25 julho 2023

A Nossa Quinta de Candoz e a nossa querida Nitas (1947-2023)




















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Marco de Canaveses  >  Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 15 de Julho de 2023 

A Nossa Quinta de Candoz

A casa, 
a loja,
as pedras, 
os muros, 
o chão, 
as minas, 
os carvalhos, 
os castanheiros, 
os socalcos,
as letras, 
os carreiros,
a levada,
as vinhas,
as ramadas,
os montes... 

A Quinta de Candoz,
na posse da família Ferreira Carneiro, 
há pelo menos dois séculos. 
Uma estória de loas e cantigas, 
mas também de trabalhos (es)forçados. 
De pão e vinho sobre a mesa. 
De amor e de amizade. 

Rosa, Chita, Nitas (1947-2023), Zé, 
quatro dos Ferreira Carneiro, da 5ª geração,
mais as respectivas caras-metade
 (Quim, Luís, Gusto e Teresa). 

Pais fundadores: 
José Carneiro (1911-1996) & Maria Ferreira (1912-1995), 4ª geração

(...) João Ferreira (1821-1897) & Mariana Soares (1822-1895), 1ª geração

Fotos (e texto): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. Mensagem do coeditor Luís Graça com data de ontem;

Meus / minhas queridos / as, Alice, Gusto, Zé, Rosa, Tiago, Filipe, João, Joana, Zezinha, demais cunhados e sobrinhos (sem esquecer o nosso Adriano que já é há muito da nossa família):

Candoz tem sempre mais encanto quando a gente lhe diz adeus, fecha o portão de ferro e regressa à nossa casa habitual, no Porto ou em Lisboa...

Todos desejamos e procuramos que continue bonita, mesmo sabendo quantos trabalhos (es)forçados isso tem implicado ao longo da vida da nossa e das anteriores gerações...

Mas há hoje, na magia daquele lugar e da sua memória, uma presença / ausência que não nos larga, a nossa querida e chorada Nitas...

Em todo o caso, acho que ela gostaria de ver e rever, no seu tablet, estas imagens que colhi há dias deste nosso cantinho,feito afinal de tantos pequenos (en)cantos, e que ela tanto acarinhou em vida...

E que eu me permiti partilhar, para um público mais vasto, no meu blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (sigam o link, até para ler eventuais comentários), ncluindo amigos que nos admiram e respeitam pela sabedoria, resilièncvia e coesão com que, tem ao longo já de meia vida, conseguido ultrapassar tantos obstáculos, contrariedades, desânimos, problemas e crises...

A Nitas foi sempre o elo mais forte da cadeia que nos uniu a todos. Uma pequena grande rainha, no seio da nossa família alargada... E acredito que, lá do "alto, ela (e os nossos antepassados mais próximos, os nossos "pais-fundadores") nos continua a proteger e a inspirar.

Beijinhos e xi corações. Luís

PS - Junto duas fotos tiradas no cemitério, no passado dia 15.





24 maio 2023

Para além da morte: Em memória da minha querida mana Nitas (Candoz, 15 jan 1947 – Porto, 24 mar 2023)



Foto: LG (2018)



Para além da morte… Em memória da minha querida mana Nitas (Candoz, 15 jan 1947 – Porto, 24 mar 2023)


Minha querida mana Nitas, passam hoje dois meses que a tua luzinha se apagou no meu firmamento…

Que saudades eu tenho de ti … Dois meses ?!... Para mim, para todos aqueles que te amavam e que te perderam, é um pesadelo, uma eternidade.

Mas eu queria dar-te notícias da Terra da Alegria, como diz o meu poeta. Fazem-me tanta falta as nossas longas conversas ao telemóvel… Lembras-te ?!...

Umas, a horas mortas, já eu estava na cama, e tu com insónias… ou à espera que chegasse o João Pestana… Sempre foste mocho, deitavas-te tarde e levantavas-te tarde…
Outras vezes, comigo e o Luís, no carro, a caminho de Lisboa, ou no regresso à Lourinhã. 

