Mostrar mensagens com a etiqueta 1970. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1970. Mostrar todas as mensagens

08 setembro 2012

Cartas de Camabatela (Angola, 1970/71): do Zé para a mana Chita...



Candoz > 23 de agosto de 2012 > O Zé, com o seu afilhado João, filho mais novo da sobrinha Susana... O Zé, reformado dos seguros,  também já é avô, tem um belo neto, o Diogo, filho do Pedro.



Lourinhã, Praia da Areia Branca > 17 de agosto de 2012 > A mana Chita, na hora do pôr do sol... Em 1973 ela veio trabalhar para a Lourinhã, por um mês, para suprir a falta de um elemento da equipa local da Junta de Colonização Interna...

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


1. O Zé faz hoje anos. 64. Nasceu no dia da festa do Castelinho, a 8 de setembro de 1948. O mais novo de 7 irmãos, 3 rapazes e 4 raparigas (das quais uma morreu, ainda criança).

Como todos os rapazes da sua geração, foi chamado a servir o país, durante a guerra do ultramar. Esteve em Angola. Foi 1º  Cabo Transmissões de Infantaria, de rendição individual, numa companhia que guardava os cafezais lá região, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe. Hoje, Camabatela ou Kamabatela, sede do município de Ambaca, pertence à província de Kwanza Norte. CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar. A CCAÇ 312 estava Belongongo e CCAÇ 311 em Mussungo.

O Zé  não parece ter grandes saudades do seu tempo de tropa e de guerra. Recebia e escrevia muitas cartas e aerogramas, isso sim. Das que recebeu (dos manos, pais, cunhados,  amigos, amigas ...) guardou-as todas, e arquivou-as, uma a uma, por autor e data... S´da Chita, tem mais de 100, no seu arquivo. Essa coleção é já um hoje um fonte de informação interessante não só para a história da família mas também sobre o quotidiano da guerra em África, e das necessidades e preocupações que os nossos militares deixavam transparecer. As saudades da terra eram sempre mais do que muitas, as referências às festas anuais, à matança do porco, às vindimas, ao Natal, etc., eram frequentes.  Era isso que fazia lembrar a pátria distante... Nos dois anos que lá esteve, nunca veio a casa, que as viagens eram caríssimas.

Quisemos fazer-lhe uma pequena surpresa, selecionando algumas das cartas que ele mandou à mana Chita, e que felizmente chegaram até nós (apenas umas 20 e tal). Muitas outras ter-se-ão perdido, com o tempo. A Alice já trabalhava e andou por vários sítios. Aqui vai então uma pequena antologia de excertos dessas cartas, com os parabéns natalícios da mana Chita (e do Luís). Para o Zé, que merece tudo, muita saúde e longa vida!...AC / LG





2. Cartas de Camabatela: do Zé Carneiro para a mana Chita (1970/71) > Excertos

Remetente: José Ferreira Carneiro, Caixa postal 150, Camabatela, Angola

Camabatela 19/05/70 

Querida mana.

Aqui me tens de novo, conversando como estivesses a meu lado. Começo por te desejar óptima saúde na companhia das tuas colegas e de toda a nossa família.

Já deves ter conhecimento de que estou de novo no destacamento. Cá estou a passar mais 45 dias de férias no mato…

Quanto ao meu castigo, tenho-te a dizer que ficou tudo em águas de bacalhau. O Capitão chamou-me e só me disse que não devia ter feito a troca sem o avisar. Escusas de te preocupar, está tudo bem.

Por hoje é tudo. Recebe do teu mano um xi coração muito forte, adeus até 1971. 



Camabatela 16/06/70

Querida mana Chita

Estou a escrever uma carta porque os aeros [aerogramas] chegam a demorar cerca de um mês até chegarem ao seu destino, isto quando não são devolvidos. Estou mesmo muito aborrecido com isto. Pensei agora só escrever cartas, mas de 15 em 15 dias. Assim as cartas só demoram 3 dias a chegar a vossa mão. Tens que escrever é para a caixa postal. Que achas? Assim não repetimos as notícias. Quando receberes carta minha, peço-te que telefones aos pais para ficarem descansados. Está bem assim?

Já te mandei o nº dos sapatos por 4 vezes e ainda continuas a pedir!.. Isto quer dizer que não tens recebido o correio.

Então como anda a tua saúde? Iniciei a carta sem fazer aquela lenga, lenga de sempre… Quanto a mim, desde já te digo que estou forte e que gozo de boa saúde.

