Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses. A casa, as pedras, os muros, o chão, as minas, os carvalhos, os castanheiros, as vinhas... Na posse da família Ferreira Carneiro, há pelo menos dois séculos. Uma estória de loas e cantigas. Mas também de trabalhos (es)forçados. De pão e vinho sobre a mesa. De amor e de amizade. Rosa, Chita, Nitas, Zé, mais as respectivas caras metades (Quim, Luís, Gusto e Teresa). Pais fundadores: José Carneiro & Maria Ferreira.
In memoriam José
Teixeira Pinto Soares (1945-2023)
Querido Zé Soares:
Que dizer
perante a morte ? A morte deixa-nos sem palavras.
Mas tu tens
direito a uma palavra. Não podes partir da terra que amavas sem uma palavra.
Uma palavra
dos que te amaram e que também fizeram parte da tua vida.
Já tiveste,
agora mesmo, as palavras de fé e de esperança cristãs, do celebrante desta
cerimónia, sempre tocante, que é a missa de corpo presente. Resta agora a nossa
palavra de homenagem e de despedida.
Temos para
contigo o dever de memória e, mais do que isso, a obrigação de te manifestar o
amor, a amizade, a estima e o apreço que tu mereces e que sentimos por ti. Para
mais agora que partiste para a tua última viagem.
Zé, foste um homem bom, mas discreto, humilde. Gostavas
de ficar no teu cantinho. Mas, por
detrás dessa discrição e humildade, havia muito talento e bondade. Foste um
homem bom, foste um bom filho, e depois pai, esposo, avô, amigo, irmão, colega,
vizinho, cidadão, português. Foste um profissional de seguros competente,
dedicado e honesto. E tinhas tudo para ser um grande artesão e artista, se
tivesses dado asas aos teus sonhos.
Sempre
pensei que poderias ter trabalhado na
arte do restauro nalgum dos nossos grandes museus nacionais. Trabalhavas a madeira
com gentileza, poesia, arte e engenho. E só detestavas os pregos, confidenciou
me o teu mano Gusto. Era uma das tuas
paixões, mesmo muito antes da reforma.
Mais do que
tudo, eras um homem generoso, amigo do seu amigo, que sabia pagar a amizade com
a amizade.
Sem sermos
amigos íntimos, recordo os muitos natais e festas da páscoa, na Madalena, mas também vindimas em Candoz. Com as nossas mulheres,
com os nossos filhos e netos a crescer, ainda com os teus pais, com o teu mano, com a
nossas saudosa Nitas, com o teu adorado filho Miguel.
Foram
momentos muito bonitos e felizes das nossas vidas em comum. E eu nunca me esquecia
de tI e dos teus nos meus versinhos festivos.
Estamos
agora todos desolados com a tua partida precoce. Bolas, tinhas direito a viver
ainda muitos e bons anos. Simbolicamente, partes no veleiro que há muitas
décadas atrás montaste, peça a peça, com a tua infinita paciência, rigor e
habilidade. É o barco de Caronte, como
eu gosto de dizer, e já diziam os gregos antigos. O barco que também um dia destes nos há de
levar a todos para a outra margem do rio, mar, oceano, planeta ou galáxia, que agora nos
separa, qualquer que seja a nossa crença ou o Deus a quem rezamos.
Até lá, até nos juntarmos todos de novo, já
tens aí ao pé de ti o teu querido filho Miguel (que nos deixou tão cedo!), os teus pais, a nossa Carmen, a nossa Nitas…
Deixas na Terra o teu ADN, o teu património
genético. E sobretudo um rasto luminoso, como ser humano.
Zé, deixa-me
dizer-te por fim, que podes ter
orgulhonos cá ficam. da tua família aos teus amigos.
Com a eterna
saudade, do Luís e da Alice, e de todos de mais presentes nesta celebração religiosa. Até
sempre, Zé Soares!
Porto, igreja
paroquial de Nª Sra. da Boavista, 2/9/2023.
Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ)
Data – 30 de março de 2023
Assunto - Agradecimento
A família de Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares (1947-2023),
proc. nº 19006217, na pessoa do seu marido, filhos, noras e netos, faz questão
de vir agradecer, por este meio, os quatro anos de cuidados de saúde que lhe foram
prestados, ao longo do processo de tratamento da sua doença, que teve agora o
seu desfecho trágico, em 24 de março último.
