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10 abril 2026

In Memoriam: A Dona Olinda (1935-2026) deixou-nos, aos 90 anos

 


Olinda Alves da Silva  
(14 de julho de 1935 - 8 de abril de 2026)




Quinta de Candoz > 15 de setembro de 2024 > Brindando aos 76 anos  do nosso mano Zé Carneiro, aqui com a Teresa e Dona Olinda.



 In memoriam



A Dona Olinda morreu. E não morreu.

Como dizem os poetas, não morreu, despediu-se apenas da Terra da Alegria.

Não morreu, porque fica connosco no recanto mais íntimo do nosso Jardim das Memórias.

Não morreu porque deixa, no seio da nossa família mais alargada e da comunidade onde vivia, uma extremosa e dedicada filha, a Teresa, e um neto, o Luís, que ela tratou como se fosse um filho, rapaz, único,  muito querido e amado, sem esquecer o Zé, o genro, que, além de homem da casa e gestor do património, foi um cuidador, inexcedível em humanidade, generosidade e delicadeza, tratando dela como se fosse sua mãe ou irmã mais velha...

Enfim, deixa ainda na terra duas primas, e muitos e bons amigos, a começar pela comunidade cristã do Padrão da Légua.

Foi uma grande senhora. Uma mulher de forte personalidade. Um matriarca. Uma mulher do Norte, filha de grandes lavradores das Bouças (o concelho passou a chamar-se Matosinhos só em 1909, 26 anos antes dela nascer). 

Mas também prendada, com mãos de fada, imbatíval nos arranjos de flores, na decoração da casa, na pastelaria e na cozinha.  E sobretudo, tinha "o dom do dom", ou seja, a arte, o engenho e a graça de saber dar e receber.

Guardamos dela, eu e a Alice, as melhores recordações. Esteve sempre presente, ela, a Teresa e o Zé, na nossa família, em Candoz, nos bons e maus momentos das nossas vidas. Na alegria e na tristeza. 

E é essa justamente a medida da amizade.

Recordo há 3 anos a morte da nossa querida Nita e, mais recentemente, do nosso cunhado Quim, o Joaquim Barbosa, marido da Rosa. A ambos, à Olinda e ao Quim, tem uma dívida de gratidão a paróquia do Padrão da Légua. 

Não privei com a Dona Olinda tanto quanto gostaria. Mas gostava de falar com ela, da sua história de vida, das memórias da sua infância, da mãe, dos avós e  dos tios, do seu casamento... E ainda do tempo em que Matosinhos eram... as "Bouças", às portas do Porto,  as grandes quintas, a pesca, as fábricas de conservas...

Ficara viúva do sr. Mesquita, pai da Teresa e avô do Luís, há quase três décadas. Ainda o conheci, babado pelo neto. "Bon vivant", afável. 

A Olinda, a Dona Olinda, lalava com ternura e saudade do seu tempo de menina e moça, apesar de ter perdido o pai, ainda na barriga da mãe. Mãe que sempre foi, para ela, uma santa, recorda a "empregada", com já mais  3 décadas de serviço, dedicação e fidelidade á casa, à Dona Olinda ("a minha segunda mãe", confidencia-me ela, que ficou a herdeira de muitos segredos da patroa, a começar pelas "receitas culinárias, que estão todas aqui, na cabeça")...

É, quando os amigos morrem, que nos damos conta da perda irreparável que a morte de alguém muito querido representa para nós. Perda de memórias, de histórias, de afetos. E mas também de saberes e conhecimentos. Cada ser humano é único e irrepetível.

Faremos, por certo, em momento mais oportuno, um nova celebração que nos ajude a mitigar a saudade e a fazer o luto. Uma celebração também à volta da mesa onde todos ganhamos o estatuto de companheiros (palavra que vem do latim cum + pane, os que comem o mesmo pão à mesa).

A Dona Olinda foi também uma bela companheira que gostava das coisas boas da vida e do convívio à volta de uma mesa alegre e farta. 

Foi, por fim, também um grande exemplo, para todos nós, de dignidade, de tenacidade, de coragem e de resiliência na vida, na dor, na doença e na morte.

É inconsolável a sua perda, e nomeadamente para os nossos queridos amigos Teresa e Luís, filha e neto, e para o nosso mano Zé, a sua família mais chegada. 

Mas saibamos merecer a honra que ela nos deu por ter existido e convivido connosco.

Até sempre, Dona Olinda! E que descanse na paz do Senhor!

Alice, Luís e demais família de Candoz.


Padrão da Légua, 9 de abril de 2026


24 março 2026

Três anos. 1096 dias. De saudade


A Nita, no casamento do Tiago, 20 de junho de 2019. 
Foto: LG


Querida mana, que estás no céu ou naquela estrelinha que tu elegeste como tua na hora da despedida:

Três anos. 1096 dias. De saudade.


Estive a reler esta noite o que te escreveram na hora da despedida. E que está registado aqui, no blogue "A Nossa Quinta de Candoz".


Estive a reler as palavras lindas, molhadas mas quentes, que te dirigiram. E sobretudo o teu testamento, lido pela Zezinha, como oração fúnebre dita na missa de corpo presente, na igreja do Padrão da Légua, Matosinhos, dia 25 de março de 2023. E emocionei-me até às lágrimas, eu que teimo em falar contigo, porque sei que me estás a "ouvir".


