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21 abril 2025

Os nossos "versinhos" ao compasso pascal...



O compasso pascal em Candoz, s/d (c. 1980). 
A Nita (1947-2023)  vinha à frente, do lado direito. 
Foto: LG



Madalena, Vila Nova de Gaia, 5 de abril de 2015.

A "Nita",  Ana Ferreira Carneiro Pinto Soares (1947-2023) 
faz as honras à casa....



... e lê os "versinhos ao compasso da Madalena"... É duro ver que,  neste vídeo de há 10 anos, há 3 dos nossos entes queridos que já não estão entre nós...

Vídeos: L.G. (2015). Alojados em You Tube > Luís Graça


 
1. Uma seleção dos meus versos dedicados ao "compasso pascal": há 50 anos que venho ao Norte, nesta data, ao Porto, à Madalena (V. N. Gaia), a Candoz (Paredes de Viadores, Marco de Canaveses). Nesta e noutras datas festivas, como o Natal, o Carnaval, etc., ou trabalhos coletivos da quinta, como a vindima... 

De há 20 anos a esta parte, deu-me para escrever um versos ou umas prosas poéticas por ocasião do Natal e da Páscoa... São versos singelos, ao gosto popular, para serem lidos na ocasião (neste caso, aquando da visita pascal).  

Na pandemia de Covid-19, a família falhou a vinda ao Norte pela Páscoa por razões óbvias: daí não ter havido nem versos nem compasso em 2020 e 2021...

Em 2023 morreu a nossa querida "Nita" (1947-2023), e a partir daí não mais abrimos a casa de Candoz ao compasso... É um sinal de luto na cultura das gentes de Entre Douro e Minho. Daí também não haver versos em 2024 e 2025... 

Em Paredes de Viadores, devido â dispersão geográfica das habitações os, a visita pascal (compasso)  reparte-se por dois dias: domingo de Páscoa, no dia seguinte,  segundas. Em Candoz, é sempre à segunda...

Hoje o pároco já não preside, como antigamente, à visita pascal. Essa função é agora exercida por um leigo, que transporta a cruz, sendo acompanhado por outros membros da comunidade paroquial. Geralmente, um dos mais novos, vem munido de um sineta cujo toque faz anunciar a chegada do compasso. 

O compasso é isso mesmo: a visita, ao redor da freguesia, em cortejo, a todas as casas das famílias cristãs, que sinalizam com urzes e pétalas de flores, o caminho que leva à casa, nas zonas rurais, ou com colchas (brancas) o andar da família que quer receber o compasso, nas vilas e cidades.

Em termos religiosos e sociais, a função principal do compasso é: (i) anunciar a ressurreição de Cristo; (ii) partilhar a alegria da Páscoa entre família, amigos e outros convidados; e (iii) benzer a casa e os presentes (que em geral representam duas ou mais gerações).

O cortejo vai andando de casa em casa. O mordomo que transporta o crucifixo, entrega-o em geral  ao "homem (ou mulher) da casa" que faz uma ronda, dando a beijar  a imagem de Cristo... (por razões de higiene pública, depois da pandemia, o beijo tende a tornar-se simulado).

Depois de uma breve oração, segue-se a oferta de alguns doces e bebidas ao compasso e aos demais presentes. No Norte, as famílias fazem também ofertas em dinheiro (que reverte para o padre e para o foguetório). Os do compasso têm se de polidos, comedidos e frugais: se bebessem em todas as casas, estavam "feitos"!... (mas antigamente era assim: o compasso recolhia à igreja, já bêbado que  nem um cacho!).

À saída do compasso, a caminho da próxima casa, é frequente deitar-se um ou mais foguetes, pagos pelo dono da casa que acabou de ser visitada.  No final do dia, "juntam-se as cruzes" (no caso das freguesias grandes) e, em muitas partes, há fogo de artifício (em geral muito vistoso, aqui no Marco de Canaveses e em Baião).

 Parte do dinheiro recolhido é para gastar em fogo. Por razões de segurança, o uso de  fogo de artifício tradicional (com foguetes de cana), não estando proibido,  está sujeito a uma estrita  regulamentação.

Resta-me fazer aqui uma recolha dos versos que publiquei no blogue da família, "A Nossa Quinta de Candoz". Aqui vão, com votos, para todos os  nossos amigos e camaradas da Guiné, de uma feliz e santa Páscoa de 2025. LG

_________________


Viva o compasso pascal
Desta linda freguesia,
Fizeram-nos muito mal
Estes dois anos de pandemia.


