15 janeiro 2026

Nita (1947-2023): três anos de saudade




Lisboa > 15 de agosto de 2018 > Nita

Foto: LG (2018)


Meu Gustito, meus filhos, meus netos, meus manos, meus sobrinhos:


Faço hoje anos.

Setenta e nove.

Continuo a fazer anos 

e a gostar que me ofereçam flores.

Também vai fazer três anos que morri.

Fisicamente.

Há três anos... ai, com o tempo passa!


Dizem-me que deixei muitas saudades.

Acredito 

e não podia esperar outra coisa de vocês.

Amei muito e fui muita amada.

Amei o meu marido, os meus filhos,

os meus netos, as minhas noras,

mas também os meus manos e cunhados,

os meus sobrinhos...

E sobrinhas, claro.


Tive dois meninos, o Luís Filipe e o Tiago.

Não tive nenhuma menina. 

E tive pena.

Mas não me faltaram sobrinhas 

que eu muito amei, como se fossem minhas filhas.

E de quem recebi sempre muito carinho, amor, afeto.


Também fui menina.

E cresci.

Diziam-me que era uma mulher muito prendada,

Tive a sorte, talvez por ser a mais nova,

de ir estudar para o Porto,

O que na época era ainda pouco comum.

Um privilégio 

que estava reservado aos filhos dos fidalgos,

e de algumas famílias com posses.



Não havia liceu nem escolas técnicas ou comerciais

no Marco de Canaveses. 

E as ligações de Candoz com a vila

ainda eram más e morosas

(a não aser através da Linha do Douro,

apanhava-se o comboio no Juncal,

a uma hora pé da nossa casa).

E não havia passes sociais nesse tempo.


A solução foi ir para o Porto.

Para casa da mana Rosa.



Fui também,  modéstia àparte,

um exemplo para os meus manos

e depois para os meus sobrinhos.

Fui a primeira da família Ferreira Carneiro 

a ir estudar

e tirar um curso superior.

Incentivei outros a estudar.

E depois fui técnica de laboratório

no Instituto Superior de Engenharia do Porto,

o meu ISEP.

Desgraçadamente 

foi também o local de trabalho

onde lentamente fui contraindo a doença

que me deveria matar, em 2023.

É uma história triste,

misturada com muitas alegrias,

e boas amizades que lá fiz;

mas foi lá, 

no meu amado laboratório de química,

que estive exposta a produtos cancerígenos,

como o benzeno e outros.


Não vou agora penitenciar-me 

por ter posto a minha saúde em risco, 

por tanto ter querido ao meu trabalho 

e àquela casa.

Nem acusar quem me devia ter protegido,

em última análise o Estado, meu patrão.

Mas que vos sirva  também de exemplo,

para vocês, os mais novos.

Nunca ponham em risco

 a vossa saúde e a vossa segurança,

nem a vossa nem a dos outros.


Podia ter vivido mais uns aninhos

com todos vocês que tanto me amaram 

(e sei que me amam),

com o meu homem, os meus filhos,

os meus netinhos e as mamãs deles.


No desconsolo da minha solidão

(nem sei onde estou 

nem por onde tenho andado),

tenho tantas saudades vossas,

das maravilhosas férias e viagens 

que fizemos juntos,

das nossas festinhas,

dos nossos segredinhos e cumplicidades,

das nossas serviçadas em Candoz...


Três anos, meus amores, meus amigos,

são séculos de saudade.

É uma pedra muito pesada no meu túmulo.

Por favor, nunca me esqueçam.

Tragam-me uma florinha, 

uma plantinha, do meu jardim

(que eu sei que o meu Gustinho 

continua a tratar amorosamente),

deixem-na no mármore frio do meu jazigo,

mas falem comigo.

Não por favor, mas por amor.

Em voz alta.

Que eu oiço-vos.

De vocês, todos e todas,

eu nunca me esquecerei.

Vossa Nita.

15 de janeiro de 2025.