Púnhamos a conversa em dia, querida Nitas. Fazia-nos tão bem! Falávamos dos filhos, dos netos, dos maridos, dos manos, dos sobrinhos, eu sei lá… As mulheres, e para mais nós, que éramos duas almas gémeas, têm sempre com que conversar…

Infelizmente, nos últimos anos, falávamos mais das doenças de uns e outros…

Também foi bom para ti, Nitas, que sofrias tanto nos últimos tempos… Mas quando vinhas do hospital, depois dos tratamentos ou das transfusões, nem voz tinhas para falar a ninguém, nem a mim… Sim, querida mana, chegava a ser muito penoso… E eu muito sofria contigo… Mas no dia seguinte, já estavas toda rabitesa…Foste uma heroína...

O teu anjo da guarda, o dr. Ricardo Pinto, fazia milagres… Foi ele que te prolongou a vida… Ele e o teu Gustito,  o teu cuidador extremoso, inexcedível, incansável… Mais a tua força de vontade, a tua fé, a tua coragem… 

Ah!, Nitas, ainda podias cá estar, se não fora aquela maldita queda e o hematoma na cabeça… Eu sei que sempre me dizias, “Chita, todos temos a nossa hora”… A tua chegou, infelizmente,  bem mais cedo do que tu e nós queríamos.

E se tu amavas a vida, o teu Gustito, os teus filhos, os teus netos, a tua família!... Fazes-me chorar, minha mana querida!... Ainda choro pelos cantos… Sinto tanto a tua falta… E sinto raiva por te perder, ainda mais por a morte, injusta, te ter levado primeiro que a todos nós, irmãos, mais velhos do que tu…

Eu sei que tu,  lá do alto, bem intercedes e velas por todos nós… Mas eu queria poder tocar-te, ver-te, beijar-te, dar-te muitos abracinhos…Adormecer a falar ao telemóvel contigo…

Foi tudo junto, a pandemia, a tua doença, mais a distância, a separar-nos… A vida nunca sai como a gente a quer… Prega-nos partidas, troca-nos as voltas… Vê a minha sina: queria, agora poder viajar, como fazíamos antigamente, contigo, o teu homem, o meu… Mas, olha, estou aqui presa por causa dele, que tem de fazer fisioterapia todos os dias…

E o teu Gustito, coitado, esse também não está nada bem… Já não estava bem, quando o deixaste… Sei que ele continua em grande sofrimento, inconsolável e quase incomunicável… Temos trocado mensagens ao telemóvel e, mais raramente, falado.

Ah!, mana, não há palavras que nos consolem!...Mas não eu não quero desistir de poder falar contigo… Preciso de falar contigo… Dava um ano de vida para poder estar contigo um dia, algures no firmamento… 

Como diz o avô para a neta, explicando a morte em termos poéticos, “foste para a estrelinha”… E eu faço um esforço mental para te imaginar que estás algures numa estrelinha… Aponto o dedo ao céu, à noite, e sou capaz de te “ver”… Mas em milhões de milhões de estrelas, eu ainda não descobri qual é a tua…

Sei que não importa, é a estrelinha que a gente quiser… Posso imaginar que vives numa delas, ou mesmo em todas… Prometo ir mais vezes â varanda, à noite, para “falar contigo”. Acredito agora que me podes ouvir… mesmo que eu não te veja nem oiça… Vamos combinar, mana, fazer mais vezes este diálogo imaginado… 

Passaram dois meses, mana querida, e eu ainda não fiz (nme consigo fazer) o luto da tua perda!...

Lourinhã, 24 de maio de 2023, 

Com mil beijpos e chicorações da tua mana  Chita (e do Luís).

10 abril 2023

Manuscrito(s) (Luís Graça): Circadiana, a vida

 



















Quinta de Candoz > 9 de Abril de 2023 > Páscoa: a vida que sucede à morte.