Queremos a agradecer a todos os profissionais da UAG de
Medicina, quer do Hospital de Dia quer do
Serviço de Hematologia Clínica e ainda do Serviço dos Cuidados Paliativos, médicos,
enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos auxiliares de ação médica, técnicos
administrativos e outros, onde a nossa
Ana beneficiou de elevados padrões de qualidade assistencial, não só ao nível
técnico como no plano do conforto e dignidade como pessoa.
Foi utente do Hospital de Dia desde março de 2019: todas as
semanas e por vezes mais do que duas vezes por semana, a nossa Ana recebeu transfusões
de sangue (hemoglobina e plaquetas), e fez também quimioterapia.
Esteve igualmente internada, na parte final da sua doença, no
Serviço de Hematologia Clínica, em dois períodos: de 2 a 10 de janeiro último,
e depois, desde 8 de fevereiro até à data da sua morte, em 24 de março. Recebeu
ainda cuidados paliativos na fase terminal, continuando no entanto internada no
Serviço de Hematologia Clínica.
A todos os profissionais de saúde que direta ou
indiretamente lidaram com a Ana e a ajudaram a manter-se viva e com a qualidade
de vida que foi possível, estamos muito reconhecidos e gratos. Sem a sua
competência, dedicação e empatia, a Ana teria sofrido muito mais, ela e toda a
família mais próxima. Particular destaque tem de ser dado ao hematologista dr.
Ricardo Pinto a quem ela chamava o seu “anjo da guarda”. Sabemos que, sem o seu
saber, carinho e entrega (quiçá com prejuízo até da sua vida pessoal e familiar),
a Ana já teria partido há muito.
Bem hajam, todos/as.
Boa saúde, bom trabalho. Queiram receber as minhas melhores
saudações
Vila Nova de Gaia > 20 de junho de 2019 > A Nitas, a tocar o cavaquinho, n dia do casamento do filho Tiago (aqui na foto, de costas, regendo o grupo musical que abrilhantou a festa) O Filipe aparece em segundo plano, a tocar viola. E o pai de ambos, o Gusto, é o segundo acordeão. O primo João (violino) aparece à esquerda, por detrás dos dois acordeãos.
Maia > ESMAI > 27/6/2017 > Com o coro e grupo de cavaquinhos da Casa do Pessoal do ISEP. A Nitas é a quarta, da primeira fila, a contar da esquerda.
Macedo de Cavaleiros > Podence > Casa do Careto > 11 de fevereiro de 2018
Lisboa > MAAT > 17 de junho de 2018 > Com o Gusto, frente ao estuário do rio Tejo, a ponte e o Cristo Rei
Fotos: álbum da família (com a devida vénia)
1. Palavras ditas pelo filho Tiago, 40 anos, na missa de corpo presente, dia 25 de março, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, reproduzidas aqui com a devida vénia (*):
Mãe,
De todos os dias da minha vida,
este era o que mais temia, e o que menos queria que chegasse. Metade de mim
partiu.
Levo comigo o teu sorriso daquele
último domingo enquanto brincavas com os teus netos.
Eras um abraço quentinho e sempre
aberto, um coração sem tamanho, onde cabiam na mesma medida todas as dores e
alegrias, as tuas e as de todos nós.
Eras toda emoção, de choro fácil,
mas de sorriso ainda mais. Eras pura em vontade de viver.
Tenho a certeza de que onde quer
que estejas, estás a olhar por nós, como sempre o fizeste e tão bem nos
ensinaste.
E tenho a certeza ainda maior de
que há nomes tão fortes que a morte só leva emprestado. Por isso havemos de
dançar, cantar, pintar, escrever, cozinhar, tocar ... enfim, havemos de criar!
Seja o que for, mas inspirados em ti e no sentimento que em nós deixaste
ganharás vida. E enquanto assim for nunca hás-de morrer!
2. Palavras do filho mais velho, Luís Filipe, 44 anos, na capela da Sra do Socorro, Paredes de Viadores, 25/3/2023, às 15h00 (reproduzidas aqui, com a devida vénia):
Antes de mais queria agradecer a todos a vossa presença aqui, isto significa muito para nós e significaria muito para ela também, pois a coisa que ela mais cultivou ao longo da vida foi a amizade.
Desde a última vez que falei para a maioria dos presentes, que foi no casamento do meu irmão, muitas coisas mudaram, mas a principal, é o facto de a minha mãe estar na primeira fila, sendo ela a protagonista.
