Acabam de perder um filho, um irmão, um pai, um sobrinho. Não há dor maior do que essa. É uma parte de vós que a morte vos rouba. E vão passar a ficar amputados, para sempe, dessa parte de vós. O Miguel, filho, irmão, pai, sobrinho, era essa parte de vós.
Nada será como dantes. Há o antes e depois. Quando a morte nos bate à porta, é para entrar e levar um de nós. É a tragédia que se abate sobre a família. Tudo foi tentado para arrebatar o Miguel das garras da morte. Ela foi mais forte que a medicina, a ciência, o IPO, os profissionais de saúde que o trataram, e aqueles que rezaram por ele, que cuidaram dele, que foram seus amigos.
O Miguel foi aquele menino que vimos crescer e fazer-se homem e tornar-se pai, ao longo dos mais de 40 anos que já levam o nosso convívio com a vossa família, no Porto e na Madalena. Não o vamos ver mais à mesa, na festa de Natal, mas no próximo, se nós lá chegarmos, e se nós pudermos passá-lo convosco, aí na Madalena, vamos pôr o seu lugar à mesa, em lugar de honra.
E há um difícil luto a fazer. Mas que tem de ser feito. Para que o Miguel fique, em paz, na vossa e na nossa memória como filho, irmão, pai, sobrinho, primo, companheiro, amigo. O Miguel foi um exemplo, nobre, estoico, de resiliência, de resistência e de dignidade na doença, na dor e na morte.
Infelizmente, ele parte para a sua última viagem ainda em plena pandemia de COVID-19 quando não nos é possível estarmos todos juntos para o último adeus, e darmo-nos conforto uns aos outros através dos nossos beijos e abraços.
Vamos recordar o Miguel como um homem bom, um filho, um irmão, um sobrinho, um pai, um amigo, que tinha ainda meio caminho da vida para fazer, com muitos sonhos e projetos, e sobretudo com todo o direito a ver a sua querida Maria a crescer e a tornar-se uma grande mulher.
Vocês sofreram muito com a sua doença. E estão a sofrer com o seu desaparecimento físico. E os próximos tempos vão ser de um grande vazio. Nada trará, porém, o Miguel de volta, a não ser as boas memórias que temos dele, desde menino. É já grande a saudade que temos dele.
Vamos continuar a falar do Miguel, como se ele continuasse a conviver connosco e a falar connosco, com aquela serenidade reservada mas sempre cordial com que ele gostava de estar em grupo. Faz-nos bem falar com os nossos queridos mortos. O Miguel vai continuar a fazer parte do circulo íntimo da família e dos amigos.
Até sempre, querido Miguel!
Luís e Alice (, com um chicoração muito terno também do João e da Joana, que estão em Lisboa)
Lourinhã, 27 de maio de 2020