Releio essa oração fúnebre que tu em vida preparaste para nos consolar quando chegasse a hora, dolorosa, da tua partida. Era dirigida a todos e a cada um dos que te amavam, a começar pelo teu Gusto, os teus filhos, os teus netos, as tuas noras, os teus manos e os teus amigos mais íntimos:

(...) "De vez em quando espreita lá para cima, para o céu estrelado, eu estarei por lá, nalguma estrelinha, e ficarei muito feliz vendo-te a olhar para o firmamento, quiçá à procura de Deus ou de resposta para as tuas perguntas sobre o sentido da vida e da morte. E, quando chegar a tua vez de deixares esta Terra que também foi a da nossa alegria, que nenhuma barreira nos separe, vamos continuar a celebrar o amor e a amizade.

Há quem, de entre vocês, não acredite nestas coisas. Se tu acreditas, então reza, como quem sabe que vai morrer um dia, e que, ao morrer, sabe que viveu uma vida que valeu a pena.

Ter tido o privilégio do vosso amor e da vossa amizade já foi ter tido um pedacinho do Céu. Na hora da partida da Terra da Alegria, consola-me ter sabido que muito amei e que muitos e bons amigos fiz.

Até sempre, meus amores e meus amigos. A vossa Nita". (...)

Maninha, ao fim de 3 anos, 1096 dias, sinto, às vezes (fraqueza minha!) que a tua estrelinha está tão longe. Ou cada vez mais longe. Mas eu quero, todos nós queremos, que tu fiques sempre perto de nós. Vemos a tua estrelinha ou imaginamo-la. Precisamos de nos agarrar a esta imagem etérea para manter o contacto contigo.


Há coisas que escapam à nossa razão, e que são do coração. Tu eras crente e cristã. E ainda bem que, apesar do teu grande sofrimento físico, pudeste fazer as pazes com a terra onde fizeste tantas coisas lindas mas que também foi, nos teus últimos quatro anos, um vale de sofrimento e de lágrimas. E, mesmo assim, foste um exemplo de coragem, tenacidade, esperança, humildade e humanidade, para todos nós.


Quero que saibas que continuamos a falar contigo, aqueles de nós que te amamos e que nunca te esquecerão.


Nesta Páscoa voltamos a sentir ainda mais a tua ausência (que, apesar de tudo, será apenas física). Vou para cima, direta a Candoz. Irei visitar-te ao cemitério da nossa freguesia. Irei rezar por ti, à minha maneira. Irei falar contigo, ao meu jeito. Irei rever-te nas nossas cerdeiras em flor. Nas nossas videiras. Nos nossos muros e socalcos. Nas nossas conversas debaixo das laranjeiras. Na nossa casa. No nosso jardim. Nas nossas comidinhas. Nas limpezas, da Semana Santa, ao nosso casarão.


Ah!, tanta falta me fazes (e eu a ti!) nesta e noutras ocasiões de grande freima!... Como a gente se entendia, tão bem, as duas!... Como se fôssemos irmãs gémeas. Na realidade éramos irmãs gémeas de alma e coração. Podíamos estar, as duas, horas e horas a fio na conversa como se tivéssemos a eternidade à nossa frente. À lareira, à mesa, à volta dos tachos, no jardim, no campo. Ou até no cemitério quando íamos pôr flores na campa dos nossos pais.


Estarás sempre presente nas minhas memórias da nossa infância, juventude e idade adulta. Estarás sempre presente na nossa alegria comum como manas, mulheres, mães e avós. Não, nunca te direi até sempre. Mas apenas, até logo, querida maninha.


Tua Chita.

15 janeiro 2026

Nita (1947-2023): três anos de saudade




Lisboa > 15 de agosto de 2018 > Nita

Foto: LG (2018)


Meu Gustito, meus filhos, meus netos, meus manos, meus sobrinhos:


Faço hoje anos.

Setenta e nove.

Continuo a fazer anos 

e a gostar que me ofereçam flores.

Também vai fazer três anos que morri.

Fisicamente.

Há três anos... ai, com o tempo passa!


Dizem-me que deixei muitas saudades.

Acredito 

e não podia esperar outra coisa de vocês.

Amei muito e fui muita amada.

Amei o meu marido, os meus filhos,

os meus netos, as minhas noras,

mas também os meus manos e cunhados,

os meus sobrinhos...

E sobrinhas, claro.


Tive dois meninos, o Luís Filipe e o Tiago.

Não tive nenhuma menina. 

E tive pena.

Mas não me faltaram sobrinhas 

que eu muito amei, como se fossem minhas filhas.

E de quem recebi sempre muito carinho, amor, afeto.


Também fui menina.

E cresci.

Diziam-me que era uma mulher muito prendada,

Tive a sorte, talvez por ser a mais nova,

de ir estudar para o Porto,

O que na época era ainda pouco comum.

Um privilégio 

que estava reservado aos filhos dos fidalgos,

e de algumas famílias com posses.



Não havia liceu nem escolas técnicas ou comerciais

no Marco de Canaveses. 

E as ligações de Candoz com a vila

ainda eram más e morosas

(a não aser através da Linha do Douro,

apanhava-se o comboio no Juncal,

a uma hora pé da nossa casa).

E não havia passes sociais nesse tempo.


A solução foi ir para o Porto.

Para casa da mana Rosa.



Fui também,  modéstia àparte,

um exemplo para os meus manos

e depois para os meus sobrinhos.

Fui a primeira da família Ferreira Carneiro 

a ir estudar

e tirar um curso superior.

Incentivei outros a estudar.