Para mim a minha mãe, entre tantas, definia-se com estas palavras:
(i) Honestidade – Deverá ser, a par do meu pai, a pessoa mais honesta que conheci, tudo para ela era sobre fazer o bem e corretamente; devo-lhes isso, aos meus pais, e todos os dias faço o meu melhor para que se orgulhem de mim e o que me ensinaram não tenha sido em vão:
(ii) Sensibilidade – Não era sensível, era hípersensível, conseguia chorar em todos as situações, más ou boas, e em muitas delas sem razão aparente, mas a ironia tem destas coisas… e hoje aqui estamos …todos a chorar e ela não;
(iii) Gratidão - A primeira palavra que lhe saía da boca para qualquer coisa de bom que lhe acontecia era a palavra “Obrigada”. Mesmo quando era comigo que a situação era boa, ela obrigava-me a agradecer e não descansava enquanto não o fizesse (E aproveitando esta alavra em especial ela quereria neste momento, assim como nós, agradecer ao Dr. Ricardo Pinto o seu empenho, profissionalismo e amizade pela minha mãe e que fez com que prolongasse ao máximo da vida dela e, portanto, a nossa felicidade: não existem palavras uficientes para agradecer a ele e a todos os profissionais do Hospital de S. João que trataram com carinho e amor a minha mãe, portanto vou ser prático e dizer como a minha mãe me ensinou “Muito Obrigado”.)
(iv) Regateadora – Possivelmente uma das maiores regateadoras que o mundo já viu, conseguia os melhores descontos com uma técnica muito apurada… um misto de paciência e determinação e provavelmente sendo um pouco somítica; para tal comprovar, tenho uma história, era eu criança e fomos comprar umas sapatilhas para mim na Rua de Costa Cabral, entramos e saímos de todas as lojas para ver todos os preços e voltámos à primeira que tínhamos visitado; depois de experimentar e de pedir para as levar, pediu o inevitável descontinho, ao que o dono da loja disse que não podia de maneira nenhuma, porque até estavam com 40% de desconto em plena época de saldos; ela não cedeu e meia hora depois saímos com as sapatilhas na mão e com mais 20 escudos no bolso; portanto tinha valido a pena!!!
(v) Amor – Acima de tudo um amor incondicional aos irmãos, cunhados, sobrinhos, amigos, ao amor da vida dela de 50 anos, aos filhos, às noras e principalmente aos netos que foram no fundo a razão maior para ter lutado tanto tempo pela vida, pois queria acompanhar o máximo da vida deles.
Mãe, estas palavras são agora para ti, foste a melhor mãe do mundo, estou-te agradecido por tudo que fizeste por mim, o teu amor e o teu carinho, a tua sensibilidade e honestidade fizeram de mim o que sou hoje e apesar da tua aparente fragilidade foste a mais corajosa e lutadora de todos os que conheci. Amo-te muito! Sei o que querias para mim e espero estar à altura.
De todas duas palavras deixei duas últim para o fim e que nunca pensei dizer tão cedo: Adeus Mãe!"
Paredes de Viadores > 1957 > A Nitas, aos 10 anos, quando fez a primeira comunhão
Candoz: a Nitas aos 12 anos, quando cortou as tranças...
Paredes de Viadores > A Nitas e o Gusto em 1966,
por ocasião do casamento do irmão,
Manuel Ferreira Carneiro, com a Mi
Porto > 1984 > A Nitas e o Filipe, com a Zezinha,
no dia do casamento desta com o Eduardo.
Foi a primeira neta dos avós José Carneiro
e Maria Ferreira
Fotos de família (com a devida vénia).
1. Na hora da despedida da Terra da Alegria: homenagem à nossa querida Nitas, Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares (Candoz, 15 jan 1947 - Porto, 24 mar 2023) - Parte II (Maria José Barbosa, "Zezinha") (*)
Oração fúnebre dita na missa de corpo presente, na igreja do Padrão da Légua, Matosinhos, dia 25 de março de 2023, cerca das 11h00, pela Maria José Barbosa, a sobrinha Zezinha,
Texto de que a tia Nitas gostava muito e que me pediu para ler, na hora do último adeus:
Aos meus amores e aos meus amigos:
Ah!, por favor, não vos deixeis morrer!... Nos últimos anos que passaram, a morte levou tantos e alguns nem sequer se despediram de nós….
Mas eu não quero cometer a mesma ingratidão. Na hora da minha partida, faz-me um favor, chora o quanto quiseres, mas não te revoltes contra Deus por Ele me ter levado.
