
9$70
Expediente
28$80
Mercearias
763$60
Gratificação para o electricista
50$00
Vinho para as músicas
1000$00
Padres
450$00
Total
23447$60





Foto nº 2 - Saldo da festa : "Rendimento de tudo da festa da Senhora do Socorro" (s/d). Escrituração feita por José Carneiro, mordomo da festa.


Receita
Valor
Rendeu a festa em dinheiro
 4240$20
Apurou-se em ouro
1817$50
Recebeu-se dos mordomos de Paredes
5791$60
Recebeu-se dos mordomos de Viadores
5186$50
Renderam as flores [de papel]
642$00
 Total
17677$80



Despesa
23447$60
Apuros
 17677$80
Saldo [negativo]
5769$80

Observ. O prejuízo foi dividido pelos 6 mordomos da comissão organizadora (cabendo 961$63, a cada um…). Outros tempos, outras gentes,outros valores!...

A Nitas lembra-se, tinha ela 13 anos já feitos, de andar na festa a angariara dinheiro com as florinhas de papel que eram espetadas na lapela do casaco dos homens, à entrada do recinto. As receitas que daí provieram ainda atingiram uma cifra razoável para a época: c. de 650$00... Também era vulgar as as pessoas ofereceram à Nª Srª do Socorro objetos em ouro (brincos, cordões, etc.), como forma de pagamento de promessas.

Repare-se, por outro lado, que o foguetório já nessa altura representava 1/3 do total das despesas, e mais de outro tanto a contratação de duas bandas de músicas, pagas em dinheiro e em géneros (38%). Nas despesas com os padres, inclui-se p pregador, que vinha de fora.

José Carneiro foi mais de uma vez mordomo destas festas de Nº Srª do Socorro, que se realiza todos os anos no último domingo de julho.  LG

PS - Cópia de documentos, avulsos,  do espólio de José Carneiro.Infelizmente sem data.

Luís Graça (com contributos da Nitas e da Mi)

29 agosto 2012

José Carneiro (1911-1996), construtor civil de ramadas


Foto nº 1 - Duplicado de recibo de 30 de dezembro de 1953

José Carneiro (1911-1996) exerceu, durante décadas, a atividade de “construtor civil de ramadas”, vulgo ramadeiro. Era uma atividade sazonal, que conciliava com a de agricultor e também, mais tarde, de negociante de uvas. Tinha fama de ser exigente para com os seus trabalhadores, e oferecer aos seus clientes garantias de obra acabada, bem feita e duradoura.

Tanto quanto sei, foi ofício que herdou do pai, e que foi continuado pelo irmão mais velho, António Carneiro, nascido em 1909 e já falecido (em data que não posso precisar; 1974 ou 1975, diz a Alice). José era o irmão mais novo da família Carneiro, de Ribeirinho. O pai deve ter morrido em 1929, quando ele tinha 17 ou 18 anos. O pai terá começado a trabalhar em ramadas na Casa da Igreja (ou de Paredes). O José trabalhou com o seu mano António como ramadeiro, até casar, em 1938. Depois estabeleceu-se por conta própria.

Devia estar inscrito como “construtor civil de ramadas” na repartição de finanças do Marco de Caneveses, e como tal sujeito a contribuição industrial, embora possivelmente isento. Não há documentos, no seu espólio, comprovativos da contribuição industrial. Pagava, entretanto, o imposto municipal de "prestação de trabalho", que existiu até ao 25 de abril

 Passava recibos dos serviços prestados, quando lhe eram pedidos. Um dos livros de recibos que nos chegou às mãos abarca uma década de atividade (1952-1962). O livro deveria ter 100 recebidos (original e duplicado). O nº de duplicados que contámos é de 90. Faltam portanto 10. (Segundo o Zé, seu filho mais novo, e que trabalhou com ele na década de 1960, alguém, um amigo,ter-lhe-á sugerido que mandasse fazer, numa tipografia do Marco, duas cadernetas de recibos; uma delas  ficou por estrear).