E depois fui técnica de laboratório

no Instituto Superior de Engenharia do Porto,

o meu ISEP.

Desgraçadamente 

foi também o local de trabalho

onde lentamente fui contraindo a doença

que me deveria matar, em 2023.

É uma história triste,

misturada com muitas alegrias,

e boas amizades que lá fiz;

mas foi lá, 

no meu amado laboratório de química,

que estive exposta a produtos cancerígenos,

como o benzeno e outros.


Não vou agora penitenciar-me 

por ter posto a minha saúde em risco, 

por tanto ter querido ao meu trabalho 

e àquela casa.

Nem acusar quem me devia ter protegido,

em última análise o Estado, meu patrão.

Mas que vos sirva  também de exemplo,

para vocês, os mais novos.

Nunca ponham em risco

 a vossa saúde e a vossa segurança,

nem a vossa nem a dos outros.


Podia ter vivido mais uns aninhos

com todos vocês que tanto me amaram 

(e sei que me amam),

com o meu homem, os meus filhos,

os meus netinhos e as mamãs deles.


No desconsolo da minha solidão

(nem sei onde estou 

nem por onde tenho andado),

tenho tantas saudades vossas,

das maravilhosas férias e viagens 

que fizemos juntos,

das nossas festinhas,

dos nossos segredinhos e cumplicidades,

das nossas serviçadas em Candoz...


Três anos, meus amores, meus amigos,

são séculos de saudade.

É uma pedra muito pesada no meu túmulo.

Por favor, nunca me esqueçam.

Tragam-me uma florinha, 

uma plantinha, do meu jardim

(que eu sei que o meu Gustinho 

continua a tratar amorosamente),

deixem-na no mármore frio do meu jazigo,

mas falem comigo.

Não por favor, mas por amor.

Em voz alta.

Que eu oiço-vos.

De vocês, todos e todas,

eu nunca me esquecerei.

Vossa Nita.

15 de janeiro de 2025.

22 novembro 2025

In Memoriam: Joaquim Vieira Marques Barbosa, "Quim" (1934 - 2025)

 



Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz >20 de outubro de 2012. Festa das bodas de ouro da Rosa (n, 1940) e do Quim (1963-2012) > A família e os amigos, desde os netos aos sobrinhos, irmãos, cunhados, associaram-se à festa... "Fui fidalgo por um dia", disse o Quim, com o humor e a alegria que todos lhe reconheciam... Foto: LG (2014)




In Memoriam: Joaquim Vieira Marques Barbosa, "Quim" (1934 - 2025)



(1) Morreu o Quim. O nosso Quim. Companheiro da Rosa já há mais de 6 décadas. Rosinha, para os amigos e vizinhos do Padrão da Légua. Um casal que foi uma referência para a comunidade local, para crentes e não-crentes.

Quem não o conheceu o Quim, na igreja, no colégio, no compasso pascal, no centro social e paroquial do Padrão da Légua ?!

O Quim e a Rosinha. Para quem os amigos e vizinhos eram uma extensão da família. Sempre os conhecemos, amigos e hospitaleiros, com a casa cheia, a começar por filhos, sobrinhos e netos. Rosa Carneiro e Joaquim Barbosa, Rosinha e Quim. Casados desde 1962.


(2) Morreu o Quim, o nosso Quim. Pai da Zeza, da Cristina, da Natália, do Miguel. Um pai babado, um pai-galinha. Avô e bisavô. Teve esse privilégio, o de chegar a ser bisavô.


(3) Morreu o Quim. O nosso Quim. Nosso cunhado, tio e sócio da Quinta de Candoz. Foi mais de meio século de convívio. De cumplicidades. De coisas boas e menos boas. De operações ao coração. De bailes mandados. De "serviçadas" na vinha do Senhor e na vinha da Quinta de Candoz.


(4) Morreu o Quim. O nosso Quim. Nascido em 1934, tempo ruim em que grassava a pobreza, a doença, a tuberculose, a mortalidade infantil. Num tempo em que se dizia: "Esta vida não chega a netos, nem a filhos com barba".

Fez-se a ele próprio. E, antes da PSP, no Porto, trabalhou na CP, o que lhe permitiu ter mundo, de Trás os Montes ao Alentejo. Um pouco mais de mundo, do que ele tinha nas faldas na serra de Montedeiras, em Regadas, Paço de Gaiolo, onde nasceu. Ou em Ambrões, onde os pais eram caseiros. Tempos duros, para uma família de rendeiros, de prole numerosa.


(5) Morreu o Quim. O nosso Quim. Falava com orgulho do pai e da mãe. E dos irmãos e irmãs. Tinha boas recordações de Lisboa onde se tornou benfiquista. Mas foi no Porto que viveu e criou os seus filhos. Venceu algumas duras batalhas. As da saúde.


(6) Morreu o Quim. O nosso Quim. Gostava de versejar, poetar, ler e escrever. E no blogue "A Nossa Quinta de Candoz", dedicámos-lhe alguns versos, bem humorados e brejeiros, muito ao seu jeito e ao seu gosto pícaro e folgazão. Deixem-me recordar algumas dessas quadras:


Aos seus 77 anos

(...) Mas que bela capicua,
Sete sete, de idade,
É uma espécie de gazua,
Qu' abre a porta à eternidade.

C'o Quim não há gente triste,
É alegre e folgazão,
Mesmo quando a Rosa insiste:
-Ó Quim, olha o coração!