Faltam beijos e abraços,
Mas lá iremos ao normal,
Hoje damos mais uns passos,
Viva o compasso pascal!

É uma antiga tradição
Que nos enche de alegria,
E reforça a união
Desta linda freguesia.

Andámos todos com medo
E com máscara facial,
Duas Páscoas sem folguedo
Fizeram-nos muito mal.

Sem compasso nem foguetório,
Sem convívio nem folia,
Nem sequer houve peditório
Nestes dois anos de pandemia. 

 (...) Quinta de Candoz, 18 de abril de 2022
____________________

Mais um ano, mais uma visita
Deste compasso pascal,
É uma festa bem bonita,
E que nunca é igual.

E que nunca é igual,
Logo vem outro, se falta algum,
Renova-se o pessoal,
Que aqui somos todos por um.

Que aqui somos todos por um,
Na alegria ou na tristeza,
Na fartura ou no jejum,
Cabendo todos à mesa.

Cabendo todos à mesa,
Onde não falta o anho assado,
Nesta casa portuguesa,
Onde honramos o passado.

Onde honramos o passado,
O presente e o futuro,
Se alguém está adoentado,
Tem aqui um porto seguro.

Tem aqui um porto seguro,
Damos valor à amizade,
Às vezes o rosto é duro,
Mas o resto é humildade.

Mas o resto é humildade,
Viva o compasso pascal,
E a nossa fraternidade!...
Boa Páscoa, pessoal!

Boa Páscoa, pessoal,
Boa saúde e longa vida,
À Ti Nitas, em especial,
Que nos é muito querida!

Quinta de Candoz,
segunda feira de Páscoa,

22 de abril de 2019


_________________


Já lá vem, em festa, p’la estrada fora,
O compasso pascal da freguesia,
Chega à nossa casa mesmo na hora,
E a todos saúda com alegria.

Mais do que a tradição, 
é a certeza
De que a Páscoa é também renascimento,
E há sempre mais um lugar à mesa,
Para nosso geral contentamento.

Se não for preenchido, é o dos ausentes,
E, em especial, dos nossos mortos queridos;
Aos que vieram e estão aqui presentes,

Saibam que nós ficamos muito honrados.
E, aos do compasso, diremos, reconhecidos:
Tenham um dia feliz, mesmo… estoirados!


Quinta de Candoz, 2 de abril de 2018

____________________


Aleluia, Cristo ressuscitou!,
Apregoa o compasso pascal,
Que hoje nesta casa nos visitou,
E a todos nos juntou neste local.

É uma das ruas da Madalena,
Que tem nome do nosso primeiro rei,
E eu, quando não posso vir, tenho pena,
Porque a Páscoa é aqui, isso eu sei.

Lá vai o compasso pela rua fora,
Sem freima, com prazer e devoção,
Com ordem, em festiva procissão.

À frente vai a cruz e uma senhora,
E outra porta se abre, ali na hora…
Até p’ró ano… e viva a tradição!

Madalena, V. N. Gaia,
domingo de Páscoa,

16 de abril de 2017

_____________________


Olha o compasso pascal,
Visitando a freguesia,
Nesta casa, é bom sinal,
Traz-nos a fé e a alegria.

Traz-nos a fé e a alegria,
Que todos bem precisamos,
É a Santa Páscoa o dia
Em que as forças renovamos.

Em que as forças renovamos,
Como seres humanos e cristãos,
Boas festas desejamos,
Pais, filhos, amigos, irmãos.


Pais, filhos, amigos, irmãos,
Vizinhos da Madalena,
Mais os de longe que aqui estão,
E quem não veio vai ter pena.

E quem não veio vai ter pena,
De neste ano faltar,
Mas fez esta cantilena,
Para com vós partilhar.

Para com vós partilhar
As coisas boas do Norte,
E a amizade reforçar
Com um abraço bem forte.


Lisboa e Madalena, V. N. Gaia, domingo de Páscoa,
27 de março de 2016, 10h30
__________________


Vem em abril este ano
O nosso pascal compasso,
Vem o sicrano e o beltrano,
A todos damos um abraço.

É já forte a tradição,
Desta gente aqui do Norte,
Abre a porta, pede a bênção,
A todos deseja sorte.

É um povo hospitaleiro,
Que sabe receber e dar,
Se na fé é o primeiro,
Não fica atrás no folgar.