Os recibos eram passados pelo próprio, escritos a tinta azul, numa letra certinha de mais para quem só tinha a 3ª classe. Temos, no seu espólio, duas canetas fininhas, de aparo, que ele utiliazava em casa. Raramente usava papel químico, pelo que os duplicados eram também escritos a tinta. Os duplicados estão numerados até ao nº 19. Depois disso, deixa de haver numeração. Faltam os duplicados nº 1 a 4, 7, 14, 17 e 18.

O primeiro (recibo nº 5) data de 4 de fevereiro de 1952 e o último, de 28 (ou 22?) de fevereiro de 1962.

A equipa de ramadeiros era flexível, variando entre 3 a 7, incluindo o próprio construtor e pelo menos um dos seus filhos (primeiro o mais velho, o António, e depois o Manuel Ferreira Carneiro e, mais tarde, nos anos de 1963 a 1967, o José Ferreira Carneiro, o benjamim da família). 

Em geral, o construtor ganhava o dobro dos seus oficiais. Os honorários do construtor vão, nesta época (em que praticamente não havia inflação) , entre os 30 e os 50 escudos, dependendo do cliente e da distância da obra em relação ao local do estabelecimento principal (que era Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses). As ferramentas eram dele. O material (esteios, em pedra, e mais tarde em cimento, bem como o fio de arame) eram fornecidos pelo cliente (, o proprietário).

Durante toda esta década a equipa de ramadeiros era variável, de acordo com a dimensão da obra e a disponibilidade do pessoal. Mas há elementos que são mais ou menos constantes:

(i) José Carneiro;

(ii) José de Sousa ou “Zé de Celeiro” (residia em Ambrões; ganhava mais do que os outros, presumindo-se que fosse o mais experiente e desembaraçado: em geral, em termos de grelha salarial, havia uma diferença de 5 a 7,5 escudos entre ele e os restantes oficiais; acabaria de estabelecer-se por conta própria, no início dos anos 60; nessa altura, por volta de 1961, ganhava quase tanto como o patrão: por ex., 45$00, cinco escudos menos que o patrão, e dez escudos mais do que os restantes companheiros);

(iii) António Vieira (um nome constante ao longo deste período, começou por ganhar 20$00 em 1952 e 30$00 e 32$00 em 1962; era muito amigo do José Carneiro, e pessoa da sua confiança);

(iv) Manuel de Sousa:

(v) Francisco de Sousa;

(vi) Armando Cardoso (desde 1954);

(vii) António Vieira Couto (, de Viadores)

(viii) Francisco Vieira Leitão

(ix) José Ferreira Carneiro (às vezes, coadjuvado pelo irmão; era sobrinho do patrão)…

Outros nomes (por ordem alfabética), que trabalharam com José Carneiro ao longo destes anos (1952/62): Adriano Carneiro, Agostinho Ribeiro, Américo Ferreira Carneiro (sobrinho do empresário), António Almeida, António Fernandes, António Monteiro, António Peixoto, Ernesto M. Marques, João Magalhães, Joaquim Barbosa, Joaquim Madureira, Joaquim M. Mendes, Joaquim P. Lucas, José Soares (Nogueira), Manuel Barbosa, Manuel Couto, etc.

Em 1954, o filho mais velho do construtor, o António Ferreira Carneiro, ganhava 15$00, menos de metade que o pai (40$00), enquanto os restantes oficiais ganhavam 20$00, numa empreitada na Casa de Manhuncelos (Data: 19/12/1954. Valor total do recibo: 595$00). 

