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24 abril 2012

O nosso saudoso Luís Henriques (1920-2012), um amigo de Candoz


Lourinhã > Abril de 1999 > Luís Henriques (1920-2012) e Maria da Graça (n- 1922)


1. Texto de Luís Graça, publicado no jornal Alvorada, [Lourinhã,] nº 1103, 20 de abril de 2012, p. 26

Morreu o Luís Sapateiro (1920-2012), uma figura muita popular e querida da nossa terra 





Luís Henriques, mais conhecido por Luís Sapateiro, nasceu na Lourinhã em 1920. Homem de fé, morreu no passado domingo de Páscoa, dia 8, na Atalaia, no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, onde vivia desde 2008 com a esposa, Maria da Graça. 

 Filho de Domingos Henriques e de Alvarina de Sousa, ficou órfão de mãe, aos dois anos. Viveu nos primeiros anos de infância com a nova família do pai, que casou pela terceira vez. Ao todo teve uma dúzia de irmãos. Depois de feita a 4ª classe, o seu primeiro emprego foi como marçano na loja do fotógrafo e comerciante Manuel Lourenço da Luz, pai do fotógrafo António José da Luz (Foto Luz).

Aos 13 anos, terá uma nova família de acolhimento, a do seu tio materno, Francisco de Sousa (Fofa), músico e industrial de sapataria. Aprende o ofício de sapateiro. Aos 20 anos assenta praça nas Caldas da Rainha. Entre julho de 1941 e setembro de 1943, esteve como expedicionário na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A saudade da terra era mitigada pela presença de diversos lourinhanenses que pertenciam à mesma unidade. Do Mindelo escreve à sua namorada, futura noiva e esposa: Maria, minha cachopa,/ Não me sais do pensamento, / Tão logo saia da tropa, /Trataremos do casamento

De regresso à Lourinhã, faz sociedade com o seu irmão Domingos Severino. Abrem a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda. Casa, entretanto, em 1946. A 29 de janeiro de 1947 nasce o seu primeiro filho, Luís. Até 1964, terá ainda mais três raparigas: Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel. 

Atleta amador, joga futebol e é treinador das camadas juvenis, ao mesmo tempo que participa na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o Sporting Clube Lourinhanense (SCL) até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia e ainda as irmandades de N. Sra dos Anjos e de São Sebastião. Quando morreu, era de há muito o sócio nº 1 do SCL, coletividade que de resto sempre o acarinhou e o homenageou, tanto em vida como na morte.

Era um bom lourinhanense, muito querido e estimado por toda a gente. Espirituoso, bem humorado, com jeito para o improviso poético, definia assim a sua terra: Lourinhã, uma vila catita, / Bonita, sem vaidade,/ tem montras como uma cidade, / Mas também ninguém nos engana: / Ao fim de semana, / Sem sol, sem bola e sem missa, / É uma terra de preguiça… 



Trabalhador por conta própria, deu trabalho a muitos sapateiros. O seu negócio teve altos e baixos. Ainda está na memória de muita gente o local da sua última oficina, na Praça Coronel António Maria Batista, nº 9. Daí também o seu desabafo, sob a forma de parlenda popular: À segunda feira [o tradicional dia de descanso dos sapateiros] , o trabalho abunda; à terça, dor de cabeça; à quarta, trabalho à farta; à quinta, dança a pelintra; à sexta, o patrão é uma besta; ao sábado, o patrão arreliado… passa-se para o outro lado! 


Foi, além disso, um bom pai e um avô carinhoso. Tinha 12 netos e 5 bisnetos. Viveu pobre e morreu pobre, mas com dignidade, vítima de doença prolongada. Escreveu um diário (cerca de 500 páginas manuscritas) entre 2008 e 2011.

Os seus familiares e amigos mais próximos lembrá-lo-ão sempre como um homem simples mas único, que irradiava alegria de viver e boa disposição. Não deixa “obra feita”, como sói dizer-se. Mas o seu exemplo de generosidade, bondade e otimismo perdura para além da morte. Para os seus filhos, netos e bisnetos, foi um privilégio tê-lo como pai e avô. Para eles, foi e será sempre o melhor pai e avô do mundo.