Termino com um xi coração muito apertado do teu mano que te adora. Bjs 


Camabatela 04/07/70

Agora mesmo acabo de receber mais uma carta tua, juntamente com uma encomenda que trazia os sapatos e a camisa. Cada vez as encomendas estão a demorar menos tempo. Comparar com as primeiras que foram enviadas!...

Os sapatos e a camisa ficam-me a matar, só não queria que mos oferecesses. Tens mais em que gastar o dinheiro, mas aceito. Esta não está esquecida!

Já estou de novo em Camabatela, já estava cansado de tanto capim. Não posso dizer mal, porque desta vez engordei 3kg e aqui perco sempre peso.

Faz hoje 11 meses que embarquei em Lisboa, já pouco mais falta do que um ano, e um já se passou!...


Camabatela 18/11/70

Depois de ter chegado de uma operação que durou 5 dias, aqui estou a dar-te notícias.

Hoje mesmo parto novamente para o mato, onde vou passar o Natal e talvez o Ano Novo. Desta vez calhou-me a mim, o ano passado foram os meus colegas.

Com isto, estou quase a entrar no ano da peluda [, fim da comissão e passagem à disponibilidade]. Cada vez falta menos. Oxalá que este termine sem problemas.

Apesar de ainda não saber o que vou fazer quanto ao meu futuro de vida, não me sinto com ideias de meter o xico….

Por aqui vou ficar, mandando cumprimentos para todos os nossos vizinhos, as tuas colegas, e tu do mano muito amigo, um forte xi coração. 


Camabatela 14/01/71

Aproveito estar uma grande trovoada e chuva para te escrever, porque assim as comunicações não funcionam, tenho que desligar os aparelhos.

A encomenda que mandaste, chegou dois dias depois do Natal. Chegou tudo bem. As castanhas começamos a comê-las e só terminamos quando acabaram. Sabes uma coisa? O bolo Rei não tinha fava!

Já só faltam 7 meses! Isto vai com calma.

Enquanto vós estais aí com grandes nevões, (segundo dizem os jornais), por aqui a temperatura é agradável, só as chuvas é que são esquisitas.

Já estou de novo em Camabatela. Já estava saturado de estar no mato e de ver tanto capim.

Acompanhado duma boa musiquinha, consegui estar contigo no pensamento.

Agora que o temporal já lá vai, tenho que regressar ao trabalho e ligar os aparelhos que já me provocam raiva só de olhar para eles. Tenho que estar em forma.

E assim me despeço com um forte xi coração do teu mano amigo. Adeus e até Agosto ou Setembro.


Camabatela 15/02/71

Querida mana,  não calculas como eu fiquei ao ler a tua carta e me falavas da matança do porco. Aquelas fêveras e os rojões de que falavas. Não continha a minha cabeça e os meus pensamentos. Pareciam o Rio Douro quando traz uma enchente das chuvas. O mano António também me falou do mesmo.

Sabes uma coisa? Estou muito, muito cansado. Andei 3 dias e 3 noites no mato a andar sem poder dormir e ainda carregado com o respectivo rádio. A roupa molhou-se e secou-me no corpo por 3 vezes. Foi por esta razão que te demorei mais a escrever.

Querida mana, quanto ao que vou fazer quando acabar a tropa, o mais certo é eu ir estudar. Sem isso eu não tenho possibilidades de ter um emprego digno. Já falei com o Capelão para me colocar como Perfeito no Seminário, assim já podia estudar e trabalhar. 


Camabatela 17/05/71

Espero que esta minha carta te vá encontrar de óptima saúde, bem como toda a nossa família.

De facto tens razão em dizer que estou a esquecer-me um pouco de voz, mas não. Nada tem acontecido de grave por cá. Tudo corre pelo melhor.

Não te devia dizer, mas já estou de novo no mato. Esta estadia aqui, será a última para completar a minha comissão.

Não estejas preocupada que eu aqui no mato só tenho como rival o isolamento. De resto tudo é melhor do que na vila de Camabatela.

Quando me falas do que vou fazer quando regressar. Nada te sei dizer, estou a ver tudo muito escuro, mas na lavoura eu não quero ficar.


Camabatela 14/06/71

Querida mana.