E até mesmo no hospital,
Foi motivo de falatório,
Pondo a rir o pessoal
Lá do bloco operatório.

É meu sócio e meu cunhado,
Meu parceiro de Candoz,
Há meio século casado,
E estimado por todos nós.

C' os filhos é um ternura,
Nunca vi tal pai-galinha,
Coração sem amargura,
(E)terno amor da Rosinha.



Candoz, 26/7/2011


Aos seus 80:


(...) Tem uma ponta de vaidade,
Deus o fez e quis assim,
Foi do campo p'ra cidade...
E há de ser o nosso Quim!...

Nascido lá nas Regadas,
Lugar de Paços Gaiolo,
Tinha lábia p'rás casadas,
Co'as solteiras era tolo.

De olho azul marinho,
Deixou menina chorosa,
Quem por ele tinha um fraquinho
Era a nossa mana Rosa.

Dura vida, a de Ambrões,
Por causa de um tal mandjor,
Mas há mais recordações,
Lisboa foi a melhor. (...)


Candoz, 26/7/2014,


(7) Enfim, morreu o Quim. O nosso Quim. Estamos mais pobres, estamos tristes. Ele sabia que tinha alguns "defeitos de fabrico". Como todos nós. Mas o seu coraçãozinho chegou aos noventa e um, com a ajuda da medicina e do nosso Serviço Nacional de Saúde. Sorriu às vezes à morte com meia cara. No dia 20, pregou-nos a grande partida. Não deu para fazer festa de despedida.


(8) Morreu o Quim. O nosso Quim. Era um homem de fé. Onde quer que ele esteja, nunca estará longe de nós. E vamos guardar dele, no nosso coração, as melhores recordações de uma vida. De um bom homem. E de uma grande família.


Luís Graça, em nome de toda família de Candoz
Texto a ler pelo João Graça, na cerimónia fúnebre,
igreja do Padrão da Légua, Matosinhos, 22 de novembro de 2025

24 março 2025

Nita, dois anos de saudade sofrida

 


Nita (1947-2023)... Candoz, 22 de setembro de 2022.
 Foto: LG (2022)

Querido Gusto, 
e meus queridos sobrinhos, Luís Filipe e José Tiago:

Faz-nos tanta falta a vossa Nita, a nossa Nita.
Sabemos, racionalmente,
 que já não está aqui, ao nosso lado.
Mas recusamo-nos a aceitar 
a sua separação definitiva.

Dois anos depois 
ela continua nos nossos corações,
Nas nossas casas, 
nas nossas fotos, 
nas nossas conversas.

E eu ainda sei de cor o seu antigo número de telemóvel.
Podem achar uma patetice da minha parte,
Mas às vezes ainda tenho a tentação de ligar-lhe.

Partilho convosco o que me passou pela cabeça,
esta amanhã, no 2º aniversário da sua morte,
e que pedi ao Luís que passasse a papel.

É também a minha, nossa, maneira de estar convosco
neste dia de saudade sofrida,
com vós que eram o “mais que tudo” da minha mana Nita.

Não, o tempo não cura tudo.
Vamos continuar a celebrar a sua memória,
à nossa maneira.
Até à Páscoa. 

Alice (e Luís)
_____________

Querida Nitas:

Hoje queria tanto ouvir a tua voz.
E poder prosseguir as nossas conversas
que a tua morte veio interromper.
Conversas às vezes de mais de uma hora,
conversas de irmãs, mais do que de mulheres,
que os nossos homens podiam achar
que eram conversas da treta.

Queria, tanto, do outro lado da linha,
poder ouvir as tuas gargalhadas,
as tuas interjeições,
e o teu suave calão do Porto
"Vai-te, Afonso!"...

Tenho às vezes a tentação de ligar 
para o teu antigo número de telemóvel, 914772956.
Recuso-me a eliminá-lo da minha lista de contactos.
Uma voz neutra de mulher, pré-gravada, responde-me:
"O número para o qual ligou,
não pode neste momento ser contactado.
Por favor tente mais tarde.
Obrigado".

... E ouço e ouço o raio do robô
na inútil esperança de ainda, por fim, por milagre, 
aparecer a tua voz
cujo timbre nunca esquecerei...

Pois é, Nitas, quem disse que o tempo tudo cura
não sabia o que era a imensa vontade de viver que tu tinhas
e nossa a imensa alegria de partilharmos
as pequenas e as grandes alegrias da vida,
enfim, cumplicidades de duas irmãs
que bem podiam ter sido gémeas...

Tenho, temos, tantas saudades tuas.
Saudades sofridas.
Já chorei por ti ontem à noite e hoje de manhã.

Tua Chita.

24 março 2024

24 de março de 2024: Hoje, só me apetece gritar: ainda era cedo, Madrinha, Tia Anita! (Cristina Barbosa)





Lagos, 1981 > Junto à estátua do rei Dom Sebastião de José Cutileiro (1973): da esquerda para a direita, Gusto, Filipe, Cristina, Nita, Joana, Chita, Béu… (Ainda estavam para nascer o João e o Tiago)

 Foto: Luís Graça (2024)


Ainda era cedo, Madrinha, Tia Anita!


por Cristina Barbosa


Há um ano atrás, o dia amanheceu. e logo de imediato, ficou nublado e muito triste!

Em casa de cada um dos teus amores, se suspirava por ti... Não quero falar muito sobre esse dia.

Desde que me conheço gente, nomeie-te de minha segunda mãe, e tu correspondeste a este valor que te atribuí.