Obrigados, nossos vizinhos,
Pela visita pascal,
E aceitem com carinhos
… As amêndoas deste casal.

(...) Madalena, 5 de abril de 2015
 
____________________

Páscoa em março, fome ou mortaço,
Diz o povo… Mas em Candoz,
Não há Páscoa sem compasso,
E não há gente como… nós!

Viva o compasso pascal
Que nos vem visitar,
Franqueando nosso portal,
Santas bênçãos nos quer dar.

Páscoa é festa com mensagem:
Triunfa a vida sobre a morte;
Segue o compasso a viagem
E a todos deseja…sorte.

Viva o compasso pascal
Que nos faz esta visita,
Vem por bem, não vem por mal,
Mas traz um saco prá… guita!

Sem guita não há foguetes,
Que é coisa que o povo adora,
Sem ovos não há omeletes,
Sem folar não me vou… embora!

Páscoa é festa da nossa vida,
É tradição cá do Norte,
Não há gente tão querida,
Alegre e de altivo… porte.

É casa de boa gente,
É povo abençoado,
Que gosta de dar ao dente
E se pela por anho… assado!

Parabéns às cozinheiras
Desta bíblica iguaria,
Elas são também obreiras
Desta nossa… alegria.

A todos, muito obrigados:
Sem uma farta e grande mesa,
Sem amigos e convidados,
Páscoa seria… tristeza!

(...) Quinta de Candoz, 1/4/2013

 ______________________

10 abril 2023

Manuscrito(s) (Luís Graça): Circadiana, a vida

 



















Quinta de Candoz > 9 de Abril de 2023 > Páscoa: a vida que sucede à morte.


Fotos (e texto): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




 

Circadiana, a vida

por Luís Graça


Circadiana,  a vida!...
Depois do solstício do inverno, virá o solstício do verão
e aos dias suceder-se-ão as semanas, os meses, os anos.

Circadiana, a vida!...
Pior que o suplício do inferno
é o pavor do eterno retorno.
É a eternidade, dizem-te,
que nos move ou demove ou comove, 
a eternidade ou a sua cruel ilusão,
os seus sucedâneos terrenos, efémeros, 
a fama, a honra, a glória,
 a vaidade, o ouro, os diamantes,
o elixir da juventude, a beleza,
o amor até que a morte nos separe,
o poder, orgástico, de mandar matar e morrer
talvez a paternidade e o egoísmo genético.

Circadiana,  a vida!...
Afinal todos os anos é Natal
e todos os anos por aqui  passa(va) o compasso pascal.
Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou,
a vida triunfa sobre a morte.

Circadiana,  a vida!...
Todos os anos, com sorte…
Exceto quando deixaste a tua terra e foste para a guerra:
perdeste a noção do dia e da noite,
dos dias, das semanas, dos meses, e das estações,
que eram duas, a do tempo seco e a das chuvas.

Circadiana, a vida!...
Disseram-te que o velho general
esteve à beira da tua cama no hospital:
- É uma subida honra, para qualquer mortal,
a sua visita, meu general ! –
terás tu dito mas, por favor, e por pudor, não ponhas isso
no teu “curriculum vitae”.
Esquece a Guiné, camarada, meu herói,
e os pauzinhos que gravaste na parede da caserna,
na contagem decrescente para o fim da tua (co)missão.

Circadiana,  a vida!...
Quando eras jovem, tinhas um calendário perpétuo, 
na tua mesinha de cabeceira,
na secreta esperança de que os dias não tivessem 24 horas,
não tivessem noite, não tivessem fim.
Depois, deixaste de te fiar nas leis imutáveis da natureza
e, todos as manhãs, tomavas o lugar de Sísifo
e pegavas na tua pedra de granito,
montanha acima, montanha abaixo!

Circadiana, a vida!...
E, se Deus quiser, a primavera há de chegar, 
e c0m ela as cerejeiras em flor,
e os melros que vão pôr os seus ovos 
nos arbustos de alecrim no caminho para a leira cimeira,
e as andorinhas que irão reconstruir o seu ninho 
na varanda da casa de cima.

E trazem histórias de coragem,
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África, quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS, nem de código postal, nem de carimbo das alfândegas.
São heroínas, sobreviveram a mais um ano,
fogem da guerra, e das alterações climáticas,
sem o aval nem a ajuda do alto comissário para os refugiados,
ou a benção dos imãs 
e dos demais representantes de Deus na terra.