Só hoje recebi a tua carta e logo te respondo. Parece impossível que as cartas demorem tanto tempo. Entre tu escreveres e eu receber, chegam a demorar 15 a 20 dias. Chegamos a estar 20 dias sem correspondência o que é muito duro para quem está aqui. As coisas ainda pioram mais quando estamos no destacamento (mato) que chegamos a estar 45 dias.

Também penso o mesmo que tu, que sou preguiçoso, que já não tenho saudades vossas, etc. etc. mas o que interessa é que só faltam 50 dias para isto acabar.

Vou te contar um segredo: Andei a fazer umas economias para comprar uns presentes para vos levar, mas acontece que um colega que sabia do meu mealheiro, foi lá e roubou-mo. Eram 2.500$00. Este colega foi-me falso e ando muito triste, mas tenho que esquecer. Depois quando eu chegar, te contarei melhor como tudo aconteceu.

Gostava de chegar aí e tu estares ainda de férias, seria bom, mas a tropa é que manda!..


Camabatela 04/08/71 


É precisamente o dia que devia terminar a minha comissão e que te escrevo para desta forma estar em contacto contigo.

Aquilo que desejas saber, ainda não é desta. Porque apesar de ter terminado a minha comissão, ainda não chegou o substituto para me render, mas como há falta de pessoal tenho que aguentar. Com a graça de Deus tudo vai acabar bem.

Desta vez a minha carta levou pouco tempo a chegar aí. Nesse mesmo dia escrevi também a mana Nitas.

Desculpa não escrever mais, mas estou cheio de sono.

Um forte abraço de saudades do teu mano Zé

29 agosto 2012

José Carneiro (1911-1996), construtor civil de ramadas


Foto nº 1 - Duplicado de recibo de 30 de dezembro de 1953

José Carneiro (1911-1996) exerceu, durante décadas, a atividade de “construtor civil de ramadas”, vulgo ramadeiro. Era uma atividade sazonal, que conciliava com a de agricultor e também, mais tarde, de negociante de uvas. Tinha fama de ser exigente para com os seus trabalhadores, e oferecer aos seus clientes garantias de obra acabada, bem feita e duradoura.

Tanto quanto sei, foi ofício que herdou do pai, e que foi continuado pelo irmão mais velho, António Carneiro, nascido em 1909 e já falecido (em data que não posso precisar; 1974 ou 1975, diz a Alice). José era o irmão mais novo da família Carneiro, de Ribeirinho. O pai deve ter morrido em 1929, quando ele tinha 17 ou 18 anos. O pai terá começado a trabalhar em ramadas na Casa da Igreja (ou de Paredes). O José trabalhou com o seu mano António como ramadeiro, até casar, em 1938. Depois estabeleceu-se por conta própria.

Devia estar inscrito como “construtor civil de ramadas” na repartição de finanças do Marco de Caneveses, e como tal sujeito a contribuição industrial, embora possivelmente isento. Não há documentos, no seu espólio, comprovativos da contribuição industrial. Pagava, entretanto, o imposto municipal de "prestação de trabalho", que existiu até ao 25 de abril

 Passava recibos dos serviços prestados, quando lhe eram pedidos. Um dos livros de recibos que nos chegou às mãos abarca uma década de atividade (1952-1962). O livro deveria ter 100 recebidos (original e duplicado). O nº de duplicados que contámos é de 90. Faltam portanto 10. (Segundo o Zé, seu filho mais novo, e que trabalhou com ele na década de 1960, alguém, um amigo,ter-lhe-á sugerido que mandasse fazer, numa tipografia do Marco, duas cadernetas de recibos; uma delas  ficou por estrear).

Os recibos eram passados pelo próprio, escritos a tinta azul, numa letra certinha de mais para quem só tinha a 3ª classe. Temos, no seu espólio, duas canetas fininhas, de aparo, que ele utiliazava em casa. Raramente usava papel químico, pelo que os duplicados eram também escritos a tinta. Os duplicados estão numerados até ao nº 19. Depois disso, deixa de haver numeração. Faltam os duplicados nº 1 a 4, 7, 14, 17 e 18.

O primeiro (recibo nº 5) data de 4 de fevereiro de 1952 e o último, de 28 (ou 22?) de fevereiro de 1962.

A equipa de ramadeiros era flexível, variando entre 3 a 7, incluindo o próprio construtor e pelo menos um dos seus filhos (primeiro o mais velho, o António, e depois o Manuel Ferreira Carneiro e, mais tarde, nos anos de 1963 a 1967, o José Ferreira Carneiro, o benjamim da família). 