Uma palavra muito especial de agradecimento é devida à direção do SCL e ao pessoal do Lar e Centro de Dia de N. Sra. da Guia, na Atalaia, bem como ao médico dr.Rui Martins. Mas também aos seus parentes, amigos, conterrâneos e vizinhos que se interessaram pelo seu estado de saúde e que o acompanharam até à sua última morada na terra, incluindo os elementos do Coro Municipal da Lourinhã, Rui Mateus, Moura, Quim Zé e Ana Mateus que no cemitério cantaram para ele a famosa e sublime canção alpina Signore delle cime (do italiano Giuseppe de Marzi, 1958). 

Texto e foto: Luís Graça.

16 abril 2012

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte III)

Luis Henriques (19.8.1920-8.4.2012)  > Praia da Areia Branca, esplanada do Bar dos Cinco Paus > 17 de março de 2012 > A sua despedida do mar azul,com as Berlengas ao fundo, que ele tanto amava... 

(Continuação)

Era um bom lourinhanense, muito querido e estimado por toda a gente. Espirituoso, bem humorado, com jeito para o improviso poético, definia assim a sua terra: 


Lourinhã, uma vila catita, 
Bonita, sem vaidade,
Tem montras como uma cidade, 
Mas também ninguém nos engana: 
Ao fim de semana, 
Sem sol, sem bola e sem missa, 
É uma terra de preguiça… 

Ou noutra variante: 

Lourinhã tem três entradas, 
Três saídas, 
Três igrejas, 
Três ermidas,
Três  moinhos de vento 
 E ladrões em todo o tempo.

Era um homem de palavra e de palavras, que nunca usou como arma de arremesso contra ninguém. Talvez por essa razão não tinha inimigos conhecidos: 

Palavra fora da boca 
É pedra fora da mão, 
Tu pensa bem as palavras 
E tira-as do teu coração.

Trabalhador por conta própria, deu trabalho a muita gente, numa época em que o emprego era escasso e mal remunerado… Muitos deles, os que ainda estão no meio dos vivos, falam dele como um patrão que dava camisa ao seu empregado... Ao fim da semana, podia não haver dinheiro em casa, mas não falhava a semanada do seu pessoal...


Tinha, por outro lado,  inúmeros clientes, quer da vila, quer das aldeias mais a norte do concelho (do Sobral a São Bartolomeu) e até fora do concelho (Bufarda, por exemplo). Terá percorrido, na sua vida, muitas dezenas de milhares de quilómetros, de bicicleta, levando e trazendo calçado dos seus “fregueses”, que muito o estimavam. 

O seu negócio teve altos e baixos, e conheceu várias sociedades e vários locais. A última e a mais conhecida das suas oficinas foi na Praça Coronel António Maria Batista, nº 9 (junto ao beco quer liga à Rua João Silva Marques). Daí também o seu desabafo, sob a forma de parlenda popular: 

À segunda [o tradicional dia de descanso dos sapateiros] , o trabalho abunda; 
à terça, dor de cabeça;
 à quarta, trabalho à farta; 
à quinta, dança a pelintra; 
à sexta, o patrão é uma besta; 
ao sábado, o patrão arreliado… passa-se para o outro lado! 

Foi, além disso, um bom pai e um avô carinhoso. Tinha orgulho nos seus filhos, netos e bisnetos, os quais, por sua vez, tiveram a rara felicidade de estarem junto dele na hora, difícil, da sua partida deste mundo. Viveu pobre e morreu pobre.  A maior riqueza que lhes deixa são os valores por que norteou a sua vida, o seu sorriso, a sua bondade, o seu exemplo de  trabalhador honesto e incansável, enfim, a sua alegria de viver que contagiava tudo e todos.


Foto à esquerda, acima: Lourinhã > Abril de 1991 > Luís Henriques (1920-2012) e a sua companheira de toda uma vida, Maria da Graça (n. 1922)

Morreu com dignidade, vítima de doença prolongada. Viveu os seus últimos quatro anos no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, na Atalaia, onde encontrou uma segunda família. 


