Estive a reler esta noite o que te escreveram na hora da despedida. E que está registado aqui, no blogue "A Nossa Quinta de Candoz".
Estive a reler as palavras lindas, molhadas mas quentes, que te dirigiram. E sobretudo o teu testamento, lido pela Zezinha, como oração fúnebre dita na missa de corpo presente, na igreja do Padrão da Légua, Matosinhos, dia 25 de março de 2023. E emocionei-me até às lágrimas, eu que teimo em falar contigo, porque sei que me estás a "ouvir".
Releio essa oração fúnebre que tu em vida preparaste para nos consolar quando chegasse a hora, dolorosa, da tua partida. Era dirigida a todos e a cada um dos que te amavam, a começar pelo teu Gusto, os teus filhos, os teus netos, as tuas noras, os teus manos e os teus amigos mais íntimos:
(...) "De vez em quando espreita lá para cima, para o céu estrelado, eu estarei por lá, nalguma estrelinha, e ficarei muito feliz vendo-te a olhar para o firmamento, quiçá à procura de Deus ou de resposta para as tuas perguntas sobre o sentido da vida e da morte. E, quando chegar a tua vez de deixares esta Terra que também foi a da nossa alegria, que nenhuma barreira nos separe, vamos continuar a celebrar o amor e a amizade.
Há quem, de entre vocês, não acredite nestas coisas. Se tu acreditas, então reza, como quem sabe que vai morrer um dia, e que, ao morrer, sabe que viveu uma vida que valeu a pena.
Ter tido o privilégio do vosso amor e da vossa amizade já foi ter tido um pedacinho do Céu. Na hora da partida da Terra da Alegria, consola-me ter sabido que muito amei e que muitos e bons amigos fiz.
Até sempre, meus amores e meus amigos. A vossa Nita". (...)
Maninha, ao fim de 3 anos, 1096 dias, sinto, às vezes (fraqueza minha!) que a tua estrelinha está tão longe. Ou cada vez mais longe. Mas eu quero, todos nós queremos, que tu fiques sempre perto de nós. Vemos a tua estrelinha ou imaginamo-la. Precisamos de nos agarrar a esta imagem etérea para manter o contacto contigo.
Há coisas que escapam à nossa razão, e que são do coração. Tu eras crente e cristã. E ainda bem que, apesar do teu grande sofrimento físico, pudeste fazer as pazes com a terra onde fizeste tantas coisas lindas mas que também foi, nos teus últimos quatro anos, um vale de sofrimento e de lágrimas. E, mesmo assim, foste um exemplo de coragem, tenacidade, esperança, humildade e humanidade, para todos nós.
Quero que saibas que continuamos a falar contigo, aqueles de nós que te amamos e que nunca te esquecerão.
Nesta Páscoa voltamos a sentir ainda mais a tua ausência (que, apesar de tudo, será apenas física). Vou para cima, direta a Candoz. Irei visitar-te ao cemitério da nossa freguesia. Irei rezar por ti, à minha maneira. Irei falar contigo, ao meu jeito. Irei rever-te nas nossas cerdeiras em flor. Nas nossas videiras. Nos nossos muros e socalcos. Nas nossas conversas debaixo das laranjeiras. Na nossa casa. No nosso jardim. Nas nossas comidinhas. Nas limpezas, da Semana Santa, ao nosso casarão.
Ah!, tanta falta me fazes (e eu a ti!) nesta e noutras ocasiões de grande freima!... Como a gente se entendia, tão bem, as duas!... Como se fôssemos irmãs gémeas. Na realidade éramos irmãs gémeas de alma e coração. Podíamos estar, as duas, horas e horas a fio na conversa como se tivéssemos a eternidade à nossa frente. À lareira, à mesa, à volta dos tachos, no jardim, no campo. Ou até no cemitério quando íamos pôr flores na campa dos nossos pais.
Estarás sempre presente nas minhas memórias da nossa infância, juventude e idade adulta. Estarás sempre presente na nossa alegria comum como manas, mulheres, mães e avós. Não, nunca te direi até sempre. Mas apenas, até logo, querida maninha.
Tua Chita.