Pois foi, ensinaste, ouviste, reprendeste, preocupaste, ajudas-te, sofreste, sorriste, abraçaste (me), o inerente a cada um destes verbos, juntando o nós em cada momento que eu precisei.

Estavas SEMPRE lá!!

Gostei tanto de te ter presente na minha vida, que estendi-te a ti e ao tio Gusto, o convite de padrinhos do meu filho mais velho, o Nuno, ao que prontamente acederam e, por quem nutrem carinho igual ao que têm por mim.

Tenho a cada dia 24, feito uma espécie de “Diário de Bordo”, sobre o que vivi contigo e com os eus... Faz-me bem!... Hoje, vou partilhar algumas de tantas coisas que vivenciamos. Guardarei sempre o nosso último encontro, foi maravilhoso e vou guardar o teu último beijo e o teu último sorriso às sete chaves para que não mo possam tirar.

Agora Candoz...

A primeira vez que lá cheguei após a tua partida, faltavas tu para me receber com o teu bonito orriso acolhedor, a alegria do teu olhar luminoso igualável À tua presença empática, simples, mas enorme como os teus abraços. Bem tentei previamente preparar-me para o momento. Mas a cada janela que abria, vinha a vontade de me assomar a ela e gritar... Tudo me falava (fala) de ti. As flores, a vinha, os tachos, o linho, os odores, o pó...

Após este ano, nada disso mudou. Mudou a nossa dinâmica em família de continuar viva Candoz, em homenagear-te em tudo o que fazemos, colocando um amor igual ao teu.

Hoje, senti a tua falta! No primeiro Domingo de Ramos sem a tua presença física, naquele almoço que gostava de preparar para vós com todo o carinho. Agora recebo um bocadinho de ti através do Tio e dos meus primos. Vou pedir ao Kiko que gosta de Candoz para passar o texto a computador, porque no rascunho são visíveis as marcas das lágrimas que me caem no rosto.

Hoje, só me apetece gritar: Ainda era cedo, Madrinha, Tia Anita!

Cristina Barbosa

A tua afilhada, ANA Cristina 24/03/24

23 dezembro 2023

No Natal de 2023: lembrando com (e)terna saudade aquela que, durante 40 anos, foi a rainha de Candoz (e da Madalena)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz> Quinta de Candoz > 23 de dezembro de 2023 > Uma "aguarela" natalícia... Foto: LG (2023)



Querida Nita:


Não imaginas a surpresa que te fizemos hoje!...

Amanhã não haverá ceia de Natal na Madalena,

Mas hoje estamos aqui reunidos em Candoz

Para te lembrar, e lembrar aos mais novos,

Que tu aqui foste a Rainha,

E que continuas a ser a Rainha,

Mesmo quando te queixavas

Que vinhas sozinha, com o teu Gusto,

Trabalhar que nem uma moira,

E mesmo já doente,

…Mas sempre com o teu sorriso lindo no rosto sofrido.



Nitas, ainda não chorámos todas as lágrimas,

Nem nunca choraremos todas as lágrimas por ti,

E já se passaram nove meses

Desde que em 24 de março nos deixaste,

Desamparados, órfãos, devastados, inconformados…


Resta-nos, Nita, a imensa saudade, a tua memória,

Que queremos manter viva.

Por isso estamos aqui, hoje, dia 23 de dezembro,

Em dia de trabalho, em Candoz,

Mas também para celebrar o nosso Natal

Em comunhão espiritual contigo.

É também a nossa maneira de continuar a fazer 

O tão difícil luto pela tua perda.


Era o Natal, a quadra festiva do ano

Que tu mais adoravas, mais do que a Páscoa!

Querias ter todo o mundo em Candoz e na Madalena,

A começar pelo teu Gustito,

Os teus filhos Filipe e Tiago,

As tuas noras, os Susana e Sofia,

Os teus netos, a Carolina e o João…

A Alice e o Luís vinham de Lisboa,

O Zé Soares e a Berta moravam ao teu lado,

E os teus manos, Tó, Rosa, Manel e Zé,

Também não estavam longe,

Estávamos todos vivos, e de razoável saúde, 

E visitávamo-nos alegremente uns aos outros.

O Zé trazia as pencas, na véspera,

E enchia a tua casa de ruidosa alegria,

A Alice encarregava-se do lume,

E dos panelões onde, na garagem,

Se coziam, carinhosamente,

As batatas, as pencas, o bacalhau lascudo.

Tu punhas o teu maior esmero, capricho e arte

Na feitura dos doces,

E nos arranjos da sala e das mesas…,

E nas boas-vindas aos convivas…

Nunca faltavam os bolinhos de “corn-flakes”

A aletria quentinha, o arroz doce, o leite creme,

E as rabanadas, que eram tarefa da Berta…

Este ano faltas tu, pela primeira vez,

E falta também o Zé Soares,

Nas nossas vidas, no nosso Natal.



Este ano não há mais freima de Natal para ti!

Mas fizemos questão, todos aqueles e aquelas

Que te amaram e continuam a amar,

De nos sentarmo-nos à grande mesa mesa em L,

À hora do almoço, depois do trabalho da poda,

Para te dizer que o espírito de Candoz,

Que tu sempre viveste e representaste como ninguém,

Ao longo de quase quatro décadas,

Continua vivo e a inspirar a geração seguinte

Dos nossos filhos e sobrinhos.