Se não quiseres chorar, não chores, se não conseguires chorar, não te preocupes, e até se tiveres vontade de rir, ri-te do absurdo e da injustiça que é, muitas vezes, a vida e a morte, para os não crentes e até para os crentes. Olha, vê o meu sofrimento ao longo destas quatro anos de doença…
Se alguns dos meus amigos e conhecidos te contarem algum facto a meu respeito, ouve e depois acrescenta a tua versão; se me elogiarem demais, corrige o exagero; se me criticarem demais, defende-me.
A vida inteira eu tentei ser boa e amiga de todos, o que não quer dizer que eu não tivesse também os meus pecados. Por favor, não me santifiques nem me diabolizes.
Sendo crente e cristã, não quero que falem mais de mim do que de Jesus Cristo, se quiseres falar com Ele, fala que eu ouvirei, eu espero estar com Ele, a partir de agora, e poder interceder por todos vós, meus amores e meus amigos, que ainda ficaram na Terra.
E se tu tiveres vontade de escrever algo sobre mim, diz apenas uma frase: “Foi minha amiga, acreditou em mim”. Ou “Foi a companheira da minha vida”; ou “Foi a minha querida minha mãe, nora, avó, irmã, cunhada, tia, etc”…
Então podes derramar uma lágrima, não fará mal, eu não estarei lá para enxugá-la, mas outros familiares e amigos estarão, e farão o mesmo no meu lugar. E, vendo-me bem substituída, irei cuidar da minha nova tarefa lá no Céu.
De vez em quando espreita lá para cima, para o céu estrelado, eu estarei por lá, nalguma estrelinha, e ficarei muito feliz vendo-te a olhar para o firmamento, quiçá à procura de Deus ou de resposta para as tuas perguntas sobre o sentido da vida e da morte. E, quando chegar a tua vez de deixares esta Terra que também foi a da nossa alegria, que nenhuma barreira nos separe, vamos continuar a celebrar o amor e a amizade.
Há quem, de entre vocês, não acredite nestas coisas. Se tu acreditas, então reza, como quem sabe que vai morrer um dia, e que, ao morrer, sabe que viveu uma vida que valeu a pena.
Ter tido o privilégio do vosso amor e da vossa amizade já foi ter tido um pedacinho do Céu. Na hora da partida da Terra da Alegria, consola-me ter sabido que muito amei e que fiz muitos e bons amigos.
Até sempre, meus amores e meus amigos. A vossa Nitas.
(Revisão e fixação de texto: Luís Graça... Texto lido pela Maria José Barbosa, a Zezinha, nascida em 1963)
Ana Ferreira Carneiro, a nossa querida Nitas, na sua casa da Madalena, Vila Nova de Gaia, em 19/6/2019, no dia do casamento do filho mais novo, o Tiago, mas já com o diagnóstico da doença, a mielodisplasia, quatro anos depois, iria estar na origem da sua morte. Deu-nos um extraoridnário exemplo de abnegação, resistência, vontade de viver, amizade e amor,
Porto > Praça do Marquès > Igreja Senhora da Conceição >
6 de abril de 1974 >Casamento da Nitas e do Gusto
Porto >12 de agosto de 1979 > O Gusto e a Nitas:
batizado do primeiro filho, o Luís Filipe...
Fotos do álbum da família (com a devida vénia)
1. A Quinta de Candoz e a nossa família ficaram mais pobres, a partir de anteontem, com a morte da "Nitas"... De seu nome completo de casada, Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares (Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, 15/1/1947 - Porto, 24/3/2023)
A engenheira Ana Carneiro, carinhosamente conhecida por "Nitas", formou-se em 1973 (no antigo Instituto Industrial do Porto) e trabalhou desde então, e durante quase quatro décadas (até 2010), no ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto, no departamento de Engenharia Química, Laboratório de Tecnologia Química.
Era irmã dos outros 3 sócios da Quinta de Candoz, Rosa, Alice e Zé. A segunda mais nova dos filhos do José Carneiro e da Maria Ferreira, era ainda irmã do Tó e do Manel.
Fez parte, já reformada, de vários grupos musicais (coros e cavaquinhos). Outro dos seus hobbies era a jardinagem.
Era casada com o Augusto Pinto Soares, "Gusto", economista, e gestor, reformado (coeditor do nosso blogue e o homem dos 7 sete ofícios da Quinta de Candoz).
Deixa dois filhos, Tiago, médico, e Filipe, inspetor tributário. E ainda dois netos, que muito a ajudaram a viver e a ter esperança: a Carolina (filha da Susana e do Filipe) e o João (filho da Sofia e do Tiago). Morava na Madalena, Vila Nova de Gaia.