O António deve ter deixado de trabalhar com o pai por volta dos finais de 1957, altura em que emigrou para o Brasil (já em 1958), sendo substituído por outro filho, o Manuel Ferreira Carneiro, que nos anos de 1958/59 ganhava 18$00, passando a 20$00 em 1960 , e depois 23$00, em 1961, e 25$00/26$00, em 1962… (O Manel irá depois para o Porto, onde trabalhou numa fábrica e se casou, antes de emigrar para França).

Poucos recibos, desta época, ultrapassam o valor de 1 conto de réis. Um deles diz respeito a uma obra em Vila Boa de Quires, no concelho do Marco de Canaveses, tem data de 29/11/1953 e está assim discriminado:

Nome
Dias
Salário
Total
José Carneiro
18
50$00
1900$00
José de Sousa
18
27$50
495$00
António Vieira
18
20$00
360$00
António Couto
18
20$00
360$00
António S. Almeida
18
20$00
360$00
Francisco V. Leitão
18
20$00
360$00
José F. Carneiro e Luís (?)
14
20$00  (?)
266$00


Soma
4011$00

 Nesta data os honorários do construtor atingiam o máximo (50$00) deste período, o mesmo que cobrava no final, em 1962… A estes honorários a que acrescentar os dos filhos, que trabalham gratuitamente para a casa... Ele teria tabelas diferentes… para os “ricos” e os “pobres” (amigos, vizinhos…).

Num recibo sem data (mas do ano de 1956), referente a uma obra numa ramada do sr. Leite de Viadores, no valor de 215$00, o construtor  contabilizou apenas os dias (3) do seu pessoal (3), a 20$00 por dia (António Vieira, António Cardoso, e António Almeida), mais 1 do António Couto (20$00) e outro dia do Manuel Couto (15$00). Na parte que lhe tocava, escreveu o seguinte: José Carneiro, 1 dia, grátis.

O sr. Leite de Viadores – diz a Alice, sua filha  – era “fidalgo”, tinha rendeiros, várias quintas, era casado com uma professora, e tinha duas filhas, que iam à missa “todas pintadas”, e com lugar especial na igreja, apartadas do resto do provo cristão… Era amigo do José Carneiro. Segundo o Zé, este sr. Leite será o mesmo que lhe vendeu a propriedade da Carreira Chã, por volta de 1959, salvo erro, por 110 contos.

O José Carneiro também tinha “deferências” para com a Casa de Paredes (ou da Igreja), que era de gente “fidalga”, os maiores proprietários da freguesia, que faziam o favor de ser “seus amigos” (muito em especial a Dona Maria do Carmo, que morreu já depois do 25 de abril).

Na altura das vindimas, geralmente em outubro, o José Carneiro era contratado como “feitor do vinho”, supervisionando a descarga das uvas e a feitura e a medição (“feitoria”) do vinho nos lagares das diversas quintas da Casa da Igreja, arrendadas em regime de parceria agrícola (e anualmente renováveis pelo São Miguel).
- Formavam-se grandes comboios de carros de bois carregados com pipas de vinho, em direção à Casa da Igreja, na época das vindimas. - lembra o filho mais novo, o Zé.

A Casa de Paredes tinha dezenas de quintas. Havia um feitor geral que escolhia depois, geralmente por freguesia, um homem da sua confiança para zelar pelos interesses da Casa (o pagamento das rendas eram em géneros, sendo o vinho e o milho os produtos mais importantes na época).

Aqui ficam 5 registos de recibos que o José Carneiro passava anualmente, relacionados com esta atividade “liberal” de “feitor do vinho” (1953- 1957):

(i)                  16 de outubro de 1953: Casa de Paredes – Vinho, 28 dias, a 25$00 por dia, 700$00. Sobrinhos da Casa, 12 dias, a 20$00 por dia, 300$00. Total: 1000$00;
(ii)                31 de outubro de 1954 Casa de Paredes – Vinho,   15 dias, a 25$00  por dia, 375$00. Sobrinhos da Casa,   5  dias, a 25$00 por dia, 125$00. Total: 500$00;
(iii)               11  de outubro de 1955: Casa de Paredes – Vinho, 20 1/5 dias, a 25$00 por dia. Total: 572$50;
(iv)              18  de novembro de 1956: Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 16 dias, a 25$00 por dia. Total: 400$00;
(v)                26  de outubro de 1957:  Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 10 dias, a 25$00 por dia. Total: 250$00.