Em geral, o construtor ganhava o dobro dos seus oficiais. Os honorários do construtor vão, nesta época (em que praticamente não havia inflação) , entre os 30 e os 50 escudos, dependendo do cliente e da distância da obra em relação ao local do estabelecimento principal (que era Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses). As ferramentas eram dele. O material (esteios, em pedra, e mais tarde em cimento, bem como o fio de arame) eram fornecidos pelo cliente (, o proprietário).

Durante toda esta década a equipa de ramadeiros era variável, de acordo com a dimensão da obra e a disponibilidade do pessoal. Mas há elementos que são mais ou menos constantes:

(i) José Carneiro;

(ii) José de Sousa ou “Zé de Celeiro” (residia em Ambrões; ganhava mais do que os outros, presumindo-se que fosse o mais experiente e desembaraçado: em geral, em termos de grelha salarial, havia uma diferença de 5 a 7,5 escudos entre ele e os restantes oficiais; acabaria de estabelecer-se por conta própria, no início dos anos 60; nessa altura, por volta de 1961, ganhava quase tanto como o patrão: por ex., 45$00, cinco escudos menos que o patrão, e dez escudos mais do que os restantes companheiros);

(iii) António Vieira (um nome constante ao longo deste período, começou por ganhar 20$00 em 1952 e 30$00 e 32$00 em 1962; era muito amigo do José Carneiro, e pessoa da sua confiança);

(iv) Manuel de Sousa:

(v) Francisco de Sousa;

(vi) Armando Cardoso (desde 1954);

(vii) António Vieira Couto (, de Viadores)

(viii) Francisco Vieira Leitão

(ix) José Ferreira Carneiro (às vezes, coadjuvado pelo irmão; era sobrinho do patrão)…

Outros nomes (por ordem alfabética), que trabalharam com José Carneiro ao longo destes anos (1952/62): Adriano Carneiro, Agostinho Ribeiro, Américo Ferreira Carneiro (sobrinho do empresário), António Almeida, António Fernandes, António Monteiro, António Peixoto, Ernesto M. Marques, João Magalhães, Joaquim Barbosa, Joaquim Madureira, Joaquim M. Mendes, Joaquim P. Lucas, José Soares (Nogueira), Manuel Barbosa, Manuel Couto, etc.

Em 1954, o filho mais velho do construtor, o António Ferreira Carneiro, ganhava 15$00, menos de metade que o pai (40$00), enquanto os restantes oficiais ganhavam 20$00, numa empreitada na Casa de Manhuncelos (Data: 19/12/1954. Valor total do recibo: 595$00). 

O António deve ter deixado de trabalhar com o pai por volta dos finais de 1957, altura em que emigrou para o Brasil (já em 1958), sendo substituído por outro filho, o Manuel Ferreira Carneiro, que nos anos de 1958/59 ganhava 18$00, passando a 20$00 em 1960 , e depois 23$00, em 1961, e 25$00/26$00, em 1962… (O Manel irá depois para o Porto, onde trabalhou numa fábrica e se casou, antes de emigrar para França).

Poucos recibos, desta época, ultrapassam o valor de 1 conto de réis. Um deles diz respeito a uma obra em Vila Boa de Quires, no concelho do Marco de Canaveses, tem data de 29/11/1953 e está assim discriminado:

Nome
Dias
Salário
Total
José Carneiro
18
50$00
1900$00
José de Sousa
18
27$50
495$00
António Vieira
18
20$00
360$00
António Couto
18
20$00
360$00
António S. Almeida
18
20$00
360$00
Francisco V. Leitão
18
20$00
360$00
José F. Carneiro e Luís (?)
14
20$00  (?)
266$00


Soma
4011$00

 Nesta data os honorários do construtor atingiam o máximo (50$00) deste período, o mesmo que cobrava no final, em 1962… A estes honorários a que acrescentar os dos filhos, que trabalham gratuitamente para a casa... Ele teria tabelas diferentes… para os “ricos” e os “pobres” (amigos, vizinhos…).

Num recibo sem data (mas do ano de 1956), referente a uma obra numa ramada do sr. Leite de Viadores, no valor de 215$00, o construtor  contabilizou apenas os dias (3) do seu pessoal (3), a 20$00 por dia (António Vieira, António Cardoso, e António Almeida), mais 1 do António Couto (20$00) e outro dia do Manuel Couto (15$00). Na parte que lhe tocava, escreveu o seguinte: José Carneiro, 1 dia, grátis.