Circadiana,  a vida!...
E todos os anos fazes anos
e haverá sempre um bolo de aniversário
e uma vela para soprares.
E oxalá nunca te falte à mesa
quem te cante os parabéns a você.
Mas o que é que tu sopras, afinal,
meu pobre feliz aniversariante ?
Sopras a vida, sopras a vela da vida, de fio a pavio!

Circadiana,  a vida!...
Até as almas têm estados, dizem-te, circadianos,
estados de alma, bipolares,
ora de euforia ora de depressão,
socalco acima, socalco abaixo...
Afinal, tão certo como dois e dois serem quatro,
à noite sucede o dia, 
e não há lua sem sol, nem maré alta sem maré baixa!

... Nem a morte sem  a vida.
Mas chorarás sempre  os teus mortos, 
até que as tuas lágrimas te sequem.

Circadiana, a vida, meu amor!...
A vida é pura repetição,
é o teu coração que bate forte, até à exaustão,
até a gente queimar a vela, de fio a pavio.

Circadiana a vida!
Carpe diem, meu amigo:
ora sabe a muito, ora sabe a pouco,
... a vida, sempre, armadilhada,
presa por um fio de tropeçar.

Última versão, Candoz, 9 de abril de 2023

Disponível também no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
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18 abril 2022

Viva o compasso pascal / Desta linda freguesia, / Fizeram-nos muito mal / Estes dois anos de pandemia

 






Marco de Cananveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 18 de abril de 2022 > O fotógrafo escondido por detrás da sua sombra. Visita do compasso pascal, que não se realizava há dois anos por causa da pandemia. 


Foto (e legenda): © Luís Graça  (2022). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Viva  o compasso pascal
Desta linda freguesia,
Fizeram-nos muito mal
Estes dois anos de pandemia.

Faltam beijos e abraços,
Mas lá iremos ao normal,
Hoje damos mais uns passos,
Viva o compasso pascal!

É uma antiga tradição
Que nos enche de alegria,
E reforça a união
Desta linda freguesia.

Andámos todos com medo
E com máscara facial,
Duas Páscoas sem folguedo
Fizeram-nos muito mal.

Sem compasso nem foguetório,
Sem convívio nem folia,
Nem sequer houve peditório
Nestes dois anos de pandemia.

Saúde, paz e alegria para todos e todas,
Obrigado em nome dos cá da casa.


Quinta de Candoz, 18 de abril de 2022


12 abril 2020

A Páscoa do confinamento e da saudade

Queridos/as irmãs, irmãos, cunhados/as, tios/as, primos/as:

 

Dizem que a distância faz esquecer…

Talvez, se for prolongada no tempo.

Mas agora, não é distância, é confinamento,

que nos foi imposto por uma pandemia…

 

E logo hoje que é Páscoa,

festa maior da nossa gente de Candoz.

E logo hoje que não nos podemos abraçar nem beijar,

cada um de nós confinados nas nossas casas.

 

Esta dramática circunstância aviva a saudade,

que nos faz lembrar, e lembrar cada um de vós,

com quem gostaríamos de estar,

hoje muito em particular…

 

É Páscoa, é abril, é primavera,

não haverá compasso, nem arroz pingado, nem foguetes,

nem o ruído nem a alegria de um mesa grande e farta.

 

Mas, daqui, do Sul, da Lourinhã,  de Alfragide, de Lisboa,

comungamos da esperança de, em breve,

nos podermos voltar a encontrar

e  sabermos, de viva voz,

como é que cada um de vós “toureou o corno do vírus”…

 

Hoje é dia de alegria também

pelos cinco mesinhos de vida da nossa Clarinha,

que ainda nada sabe dos males do mundo.

 

Estaremos, em pensamento, convosco.

E desejamos que rapidamente a gente

consiga, individual e coletivamente,

sair bem deste tempo de ameaça e de clausura.

 

Um cesto grande de abraços, chicorações, beijinhos… 

com uma lagrimazinha devidamente “higienizada”…

Luís e Alice (Lourinhã), Joana (Alfragide), João e Catarina (Lisboa)

12/4/2020

22 abril 2019

Viva o compasso pascal!

Viva o compasso pascal!


Mais um ano, mais uma visita
Deste compasso pascal,
É uma festa bem bonita,
E que nunca é igual.

E que nunca é igual,
Logo vem outro, se falta algum,
Renova-se o pessoal,
Que aqui somos todos por um.