As cerimónias fúnebres realizaram-se em dois locais:
(i) igreja do Padrão da Légua, São Mamede de Infesta, Matosinhos, com velório a partir das 18h00 do dia 24 de março, sexta-feira, e missa de corpo presente às 10h00, no sábado, dia 25;
(ii) seguindo depois o féretro para a sua terra natal, que ela tanto amava; o corpo desceu à terra por volta das 15h00, no cemitério da freguesia de Paredes de Viadores, Marco de Canaveses.
Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Festa da família Ferreira > 7 de setembro de 2013 > Juntou mais de 100 pessoas. A festa realiza-se desde meados dos anos 80 do séc. XX. A última tinha sido em 2011.
Neste vídeo mostra-se a exibição de um grupo de mulheres da família que cantam lindamente os tradicionais cantaréus da região do Douro Litoral (que só podem ou devem ser cantados pelas mulheres, nas vindimas, e estão hoje praticamente extintos, o termo aliás nem sequer está, lamentavelmente, grafado no Dicionário Periberam da Língua Portuguesa): Nitas, Mi, São (mulher do nosso violinista Júlio Veira Marques)... e Dolores Carneiro... A Nitas está de óculos escuros e xaile tradicional, e irradia uma fantástica energia. Ela adorava cantar e aprendeu a tocar cavaquinho, já depois de reformada.
2. Oração fúnebre dita na missa de corpo presente, na igreja do Padrão da Légua, Matosinhos, dia 25 de março de 2023, cerca das 11h00 (**):
Querida Nitas:
Hoje há lágrimas e suspiros. Hoje é o dia mais triste das nossas vidas. Agora que partiste para a tua última viagem, aquela que não tem retorno, há um nó na garganta que nos sufoca e não nos deixa dizer tudo o que nos vai na alma.
Sabes, na hora da morte dos que nos são queridos, as palavras de pouco nos servem de consolo. Escrevi-te tantos sonetos, quadras e outros textos poéticos, ao longo da tua vida, por ocasião dos teus aniversários e em outros momentos felizes que passámos juntos no seio das nossas famílias… Mas ficou, afinal, tanto por te dizer e partilhar contigo!...
Contra toda a evidência médica, fomos resistindo à ideia de te perder e fomos sempre alimentando a luzinha que, embora muito trémula, ainda era visível ao fundo do túnel, há uns meses atrás. Mas tu sabias que a vida te estava a escapar… não obstante a dedicação e a competência dos “anjos”, que no Hospital de São João, cuidaram de ti, a começar pelo teu hematologista, dr. Ricardo Pinto.
Recordo o que me escreveste, há um ano, agradecendo as palavras que eu te mandei, em meu nome e da tua mana Alice, por ocasião dos teus 75 anos. “Querido Luís: Quando partirmos para o outro lado do rio de Caronte, como tu dizes, o que fica para a posteridade, é o que tu escreves agora para nós… Tantas e tão lindas recordações. De nós pouco fica… Obrigada mais uma vez, a todos, por todo o carinho que recebo.” (Fim de citação).
Não, Nitas, de ti fica muito. Antes de mais, fica, em nós, uma saudade imensa. De ti, fica o teu sorriso luminoso, a tua grande bondade, a contagiante alegria de viver, a tua beleza interior, a tua gentileza, a tua fotogenia, o carinho com que tratavas as tuas plantas e flores na Madalena e em Candoz, o prazer com que ias para o coro e o cavaquinho, o orgulho, a ternura e o amor que tinhas pelo teu marido, Gusto, e pelos teus filhos Luís Filipe e José Tiago, o desvelo e o carinho que manifestavas pelos teus netos, e as tuas noras e a tua grande família: manos, cunhados, sobrinhos, etc.
Fica o exemplo extraordinário de abnegação e de resistência que deste ao longo de quatro anos de luta contra uma doença crónica degenerativa, cruel, irreversível, incurável, injusta. Tu não merecias este desfecho.
E fica o teu Gusto, sempre discreto mas eficiente e presente, sempre a teu lado, nos piores e melhores momentos, o Gusto, o teu grande companheiro de jornada, de estrada, o grande amor da tua vida. Fica o seu exemplo, para todos nós, de um extraordinário cuidador. Sem um ai, sem um ui, escudando-se muitas vezes na sombra, fora das luzes da ribalta, sem procurar protagonismo. Porque ele sabia que tu farias exatamente o mesmo por ele. Essa, sim, é uma grande prova de amor.