Nita, podes continuar a ter orgulho

No teu Gusto, nos teus filhos, nos teus sobrinhos,

Em todos nós que aqui estamos:

Enquanto ainda secamos as lágrimas,

E suspiramos por ti,

Prometemos também nunca te esquecer

E manter vivo o teu testemunho, o teu exemplo de vida,

Tu sempre personificaste o dom,

A doçura, o prazer e a alegria de dar e receber.

Temos uma bela surpresa para ti 

No próximo dia 24 de março de 2024.

Até lá reza por nós!  E protege-nos!

E, em nosso nome, deseja 

A todos aqueles, homens e mulheres, que foram das tuas relações,

Um Bom Natal de 2023 e um Melhor Ano Novo de 2024

Quinta de Candoz, 23 de dezembro de 2023,

Os presentes:

Gusto, Filipe, Tiago,Suzana,Sofia,Carolina e João;

Alice e Luís;

Zé, Pedro, Adriano;

Zezinha, Eduardo, João, Mara, Catarina, Marcelo e Manel;

Cristina,Miguel,Francisco;

Miguel, Daniela, Clara.



01 novembro 2023

José Soares (1945-2023): dois meses de saudade (Sandra)


O Zé Soares e a família, no Alqueva no dia 9 Abril 2022 ( dia em que a filha, Sandra, enfermeira, fazia 50 anos)



Praga, República Checa, 8 de setembro de 2022: uma "selfie", da esquerda para a direita, Berta, Zé Sandra e Rui


Porto, Faculdade de Economia, 1 de maio de 2022, no dia da festa da formatura da neta, Leonor, ou festa de finalistas. Da esquerda para a direita, o Rui, o João, a Leonor, o Zé, a Berta e a Sandra


Maia, na casa da Sandra e do Rui, Noite de Consoada, 24 de dezembro de 2021: O Zé Soares, com a esposa, Berta, a filha Sandra e os netos Nonô (Leonor) e João


1. Palavras ditas na missa de corpo presente do José Soares (1945-2023), no 2 de setembro de 2023, na igreja paroquial da Boavista, Porto

Pai,


O dia que sempre temi, chegou...

Tive sempre receio deste momento... quando tomei conhecimento do diagnóstico da tua doença,  procurei preparar-me para um desfecho doloroso de imaginar e muito difícil de aceitar.

Encontrei algum consolo em recordar como foste um excelente pai, marido, avô, irmão, cunhado, sogro, amigo e colega. 

Estiveste sempre presente e disponível para todos nós.  O meu/ nosso muito obrigada por tudo quanto fizeste por todos.

Nestes últimos meses tudo foi feito para te acompanhar e proporcionar o conforto possível num contexto de sofrimento.

Embora sabendo que tinhas momentos de dor e de incerteza quanto ao futuro, ainda assim, gostaríamos de ter-te junto a nós durante mais tempo.

Espero que, onde quer que estejas, possas estar em Paz e que sejas mais uma estrelinha no céu a olhar por nós. Em noites de céu estrelado olharei para o céu para te ver a ti e ao Miguel. Estarão os dois juntos até ao dia em que todos nós nos voltarmos a encontrar.

Até sempre meu pai.

Sandra, em nome de toda a família, Berta, Rui, Leonor e João


24 outubro 2023

Nitas (1947-203): 7 meses de saudade (Chita)

 


Nitas, na praia de Azenhas do Mar, Sintra, ao pòr do sol, o último do ano, 31 de dezembro  de 2018

Foto (e legenda): © Luís Graça (2018). Todos os direitos reservados. [Edição:  Blogue A Nossa Quinta de Candoz]



Nitas, minha querida mana:

É dia 24.  Faz 7 meses que partiste.

Não tenho (nem preciso de ter) o teu código postal. Falo diretamente contigo, quase todos os dias. Mas tu nem sempre me respondes. Aliás, estás quase sempre calada. E eu tenho tanta necessidade de te ouvir. De falar contigo e de te ouvir. E para mais agora que está a chegar o inverno…  

Sinto a tua falta: sem ti, sem o toque do teu telelelé, sem as fotos que me mandavas, ou  sem as nossas videochamadas que fazíamos, estou mais só… Fazes-me muita falta. Não quero ser egoísta. Fazes falta a todos nós… E isso só quer dizer que te amávamos muito. Nós e os teus amigos que te continuam a recordar com muita saudade.

Eu insisto em dizer à Clarinha que “a tia Nitas foi para a estrelinha”… E eu própria já me convenci de que tu tens, afinal, todo o céu por tua conta. 

Fico mais calma quando à noite vejo o céu estrelado, e posso contar as tuas estrelinhas… Numa interminável viagem pelo universo, todas as estrelas são tuas. Escolho sempre algumas mais especiais. 

Preciso dessa magia, Mana. Boa noite, acho que hoje vou dormir melhor depois de “falar contigo”…

Tua Chita, Alfragide, 24 de outubro de 2023

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Poema dedicado a minha querida e saudosa Maninha que faz hoje 7 meses que partiu. São tantas as saudades que me deixa sem chão!!!

Um poema de Ana Luísa Amaral que também já não está entre nós. Duas mulheres fortes do Norte que quero homenagiar.


Um Céu e Nada Mais


Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.


Ana Luísa Amaral (1956-2022)
 in “Às Vezes o Paraíso” ( Quetzal, 1998; reed. 2000)
 (com a devida vénia...)