Que aqui somos todos por um,
Na alegria ou na tristeza,
Na fartura ou no jejum,
Cabendo todos à mesa.

Cabendo todos à mesa,
Onde não falta o anho assado,
Nesta casa portuguesa,
Onde honramos o passado.

Onde honramos o passado,
O presente e o futuro,
Se alguém está adoentado,
Tem aqui um porto seguro.

Tem aqui um porto seguro,
Damos valor à amizade,
Às vezes o rosto é duro,
Mas o resto é humildade.

Mas o resto é humildade,
Viva o compasso pascal,
E a nossa fraternidade!...
Boa Páscoa, pessoal!

Boa Páscoa, pessoal,
Boa saúde e longa vida,
À Ti Nitas, em especial,
Que nos é muito querida!

Quinta de Candoz,
segunda feira de Páscoa,

22 de abril de 2019

02 abril 2018

Feliz Páscoa 2018


Já lá vem, em festa, p’la estrada fora,
O compasso pascal da freguesia,
Chega à nossa casa mesmo na hora,
E a todos saúda com alegria.



Mais do que a tradição, é a certeza
De que a Páscoa é também renascimento,
E há sempre mais um lugar à mesa,
Para nosso geral contentamento.


Se não for preenchido, é o dos ausentes,
E, em especial, dos nossos mortos queridos;
Aos que vieram e estão aqui presentes,



Saibam que nós ficamos muito honrados.
E, aos do compasso, diremos, reconhecidos:
Tenham um dia feliz, mesmo… estoirados!


Quinta de Candoz, 2 de abril de 2018,

Os donos da casa

27 março 2016

Páscoa 2016

É raro eu falhar, na Páscoa (e no Natal), a ida ao norte. Este ano, por um conjunto de circunstâncias, não me é possível lá estar. Mas não quis deixar de, à distância, me associar ao espírito festivo da Páscoa nas minhas 'tabancas' do norte... 

Acabei de fazer, de improviso, umas quadras que mandei, agora mesmo, quando a festa já está no ar... Sei que vou ter cartão amarelo por falta de comparência... mas espero que o árbitro releve a minha falta.

Qualquer que seja o significado que a Páscoa possa ter para cada um de nós, há nela uma mensagem de sentido universal e intemporal: a travessia da 'picada' [estrada ruim, trilho]  da vida, com todos os seus riscos, medos, minas e armadilhas, é bem mais fácil, se for feita em conjunto, de maneira solidária, partilhada... Mesmo sabendo todos nós, que o nascer e o morrer são os atos mais intrinsecamente solitários da vida humana...


Para as famílias Soares e Carneiro,
seus convidados
e compasso pascal da Madalena...

Para todos os homens e mulheres de boa vontade...



Olha o compasso pascal,
Visitando a freguesia,
Nesta casa, é bom sinal,
Traz-nos a fé e a alegria.

Traz-nos a fé e a alegria,
Que todos bem precisamos,
É a Santa Páscoa o dia
Em que as forças renovamos.

Em que as forças renovamos,
Como seres humanos e cristãos,
Boas festas desejamos,
Pais, filhos, amigos, irmãos.

Pais, filhos, amigos, irmãos,
Vizinhos da Madalena,
Mais os de longe que aqui estão,
E quem não veio vai ter pena.

E quem não veio vai ter pena,
De neste ano faltar,
Mas fez esta cantilena,
Para com vós partilhar.

Para com vós partilhar
As coisas boas do Norte,
E a amizade reforçar
Com um abraço bem forte.


Lisboa, domingo de Páscoa,
27 de março de 2016, 10h30

Luís Graça

05 abril 2015

Páscoa, 2015: visita do compasso à Madalena


Madalena, Vila Nova de Gaia, 5 de abril de 2015



Madalena, Vila Nova de Gaia, 5 de abril de 2015

Vídeos: L.G. (2015). Alojados em You Tube > Luís Graça



Viva o compasso da Madalena


Vem em abril este ano
O nosso pascal compasso,
Vem o sicrano e o beltrano,
A todos damos um abraço.

É já forte a tradição,
Desta gente aqui do Norte,
Abre a porta, pede a bênção,
A todos deseja sorte.

É um povo hospitaleiro,
Que sabe receber e dar,
Se na fé é o primeiro,
Não fica atrás no folgar.