Fotos (e texto): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




 

Circadiana, a vida

por Luís Graça


Circadiana,  a vida!...
Depois do solstício do inverno, virá o solstício do verão
e aos dias suceder-se-ão as semanas, os meses, os anos.

Circadiana, a vida!...
Pior que o suplício do inferno
é o pavor do eterno retorno.
É a eternidade, dizem-te,
que nos move ou demove ou comove, 
a eternidade ou a sua cruel ilusão,
os seus sucedâneos terrenos, efémeros, 
a fama, a honra, a glória,
 a vaidade, o ouro, os diamantes,
o elixir da juventude, a beleza,
o amor até que a morte nos separe,
o poder, orgástico, de mandar matar e morrer
talvez a paternidade e o egoísmo genético.

Circadiana,  a vida!...
Afinal todos os anos é Natal
e todos os anos por aqui  passa(va) o compasso pascal.
Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou,
a vida triunfa sobre a morte.

Circadiana,  a vida!...
Todos os anos, com sorte…
Exceto quando deixaste a tua terra e foste para a guerra:
perdeste a noção do dia e da noite,
dos dias, das semanas, dos meses, e das estações,
que eram duas, a do tempo seco e a das chuvas.

Circadiana, a vida!...
Disseram-te que o velho general
esteve à beira da tua cama no hospital:
- É uma subida honra, para qualquer mortal,
a sua visita, meu general ! –
terás tu dito mas, por favor, e por pudor, não ponhas isso
no teu “curriculum vitae”.
Esquece a Guiné, camarada, meu herói,
e os pauzinhos que gravaste na parede da caserna,
na contagem decrescente para o fim da tua (co)missão.

Circadiana,  a vida!...
Quando eras jovem, tinhas um calendário perpétuo, 
na tua mesinha de cabeceira,
na secreta esperança de que os dias não tivessem 24 horas,
não tivessem noite, não tivessem fim.
Depois, deixaste de te fiar nas leis imutáveis da natureza
e, todos as manhãs, tomavas o lugar de Sísifo
e pegavas na tua pedra de granito,
montanha acima, montanha abaixo!

Circadiana, a vida!...
E, se Deus quiser, a primavera há de chegar, 
e c0m ela as cerejeiras em flor,
e os melros que vão pôr os seus ovos 
nos arbustos de alecrim no caminho para a leira cimeira,
e as andorinhas que irão reconstruir o seu ninho 
na varanda da casa de cima.

E trazem histórias de coragem,
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África, quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS, nem de código postal, nem de carimbo das alfândegas.
São heroínas, sobreviveram a mais um ano,
fogem da guerra, e das alterações climáticas,
sem o aval nem a ajuda do alto comissário para os refugiados,
ou a benção dos imãs 
e dos demais representantes de Deus na terra.

Circadiana,  a vida!...
E todos os anos fazes anos
e haverá sempre um bolo de aniversário
e uma vela para soprares.
E oxalá nunca te falte à mesa
quem te cante os parabéns a você.
Mas o que é que tu sopras, afinal,
meu pobre feliz aniversariante ?
Sopras a vida, sopras a vela da vida, de fio a pavio!

Circadiana,  a vida!...
Até as almas têm estados, dizem-te, circadianos,
estados de alma, bipolares,
ora de euforia ora de depressão,
socalco acima, socalco abaixo...
Afinal, tão certo como dois e dois serem quatro,
à noite sucede o dia, 
e não há lua sem sol, nem maré alta sem maré baixa!

... Nem a morte sem  a vida.
Mas chorarás sempre  os teus mortos, 
até que as tuas lágrimas te sequem.

Circadiana, a vida, meu amor!...
A vida é pura repetição,
é o teu coração que bate forte, até à exaustão,
até a gente queimar a vela, de fio a pavio.

Circadiana a vida!
Carpe diem, meu amigo:
ora sabe a muito, ora sabe a pouco,
... a vida, sempre, armadilhada,
presa por um fio de tropeçar.

Última versão, Candoz, 9 de abril de 2023

Disponível também no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
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