24 setembro 2023

A alegria das vindimas de 2023, e a saudade da nossa Nita que partiu há seis meses

 


Quinta de Candoz > Vindimas  > 18 de setembro de 2020 > A Nita(s), a Mi (cunhada) e a Chita (Alice, irmã). Foto: LG (2020).


Querida mana Nita(s):

Fui fazer as três vindimas,  estive 18 dias em Candoz. Também estive a representar-te.  Sentia-se a tua presença tutelar.  Tu agora és a nossa "fada madrinha", como diria a ,minha Clarinhya.  Ontem andávamos todos felizes a vindimar, logo cedo, pela manhã (foi a última vindima).

Já sabes, por certo, do novo projeto a que metemos ombros em Candoz. O teu Tiago já “te falou” da ideia, linda,  que ele teve em mente para te homenagear através do vinho de Candoz. Não vou entrar em pormenores,  sem autorização do Tiago, porque “o segredo é a alma do negócio”…

Este ano tivemos uma boa colheita, em quantidade e qualidade,  mesmo sendo um ano complicado por tudo: as pragas do costume, mais o “black rot” (ou “podridão negra”), e a pior de todas, a tua partida!

Gostaste, por certo, de ver os teus filhos, todos entusiasmados a vindimar… Eu gostei muito . Então, o teu Tiago, vestido à camponesa!…

Vim ontem de Candoz, ao fim da tarde, direitinha à Lourinhã, foram quase 350 km, em três horas e meia… Vim cansada mas feliz por sentir,  ver e partilhar a alegria de todos, dos teus filhos Tiago e Filipe, do teu homem, o Gustito, do meu Luís (de máquina fotográfica em punho),  da tua neta Carolina,  do nosso mano Zé, dos teus sobrinhos, Zezinha, Eduardo, João, Diogo e  Francisco, além do nosso companheiro e amigo de muitos anos, o Adriano…

Tivemos a mesa cheia, como de costume. Até a Berta veio da Madalena com a Sofia e o teu Joquinhas…

Não posso deixar de deitar mais uma das  lágrimas que me restam,  pela tua partida, faz hoje justamente seis meses. Tantas coisas que ainda queríamos poder fazer juntas em Candoz!...

A vida (a vida, não, a morte!) pregou-nos a grande partida de te levar, sem sequer nos pedir licença!... Que crueldade, mana!... Ainda hoje não me conformo nem consegui fazer o luto!

Mas quero que saibas que continuamos falar contigo e a pôr uma florinha no cantinho da sala onde está o teu  retrato, tirado nas vindimas de há três anos.  Com o teu sorriso lindo, que nos encantava a todos/as!

A tua mana Chita.

Lourinhã, 24 de setembro de 2023.

 

02 setembro 2023

In Memoriam: José Teixeira Pinto Soares (1945-2023)

 

O nosso querido Zé Soares. 

Foto; Sandra Soares Russo (2023)


In memoriam José Teixeira Pinto Soares (1945-2023)

 

Querido Zé Soares:

Que dizer perante a morte ? A morte deixa-nos sem palavras.

Mas tu tens direito a uma palavra. Não podes partir da terra que amavas sem uma palavra.

Uma palavra dos que te amaram e que também fizeram parte da tua vida.

Já tiveste, agora mesmo, as palavras de fé e de esperança cristãs, do celebrante desta cerimónia, sempre tocante, que é a missa de corpo presente. Resta agora a nossa palavra de homenagem e de despedida.

Temos para contigo o dever de memória e, mais do que isso, a obrigação de te manifestar o amor, a amizade, a estima e o apreço que tu mereces e que sentimos por ti. Para mais agora que partiste para a tua última viagem.

Zé,  foste um homem bom, mas discreto, humilde. Gostavas de ficar no teu cantinho. Mas,  por detrás dessa discrição e humildade, havia muito talento e bondade. Foste um homem bom, foste um bom filho, e depois pai, esposo, avô, amigo, irmão, colega, vizinho, cidadão, português. Foste um profissional de seguros competente, dedicado e honesto. E tinhas tudo para ser um grande artesão e artista, se tivesses dado asas aos teus sonhos.

Sempre pensei que poderias  ter trabalhado na arte do restauro nalgum dos nossos grandes museus nacionais. Trabalhavas a madeira com gentileza, poesia, arte e engenho. E só detestavas os pregos, confidenciou me o teu mano Gusto.  Era uma das tuas paixões, mesmo muito antes da reforma.

Mais do que tudo, eras um homem generoso, amigo do seu amigo, que sabia pagar a amizade com a amizade.

Sem sermos amigos íntimos, recordo os muitos natais e festas da páscoa, na  Madalena,  mas também vindimas em Candoz. Com as nossas mulheres, com os nossos filhos e netos a crescer,  ainda com os teus pais, com o teu mano, com a nossas saudosa Nitas, com o teu adorado filho Miguel.

Foram momentos muito bonitos e felizes das nossas vidas em comum. E eu nunca me esquecia de tI e dos teus nos meus versinhos festivos.

Estamos agora todos desolados com a tua partida precoce. Bolas, tinhas direito a viver ainda muitos e bons anos. Simbolicamente, partes no veleiro que há muitas décadas atrás montaste, peça a peça, com a tua infinita paciência, rigor e habilidade.  É o barco de Caronte, como eu gosto de dizer, e já diziam os gregos antigos.  O barco que também um dia destes nos há de levar a todos para a outra margem do rio,  mar, oceano, planeta ou galáxia, que agora nos separa, qualquer que seja a nossa crença ou o Deus a quem rezamos.