Obrigados, nossos vizinhos,
Pela visita pascal,
E aceitem com carinhos
… As amêndoas deste casal.

Ana Carneiro e Augusto Soares, 
Madalena, 5 de abril de 2015

01 abril 2013

A Santa Páscoa de Candoz: Viva o compasso!

A Santa Páscoa de Candoz

Páscoa em março, fome ou mortaço,
Diz o povo… Mas em Candoz,
Não há Páscoa sem compasso,

E não há gente como… nós!

Viva o compasso pascal
Que nos vem visitar,
Franqueando nosso portal,
Santas bênçãos nos quer dar.

Páscoa é festa com mensagem:
Triunfa a vida sobre a morte;
Segue o compasso a viagem
E a todos deseja…sorte.

Viva o compasso pascal
Que nos faz esta visita,
Vem por bem, não vem por mal,
Mas traz um saco prá… guita!

Sem guita não há foguetes,

Que é coisa que o povo adora,
Sem ovos não há omeletes,
Sem folar não me vou… embora!

Páscoa é festa da nossa vida,

É tradição cá do Norte,
Não há gente tão querida,
Alegre e de altivo… porte.

É casa de boa gente,
É povo abençoado,
Que gosta de dar ao dente
E se pela por anho… assado!

Parabéns às cozinheiras

Desta bíblica iguaria,
Elas são também obreiras
Desta nossa… alegria.

A todos, muito obrigados:

Sem uma farta e grande mesa,
Sem amigos e convidados,
Páscoa seria… tristeza!

Os donos da casa,
Quinta de Candoz, 1/4/2013

12 abril 2009

Páscoa 2009 (2): Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou!

Candoz > 12 de Abril de 2009 > A visita do compasso pascal... A casa estava cheia de familiares e amigos... Lá fora chovia... mas havia calor nos nossos corações... 

Este ano tivemos mais gente de Lisboa: além da Alice, do Luís e da Joana, os seus amigos Arq José Paradela, Dra. Matilde e o seu filho Jorge... (Eles ficaram encantados com a hospitalidade, a espontaneidade e a alegria da nossa gente).

Vídeo e texto: © Luís Graça (2009). Direitos reservados

Páscoa 2009 (1): A visita do compasso


A Páscoa, este ano, foi molhada. O compasso visitou-nos, na 2ª feira, já por volta das 15h... Ao almoço não podia faltar o arroz de forno. O anho, em cada ano que passa, está sempre melhor do que o do ano passado. Graças às cozinheiras que a idade vai apurando. Ou então devido à saudade destes sabores. Chovia. O que não impediu a festa... Os foguetes... A família e os amigos, muitos vindo de longe... O compasso, dizem, é tradição sobretudo minhota e duriense que tenderá a acabar. Discutia isso com o Gusto que, segundo as leituras que andou a fazer, faz remontar a origem do compasso pascal à legislação liberal de 1869 que extendeu a desarmotização dos chamados bens de mão morta aos passais...

A alienação dos passais provocou a pobreza do padre da aldeia. O compasso pascal terá sido uma forma expedita, de iniciativa dos paroquianos, para compenssar a perda de receitas do pároco. As esmolas que as famílias põem no saco do compasso, no final da visita, reverteria originalmente para o bolso do padre.... 

As coisas hoje já não são exactamente assim... A visita pascal é um pretexto também para a afirmação social, o exibicionismo dos vizinhos e parentes mais ricos, que são capazes de gastar uns bons contos de réis em foguetório... Mesmo com crise, este ano, o fogo esteve à altura da tradição...

Vídeo e texto: © Luís Graça (2009). Direitos reservados

14 outubro 2005

É domingo de Páscoa, na aldeia!



Texto de Luís Graça, originalmente publicado no Blogue-Fora-Nada > 13 Abril 2004 Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

Texto revisto nesta data.


1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas.

A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacroprofano que me dizem ser mais celta e visigótico do que mouro.

2. Um citadino, como eu, não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham.




Um citadino não tem o privilégio de ouvir falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que autoestradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos.

Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Já fumegam as chaminés enquanto ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais.

In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses da região, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar:
- Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou! - diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacroprofana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris.




Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moínhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. 

O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos, proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as autoestradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete, oito ou mais gerações, que os seus registos só vão até 1820. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.




6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte.

Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacroprofano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo.

E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso:

- Dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes de Viadores.




7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS:
- Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!.

Créditos fotográficos: © Luís Graça (2005)