 José Carneiro tinha “olho para o negócio”. A compra dos materiais (fio, esteios...)  era, em geral, por conta do dono da obra, como já se disse acima. Nos seus honorários como ramadeiro, incluía também “o desgaste das ferramentas”. Numa obra, em Amarante, para o sr(a). “D. Costa Santos”  (?), ele faturou um valor de 742$30, incluindo despesas de pessoal (ele, o filho António, o sobrinho Américo e mais oficiais, Armando Cardoso e António Vieira) e de comboio (106$30). Em “nota de rodapé” escreve no duplicado, a tinta azul: “Obra [con]tratada por 2000$00. Gainho (sic) por fora,  1250$00)"... Não se sabe se os materiais eram foram fornecidos pelo proprietário, embora nos pareça que sim.

Num outro trabalho para o Dr. Leal Olibeira (sic) (, ao que parece, no Marco de Canaveses, segundo informação do Zé),   o José Carneiro faturou, só por sua conta, 16 dias a 50$00 (vd. fotocópia do recibo, foto nº 1). Todo o restante pessoal (António Vieira, António Couto, João Magalhães,  Francisco Leitão, José de Sousa ) ganhava 20$00 por dia, com exceção do José de Sousa que auferia sempre mais (25$00). Há também dois meios dias   por conta do “carreto do material” (sic), no valor de 90$00. O total da obra foi de 2185400, mais ou menos equivalente a duas semana de trabalho. Os recibos (dois) são de 30 de dezembro de 1953 e 16 de janeiro de 1954. 

É preciso esperar pelo ano de 1961 (20 de janeiro) para encontrar outro recibo (passado a José Diogo Sampaio, que também não sabemos quem é) com os honorários de 50$00 por dia, o máximo da tabela...

Nesta época (início dos anos 60), José Carneiro fez vários trabalhos para a Casa de Paredes, como ramadeiro, faturando o seu trabalho  a 45$00 por dia. Provavelmente ele fazia uma atenção para os seus amigos da Casa da Igreja, gente que de resto tinha muita confiança e consideração por ele, muito em particular a sra. D. Emília, herdeira da D. Maria do Carmo. Nessa época o seu oficial mais bem pago era o António Vieira: 28$00 por dia.

 Alguns dos trabalhos para a Casa de Paredes que consegui apurar, através da caderneta de recibos:

(i) 7 de fevereiro de 1959 (dois recibos): total: 4412$50 (José Carneiro tem 32 ½ dias a 35$00 por dia, e o António Vieira 37, a 26$00, fora o restante pessoal, incluindo o Manuel F Carneiro, 36 ½ dias, a 18$00 por dia);

(ii) 18 de abril de 1960: total: 1235$00 (José Carneiro, 8 dias, a 35$00 por dia; o António Vieira, 13 ½ a 26$00, e o Manuel F. Carneiro, filho do patrão, a 22$00, o mesmo que os restantes ajudantes: Adriano Carneiro, Alfredo Pereira, Agostinho B (‘);

(iii) 18 de fevereiro de 1961: total: 3885$50 (José Carneiro, 22 1/5, a 45$00 por dia);

(iv) 22 de fevereiro de 1961: total; 1399$00 (José Carneiro, 11 dias, a 45$00 por dia) de abril de 1961: total: 279$50 (José Carneiro, 1 1/5 a 45$00 por dia, o António Vieira 2 dias a a 28$00 por dia, o Manuel Couto 2 dias a 25$00 por dia, e o Manuel F. Carneiro, também dias a 23$00 por dia);

