Lisboa > 15 de agosto de 2018 > Nita
Foto: LG (2018)
Meu Gustito, meus filhos, meus netos, meus manos, meus sobrinhos:
Faço hoje anos.
Setenta e nove.
Continuo a fazer anos
e a gostar que me ofereçam flores.
Também vai fazer três anos que morri.
Fisicamente.
Fisicamente.
Há três anos... ai, com o tempo passa!
Dizem-me que deixei muitas saudades.
Acredito
Acredito
e não podia esperar outra coisa de vocês.
Amei muito e fui muita amada.
Amei o meu marido, os meus filhos,
Amei muito e fui muita amada.
Amei o meu marido, os meus filhos,
os meus netos, as minhas noras,
mas também os meus manos e cunhados,
os meus sobrinhos...
E sobrinhas, claro.
mas também os meus manos e cunhados,
os meus sobrinhos...
E sobrinhas, claro.
Tive dois meninos, o Luís Filipe e o Tiago.
Não tive nenhuma menina.
Não tive nenhuma menina.
E tive pena.
Mas não me faltaram sobrinhas
que eu muito amei, como se fossem minhas filhas.
E de quem recebi sempre muito carinho, amor, afeto.
Também fui menina.
E cresci.
Diziam-me que era uma mulher muito prendada,
Tive a sorte, talvez por ser a mais nova,
de ir estudar para o Porto,
O que na época era ainda pouco comum.
Um privilégio
Mas não me faltaram sobrinhas
que eu muito amei, como se fossem minhas filhas.
E de quem recebi sempre muito carinho, amor, afeto.
Também fui menina.
E cresci.
Diziam-me que era uma mulher muito prendada,
Tive a sorte, talvez por ser a mais nova,
de ir estudar para o Porto,
O que na época era ainda pouco comum.
Um privilégio
que estava reservado aos filhos dos fidalgos,
e de algumas famílias com posses.
e de algumas famílias com posses.
Não havia liceu nem escolas técnicas ou comerciais
no Marco de Canaveses.
E as ligações de Candoz com a vila
ainda eram más e morosas
(a não aser através da Linha do Douro,
apanhava-se o comboio no Juncal,
a uma hora pé da nossa casa).
E não havia passes sociais nesse tempo.
A solução foi ir para o Porto.
Para casa da mana Rosa.
Fui também, modéstia àparte,
um exemplo para os meus manos
e depois para os meus sobrinhos.
Fui a primeira da família Ferreira Carneiro
a ir estudar
e tirar um curso superior.
Incentivei outros a estudar.
E depois fui técnica de laboratório
no Instituto Superior de Engenharia do Porto,
o meu ISEP.
Desgraçadamente
foi também o local de trabalho
onde lentamente fui contraindo a doença
que me deveria matar, em 2023.
É uma história triste,
misturada com muitas alegrias,
e boas amizades que lá fiz;
mas foi lá,
no meu amado laboratório de química,
que estive exposta a produtos cancerígenos,
como o benzeno e outros.
Não vou agora penitenciar-me
por ter posto a minha saúde em risco,
por tanto ter querido ao meu trabalho
e àquela casa.
Nem acusar quem me devia ter protegido,
em última análise o Estado, meu patrão.
Mas que vos sirva também de exemplo,
para vocês, os mais novos.
Nunca ponham em risco
a vossa saúde e a vossa segurança,
nem a vossa nem a dos outros.
Podia ter vivido mais uns aninhos
com todos vocês que tanto me amaram
(e sei que me amam),
com o meu homem, os meus filhos,
os meus netinhos e as mamãs deles.
No desconsolo da minha solidão
(nem sei onde estou
nem por onde tenho andado),
tenho tantas saudades vossas,
das maravilhosas férias e viagens
que fizemos juntos,
das nossas festinhas,
dos nossos segredinhos e cumplicidades,
das nossas serviçadas em Candoz...
Três anos, meus amores, meus amigos,
são séculos de saudade.
É uma pedra muito pesada no meu túmulo.
Por favor, nunca me esqueçam.
Tragam-me uma florinha,
uma plantinha, do meu jardim
(que eu sei que o meu Gustinho
continua a tratar amorosamente),
deixem-na no mármore frio do meu jazigo,
mas falem comigo.
Não por favor, mas por amor.
Em voz alta.
Que eu oiço-vos.
De vocês, todos e todas,
eu nunca me esquecerei.
Vossa Nita.
15 de janeiro de 2025.