Fica ainda o exemplo do resto da tua família, que esteve sempre a teu lado, que soube ser carinhosa, fraterna e solidária na grande provação que foi a tua doença. Sem esquecer os teus bons amigos e antigos colegas, do ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto e dos grupos do coro e do cavaquinho…
Na tua morte, querida Nitas, todos morremos um pouco contigo. Falo em meu nome, em nome dos meus e dos teus, e de todos os demais que muito te amaram e que te vão recordar pela vida fora. Prometemos nunca te esquecer enquanto ainda tivermos do lado de cá do rio. Também já temos a moeda para dar ao barqueiro Caronte que nos há de levar ao teu encontro, na outra margem. Até lá vamos falando contigo, mesmo por entre lágrimas e suspiros.
Recusamos dizer-te adeus, até sempre. Apenas, adeus, até um dia destes, querida Nitas!
Lourinhã > Praia da Areia Branca > Restaurante Foz >
1 de janeiro de 2020 > O Gusto não gosta, isso sim, é de ser fotografado
Soneto de bom viver para o Gusto
que é do signo do Peixe,
nasceu há 73 anos, às quatro da tarde
e, dizem (mas é mentira...), não gosta de fazer anos…
Gusto, é bom estar vivo entre os que nos amam, E os setenta e três anos poder celebrar. Mesmo com as mazelas todas que nos tramam, Há ainda muita estrada para andar.
Primeiro foi o encanto, os teus amores, A tua Nitas, companheira de uma vida, Depois os filhos, o crescimento, as dores, E agora tens uma neta, tão querida.
Mas tu páras, escutas e olhas p’ra trás: “Que fiz eu de bom para a humanidade ?”, Sim, foste um bom homem, pai, e melhor rapaz.
Tu que és pisciano, nascido às quatro da tarde, Tens um horóscopo de alta qualidade, E uma vela tipo Duracell…que arde e arde!
Parabéns da malta toda que te ama! A vida é bela!
Porto, HF Ipanema Park, Bar Twin Trees, 1 de março de 2020
Lisboa > MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecologia > 17 de junho de 2018 > A Nita e o Gusto, frente ao Tejo, a ponte 25 de abril e o Cristo.Rei, em Almada, na margem esquerda
Lisboa > Estuário do rio Tejo > 17 de junho de 2018 > Uma fragata com o sugestivo nome "Sejas Feliz"... A Alice, eu, o Gusto e a Nitas tínhamos acabado de chegar de um cruzeiro pelo Mediterrâneo... Foto tirada do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia.
PS - Para o Tio Gusto, o nosso grande especialista em matéria de vinhas e vinho, aqui fica este apontamento curioso sobre as Azenhas do Mar, terra e mar onde se cultiva, incrível, um vinho que é único, o Colares!...
(...) O desenvolvimento das Azenhas como estância balnear ocorreu em meados dos 30, quando a 31 de Janeiro de 1930, foi inaugurada a linha do Eléctrico do Banzão até às Azenhas do Mar. Segundo a tradição local, inauguração esteve envolvida em grande festa, com um dos homens amantes da terra, o "Tota", a colocar o chafariz do Arcão a deitar o famoso "Vinho de Colares".
Para a produção do Vinho de Colares, cultivam-se nas Azenhas as uvas "Ramisco", que eram plantadas em covas no solo de areia (para fazer os buracos, os agricultores protegiam-se com cestas de vime em torno do buraco, não fosse uma derrocada tirar a vida a alguém), para chegar ao barro húmido, covas que chegavam a ter 10 e mais metros de profundidade, e era ai que colocavam os bacelos para que dentro de anos começassem a brotar à superfície, chegando esta fase teríamos que esperar mais uns bons 6 a 7 anos, guiando com carinho a vinha rente à areia para que o calor da mesma acelerasse a maturação das uvas, em vinhas viradas ao mar, em pequenas parcelas de muros de pedra solta. (...)
Para quem quiser saber mais o vinho de Colares ( o mais caro do país...), leia aqui este artigo do Público > Colares, a teoria de Darwin aplicada ao vinho
Por Pedro Garcias 02.08.2014
Economista e gestor de empresas, reformado...Vive no Porto. Agricultor, às quartas e sábados... Em Candoz, é o homem dos sete ofícios agrónomo, enxertador, podador, tractorista, viticultor, enólogo, contabilista... A única coisa que ele detesta no campo é a enxada.