(v) 2 de janeiro de 1962: total: 2921$50 (José Carneiro, 19 1/5 dias a 45$00 por dia, com o António Vieira a 30$00 e o restante pessoal, incluindo o filho a 26$00…

Estranha-se que neste período não apareçam referências a obras longe de casa... Havia temporadas (não sei se neste período) em que o José Carneiro, com pelo menos um dos seus filhos, e vários elementos da sua equipa, iam por períodos relativamente longo, fazer ramadas na região do Douro. O Zé falou-me de um delas, no Pocinho, por volta de 1963/64, numa quinta do sr. Montenegro, da Casa de Manhuncelos, amigo do José Carneiro e pessoa politicamente influente na região. 

-Só vínhamos a casa no fim do mês. Comíamos e dormíamos lá. - informou o Zé.

O Gusto confirma-me que terá sido a única obra que o nosso sogro fez na região do Douro. A propriedade está hoje submersa pela barragem do Pocinho. O proprietário sabia que estava a valorizar os terrenos, com a construção de uma grande ramada.

Em 1978, de acordo com uma das suas agendas que chegaram até nós, o José Carneiro ainda trabalhava, sempre sazonalmente, como ramadeiro, profissão que o "pai-patrão" não conseguiu passar a nenhum dos filhos rapazes (António, Manuel e José) que escolheram a cidade para viver e trabalhar (e temporariamente a emigração, no caso dos dois primeiros) .

Dos seus assalariados, houve um, pelo menos, que se transformou em em empresário no ramo, o José de Sousa (também conhecido como Zé do Celeiro). Segundo a Alice, o pai trabalhou praticamente até ao fim, ou seja, até ter tido um AVC, em 1980, com 69 anos. Ofereceu a sua preciosa caixa de ferramentas a um ou mais  dos seus antigos colaboradores, como o Armanmdo Cardoso.  A família tem pena que as ferramentas do José Carneiro, ramadeiro,  tenham saído de casa e e se tenham dispersado.

Numa das pequenas agendas que ele usava para registar notas da sua atividade profissional (como ramadeiro, como agricultor e como negociante de gado), pode ler-se:

"José Carneiro - Ano de 1978: Gainho (sic) nas ramadas:
82,5 dias x [ ?] = 34525$00."

Nessa época, ele cobrava 400$00 e mais  por dia, como ramadeiro, o que era uma boa féria para a época, mas que reflectia já as tendências inflacionistas da economia portuguesa do pós-25 de abril. Veja-se um "apanhado" das suas contas nesse ano, conforme documentos avulsos que encontrámos no seu espólio (Fotos nº 2 e 3).


Foto nº 2 - [1978]: Discriminação dos dias de trabalho do ramadeiro José Carneiro (82 1/5) e da equipa:   A. V. [António Vieira]: 44,5> A. Rx. [António Rocha ?]: 45,5; Ar. C. [Armando Cardoso]: 19,5; M. V. [?] [Manuel Vieira ?]: 22.


Foto nº 3- [1978]: Uma das últimas obras  que o José Carneiro deve ter feito, e em que gastou 22 dias, e pelos quais recebeu um total de 10325$00. Cliente: António [de] Ermezinde, telef. 972560.

Registe-se op facto de com ele continuarem a trabalhar companheiros dos anos 50 como os amigos e vizinhos António Vieira e Armando Cardoso. Ao longo destes anos, o José Carneiro ganhou honradamente o seu dinheiro e deu a ganhar, não havendo grande oferta de trabalho na freguesia de Paredes de Viadores. Foi uma atividade que ele exerceu, durante muitos anos, sem concorrência a nível local, e que lhe dava prestígio, a para da sua condição de proprietário rural, dono de duas quintas, Candoz e a Carreira Chã (esta arrendada a caseiros).

Luís Graça (com contributos do Gusto, da Nitas, da Alice e do Zé)