O sr. Leite de Viadores – diz a Alice, sua filha  – era “fidalgo”, tinha rendeiros, várias quintas, era casado com uma professora, e tinha duas filhas, que iam à missa “todas pintadas”, e com lugar especial na igreja, apartadas do resto do provo cristão… Era amigo do José Carneiro. Segundo o Zé, este sr. Leite será o mesmo que lhe vendeu a propriedade da Carreira Chã, por volta de 1959, salvo erro, por 110 contos.

O José Carneiro também tinha “deferências” para com a Casa de Paredes (ou da Igreja), que era de gente “fidalga”, os maiores proprietários da freguesia, que faziam o favor de ser “seus amigos” (muito em especial a Dona Maria do Carmo, que morreu já depois do 25 de abril).

Na altura das vindimas, geralmente em outubro, o José Carneiro era contratado como “feitor do vinho”, supervisionando a descarga das uvas e a feitura e a medição (“feitoria”) do vinho nos lagares das diversas quintas da Casa da Igreja, arrendadas em regime de parceria agrícola (e anualmente renováveis pelo São Miguel).
- Formavam-se grandes comboios de carros de bois carregados com pipas de vinho, em direção à Casa da Igreja, na época das vindimas. - lembra o filho mais novo, o Zé.

A Casa de Paredes tinha dezenas de quintas. Havia um feitor geral que escolhia depois, geralmente por freguesia, um homem da sua confiança para zelar pelos interesses da Casa (o pagamento das rendas eram em géneros, sendo o vinho e o milho os produtos mais importantes na época).

Aqui ficam 5 registos de recibos que o José Carneiro passava anualmente, relacionados com esta atividade “liberal” de “feitor do vinho” (1953- 1957):

(i)                  16 de outubro de 1953: Casa de Paredes – Vinho, 28 dias, a 25$00 por dia, 700$00. Sobrinhos da Casa, 12 dias, a 20$00 por dia, 300$00. Total: 1000$00;
(ii)                31 de outubro de 1954 Casa de Paredes – Vinho,   15 dias, a 25$00  por dia, 375$00. Sobrinhos da Casa,   5  dias, a 25$00 por dia, 125$00. Total: 500$00;
(iii)               11  de outubro de 1955: Casa de Paredes – Vinho, 20 1/5 dias, a 25$00 por dia. Total: 572$50;
(iv)              18  de novembro de 1956: Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 16 dias, a 25$00 por dia. Total: 400$00;
(v)                26  de outubro de 1957:  Casa de Paredes – “Sobas e feitorias do vinho”, 10 dias, a 25$00 por dia. Total: 250$00.

 José Carneiro tinha “olho para o negócio”. A compra dos materiais (fio, esteios...)  era, em geral, por conta do dono da obra, como já se disse acima. Nos seus honorários como ramadeiro, incluía também “o desgaste das ferramentas”. Numa obra, em Amarante, para o sr(a). “D. Costa Santos”  (?), ele faturou um valor de 742$30, incluindo despesas de pessoal (ele, o filho António, o sobrinho Américo e mais oficiais, Armando Cardoso e António Vieira) e de comboio (106$30). Em “nota de rodapé” escreve no duplicado, a tinta azul: “Obra [con]tratada por 2000$00. Gainho (sic) por fora,  1250$00)"... Não se sabe se os materiais eram foram fornecidos pelo proprietário, embora nos pareça que sim.

Num outro trabalho para o Dr. Leal Olibeira (sic) (, ao que parece, no Marco de Canaveses, segundo informação do Zé),   o José Carneiro faturou, só por sua conta, 16 dias a 50$00 (vd. fotocópia do recibo, foto nº 1). Todo o restante pessoal (António Vieira, António Couto, João Magalhães,  Francisco Leitão, José de Sousa ) ganhava 20$00 por dia, com exceção do José de Sousa que auferia sempre mais (25$00). Há também dois meios dias   por conta do “carreto do material” (sic), no valor de 90$00. O total da obra foi de 2185400, mais ou menos equivalente a duas semana de trabalho. Os recibos (dois) são de 30 de dezembro de 1953 e 16 de janeiro de 1954. 

É preciso esperar pelo ano de 1961 (20 de janeiro) para encontrar outro recibo (passado a José Diogo Sampaio, que também não sabemos quem é) com os honorários de 50$00 por dia, o máximo da tabela...