Em 30/10/2008 escrevia no seu diário: “(…) nesta nova família que nos arranjaram, fico triste pelos que se encontram piores do que eu. Não tenho culpa de ter nascido assim. Por tudo isto, sou feliz, embora pobre, mas alegre, e gosto de conviver com todos. É esta a minha política: esquecer as minhas dores lembrando dos que se encontram bem piores do que eu (…)”.

Os seus familiares e amigos mais próximos lembrá-lo-ão sempre como uma homem simples mas único que irradiava alegria de viver e boa disposição à sua volta.

Uma palavra muito especial de agradecimento é devida à direção do SCL e ao Lar e Centro de Dia da Atalaia (na pessoa da sua diretora técnica dra. Ana Caetano, do médico dr. Rui Martins e dos demais profissionais que cuidaram do meu pai, até à sua morte, com uma inexcedível competência, dedicação e humanidade). Mas também aos seus parentes, amigos, conterrâneos e vizinhos que se interessaram pelo seu estado de saúde e que o acompanharam até à sua última morada na terra. 


Por fim, um xicoração muito especial aos elementos do Coro Municipal da Lourinhã, Rui Mateus, Moura, Quim Zé e Ana Mateus que no cemitério cantaram para ele e para todos nós a famosa e sublime canção alpina “Signore delle cime”, composta em 1958 pelo italiano Giuseppe de Marzi: 

Dio del cielo, Signore delle cime,
Un nostro amico hai chiesto alla montagna. 
Ma ti preghiamo, ma ti preghiamo: 
Su nel Paradiso, sul nel Paradiso lascialo andare per le tue montagne…

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte II)




Lourinhã > Vídeo feito em 19 de agosto de 2010, no 90º aniversário > Luis Henriques, nascido na Lourinhã, em 19 de Agosto de 1920, filho de Domingos Henriques e Alvarina de Jesus. Casado com Maria da Graça, 88 anos. Foi expedicionário em Cabo Verde (Mindelo, 1941/43). 

Órfão de mãe aos dois anos, foi criado por um tio, sapateiro e músico (Francisco, Fôfa). Começou a trabalhar aos 9 anos, como caxeiro, na loja do fotógrafo da terra (e o primeiro da Praia da Areia Branca, no final dos anos 20). Aos 13, aprendeu o ofício do tio. Fez a tropa, no RI 5, foi mobilizado para Cabo Verde. Regressou à vida civil em Setembro de 1943. Casou em 2 de Fevereiro de 1946, com Maria da Graça, natural de Nadrupe (e que como muitas outras raparigas camponesas, do seu tempo, foi criada de servir em Lisboa, até casar). 

Estabeleceu-se por conta própria depois da tropa, os negócios conheceram altos e baixos. O futebol foi sempre a sua paixão, primeiro como jogador e depois como treinador (nomeadamente das camadas juvenis e júniores). É o sócio nº 1 do Sporting Club Lourinhanense. O Ti Luis Sapatêro  é uma das figuras mais populares e queridas da sua terra. Tem 4 filhos: Luís, Graciete, Maria do Rosário, e Ana Isabel. Tem 12 netos e 4 bisnetos. Vive hoje, com a esposa, no Lar Nossa Senhora da Guia, Atalaia, Lourinhã. Ainda escreve o seu diário... e lê (jornais e romances).

Vídeo (10'  50''): ©    Luís Graça (2010). Alojado em You Tube > Nhabijoes 

(Continuação)


Aos 20 anos assenta praça no Regimento de Infantaria nº 5, Caldas da Rainha. Em 1941 parte para Cabo Verde, como expedicionário, com o posto de 1º Cabo Inf da 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5. Tinha memórias muito vivas (incluindo registos fotográficos) dos difíceis tempos que passou no Mindelo, Ilha de São Vicente (26 meses, entre julho de 1941 e setembro de 1943; nos últimos 4 meses esteve hospitalizado, por problemas pulmonares, entre maio e agosto de 1943).
A saudade da terra era mitigada pela presença de diversos lourinhanenses, o Caixaria, o Boaventura Horta, o Jaime Filipe, o Leonardo, e outros - naturais da vila, da Atalaia, da Serra do Calvo... - que pertenciam à mesma unidade (RI 23, constituído na Ilha de São Vicente, 1941/44).