 Até lá, até nos juntarmos todos de novo, já tens aí ao pé de ti o teu querido filho Miguel (que nos deixou tão cedo!), os  teus pais, a nossa Carmen, a nossa Nitas…

 Deixas na Terra o teu ADN, o teu património genético. E sobretudo um rasto luminoso, como ser humano.

Zé, deixa-me  dizer-te por fim, que podes ter orgulho  nos  cá ficam. da tua família aos teus amigos.

Com a eterna saudade, do Luís e da Alice, e de todos de mais  presentes nesta celebração religiosa. Até sempre, Zé Soares!

Porto, igreja  paroquial de Nª Sra.  da Boavista, 2/9/2023.



24 maio 2023

Para além da morte: Em memória da minha querida mana Nitas (Candoz, 15 jan 1947 – Porto, 24 mar 2023)



Foto: LG (2018)



Para além da morte… Em memória da minha querida mana Nitas (Candoz, 15 jan 1947 – Porto, 24 mar 2023)


Minha querida mana Nitas, passam hoje dois meses que a tua luzinha se apagou no meu firmamento…

Que saudades eu tenho de ti … Dois meses ?!... Para mim, para todos aqueles que te amavam e que te perderam, é um pesadelo, uma eternidade.

Mas eu queria dar-te notícias da Terra da Alegria, como diz o meu poeta. Fazem-me tanta falta as nossas longas conversas ao telemóvel… Lembras-te ?!...

Umas, a horas mortas, já eu estava na cama, e tu com insónias… ou à espera que chegasse o João Pestana… Sempre foste mocho, deitavas-te tarde e levantavas-te tarde…
Outras vezes, comigo e o Luís, no carro, a caminho de Lisboa, ou no regresso à Lourinhã. 

Púnhamos a conversa em dia, querida Nitas. Fazia-nos tão bem! Falávamos dos filhos, dos netos, dos maridos, dos manos, dos sobrinhos, eu sei lá… As mulheres, e para mais nós, que éramos duas almas gémeas, têm sempre com que conversar…

Infelizmente, nos últimos anos, falávamos mais das doenças de uns e outros…

Também foi bom para ti, Nitas, que sofrias tanto nos últimos tempos… Mas quando vinhas do hospital, depois dos tratamentos ou das transfusões, nem voz tinhas para falar a ninguém, nem a mim… Sim, querida mana, chegava a ser muito penoso… E eu muito sofria contigo… Mas no dia seguinte, já estavas toda rabitesa…Foste uma heroína...

O teu anjo da guarda, o dr. Ricardo Pinto, fazia milagres… Foi ele que te prolongou a vida… Ele e o teu Gustito,  o teu cuidador extremoso, inexcedível, incansável… Mais a tua força de vontade, a tua fé, a tua coragem… 

Ah!, Nitas, ainda podias cá estar, se não fora aquela maldita queda e o hematoma na cabeça… Eu sei que sempre me dizias, “Chita, todos temos a nossa hora”… A tua chegou, infelizmente,  bem mais cedo do que tu e nós queríamos.

E se tu amavas a vida, o teu Gustito, os teus filhos, os teus netos, a tua família!... Fazes-me chorar, minha mana querida!... Ainda choro pelos cantos… Sinto tanto a tua falta… E sinto raiva por te perder, ainda mais por a morte, injusta, te ter levado primeiro que a todos nós, irmãos, mais velhos do que tu…

Eu sei que tu,  lá do alto, bem intercedes e velas por todos nós… Mas eu queria poder tocar-te, ver-te, beijar-te, dar-te muitos abracinhos…Adormecer a falar ao telemóvel contigo…

Foi tudo junto, a pandemia, a tua doença, mais a distância, a separar-nos… A vida nunca sai como a gente a quer… Prega-nos partidas, troca-nos as voltas… Vê a minha sina: queria, agora poder viajar, como fazíamos antigamente, contigo, o teu homem, o meu… Mas, olha, estou aqui presa por causa dele, que tem de fazer fisioterapia todos os dias…

E o teu Gustito, coitado, esse também não está nada bem… Já não estava bem, quando o deixaste… Sei que ele continua em grande sofrimento, inconsolável e quase incomunicável… Temos trocado mensagens ao telemóvel e, mais raramente, falado.

Ah!, mana, não há palavras que nos consolem!...Mas não eu não quero desistir de poder falar contigo… Preciso de falar contigo… Dava um ano de vida para poder estar contigo um dia, algures no firmamento… 

Como diz o avô para a neta, explicando a morte em termos poéticos, “foste para a estrelinha”… E eu faço um esforço mental para te imaginar que estás algures numa estrelinha… Aponto o dedo ao céu, à noite, e sou capaz de te “ver”… Mas em milhões de milhões de estrelas, eu ainda não descobri qual é a tua…

Sei que não importa, é a estrelinha que a gente quiser… Posso imaginar que vives numa delas, ou mesmo em todas… Prometo ir mais vezes â varanda, à noite, para “falar contigo”. Acredito agora que me podes ouvir… mesmo que eu não te veja nem oiça… Vamos combinar, mana, fazer mais vezes este diálogo imaginado… 

Passaram dois meses, mana querida, e eu ainda não fiz (nme consigo fazer) o luto da tua perda!...

Lourinhã, 24 de maio de 2023, 

Com mil beijpos e chicorações da tua mana  Chita (e do Luís).