 Numa época de elevado analfabetismo, sacrificava os seus tempos livres escrevendo dezenas de cartas por semana em nome de muitos dos seus camaradas. Aos 91 anos ainda se lembrava dos números de tropa (!) de alguns dos seus camaradas, e até das moradas (!) para onde enviava as cartas. 

Em nome do Fortunato Borda d'Água, do Cercal, Azambuja, por exemplo, chegava a escrever 22 cartas por semana... O Fortunato tinha duas namoradas, "uma que chorava ao pé da mãe dele, e outra que se ria, em plena rua"... O meu pai um dia teve que o ajudar a decidir-se:
- Ó Fortunato, afinal de quem é que tu gostas mais ? Com queres casar ? Da que se ri, na rua, ou da que chora no ombro da tua mãe ?...
- Ó Luís, claro que é da que chora...


  A seca e a fome que assolaram Cabo Verde nessa época, e que fizeram dezenas de milhares de mortos, tiveram impacto na sua consciência de bom português e bom cristão. O seu "impedido", o Joãozinho, que ele alimentava com as suas próprias sobras do rancho, também ele morreu, de fome e de doença, em meados de 1943. Comove-se ao dizer-me que deu à família do miúdo todo o dinheiro que tinha em seu poder (c. de 16$00) - na altura, estava hospitalizado -, para ajudá-la nas despesas do enterro. Lembro-me de ele me dizer que um cabo ganhava na época qualquer coisa como 130$00 por mês... De volta à metrópole, não terá mais do que 200$00 ou 300$00 no bolso. Para ele o dinheiro nunca foi fêmea...

Do Mindelo escreve à sua namorada, futura noiva e esposa: 


Maria, minha cachopa,
Não me sais do pensamento,  
Tão logo saia da tropa, 
Trataremos do casamento… 

De regresso à Lourinhã, em setembro de 1943, vinha cheio de saudades… de comer uvas. Faz sociedade, durante mais de 10 anos, com o seu irmão Domingos Severino. Abrem a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda. Chegam a ter bastantes empregados. Na época ainda não havia produção industrial de calçado. 

Casa, entretanto, em 2 de fevereiro de 1946 com a Maria da Graça, natural do Nadrupe, criada de servir de senhores e senhoras de Lisboa, da Praia e da Lourinhã, desde tenra idade [Foto à esquerda, acima].

A 29 de janeiro de 1947 nasci eu. Até 1964, terá ainda mais três raparigas: Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel. [Foto à direita, eu e a Graciete, por volta de 1953].

Continua a jogar futebol, como atleta amador, e ao mesmo tempo participa na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o SCL - Sporting Club Lourinhanense,   até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia. É mordomo de festas (como a da Sra dos Anjos e de São Sebastião). 


Quando morreu, era de há muito o sócio nº 1 do SCL, coletividade que de resto sempre o acarinhou e o homenageou, tanto em vida como na morte.

(Continua)






Luís Henriques (1920-2012) é mobilizado  para Cabo Verde. 1º Cabo Inf, nº 188/41, 1º Pelotão, 3ª Companhia, 1º Batalhão, Regimento de Infantaria nº 5 (Caldas da Rainha). Esteve no Mindelo, S. Vicente,  entre Julho de 1941 e Setembro de 1943. Neste episódio, conta como foi de táxi da Lourinhã para Lisboa, em estrada de macadame (70 km), com mais camaradas, chegando atrasado à formatura para o embarque, em 15/7/41... Ouve, pela última vez, a caminho do Cais da Rocha Conde de Óbidos, a voz da sua amiga Fernandinha, que conhecera na Praia da Areia Branca... Quando  voltou, 26 meses depois, procurou-a e soube da triste notícia...da sua morte.

Vídeo (4'  14''):  ©  Luís Graça (2009). Alojado em You Tube > Nhabijoes