Nesta época (início dos anos 60), José Carneiro fez vários trabalhos para a Casa de Paredes, como ramadeiro, faturando o seu trabalho  a 45$00 por dia. Provavelmente ele fazia uma atenção para os seus amigos da Casa da Igreja, gente que de resto tinha muita confiança e consideração por ele, muito em particular a sra. D. Emília, herdeira da D. Maria do Carmo. Nessa época o seu oficial mais bem pago era o António Vieira: 28$00 por dia.

 Alguns dos trabalhos para a Casa de Paredes que consegui apurar, através da caderneta de recibos:

(i) 7 de fevereiro de 1959 (dois recibos): total: 4412$50 (José Carneiro tem 32 ½ dias a 35$00 por dia, e o António Vieira 37, a 26$00, fora o restante pessoal, incluindo o Manuel F Carneiro, 36 ½ dias, a 18$00 por dia);

(ii) 18 de abril de 1960: total: 1235$00 (José Carneiro, 8 dias, a 35$00 por dia; o António Vieira, 13 ½ a 26$00, e o Manuel F. Carneiro, filho do patrão, a 22$00, o mesmo que os restantes ajudantes: Adriano Carneiro, Alfredo Pereira, Agostinho B (‘);

(iii) 18 de fevereiro de 1961: total: 3885$50 (José Carneiro, 22 1/5, a 45$00 por dia);

(iv) 22 de fevereiro de 1961: total; 1399$00 (José Carneiro, 11 dias, a 45$00 por dia) de abril de 1961: total: 279$50 (José Carneiro, 1 1/5 a 45$00 por dia, o António Vieira 2 dias a a 28$00 por dia, o Manuel Couto 2 dias a 25$00 por dia, e o Manuel F. Carneiro, também dias a 23$00 por dia);

(v) 2 de janeiro de 1962: total: 2921$50 (José Carneiro, 19 1/5 dias a 45$00 por dia, com o António Vieira a 30$00 e o restante pessoal, incluindo o filho a 26$00…

Estranha-se que neste período não apareçam referências a obras longe de casa... Havia temporadas (não sei se neste período) em que o José Carneiro, com pelo menos um dos seus filhos, e vários elementos da sua equipa, iam por períodos relativamente longo, fazer ramadas na região do Douro. O Zé falou-me de um delas, no Pocinho, por volta de 1963/64, numa quinta do sr. Montenegro, da Casa de Manhuncelos, amigo do José Carneiro e pessoa politicamente influente na região. 

-Só vínhamos a casa no fim do mês. Comíamos e dormíamos lá. - informou o Zé.

O Gusto confirma-me que terá sido a única obra que o nosso sogro fez na região do Douro. A propriedade está hoje submersa pela barragem do Pocinho. O proprietário sabia que estava a valorizar os terrenos, com a construção de uma grande ramada.

Em 1978, de acordo com uma das suas agendas que chegaram até nós, o José Carneiro ainda trabalhava, sempre sazonalmente, como ramadeiro, profissão que o "pai-patrão" não conseguiu passar a nenhum dos filhos rapazes (António, Manuel e José) que escolheram a cidade para viver e trabalhar (e temporariamente a emigração, no caso dos dois primeiros) .

Dos seus assalariados, houve um, pelo menos, que se transformou em em empresário no ramo, o José de Sousa (também conhecido como Zé do Celeiro). Segundo a Alice, o pai trabalhou praticamente até ao fim, ou seja, até ter tido um AVC, em 1980, com 69 anos. Ofereceu a sua preciosa caixa de ferramentas a um ou mais  dos seus antigos colaboradores, como o Armanmdo Cardoso.  A família tem pena que as ferramentas do José Carneiro, ramadeiro,  tenham saído de casa e e se tenham dispersado.

Numa das pequenas agendas que ele usava para registar notas da sua atividade profissional (como ramadeiro, como agricultor e como negociante de gado), pode ler-se:

"José Carneiro - Ano de 1978: Gainho (sic) nas ramadas:
82,5 dias x [ ?] = 34525$00."

Nessa época, ele cobrava 400$00 e mais  por dia, como ramadeiro, o que era uma boa féria para a época, mas que reflectia já as tendências inflacionistas da economia portuguesa do pós-25 de abril. Veja-se um "apanhado" das suas contas nesse ano, conforme documentos avulsos que encontrámos no seu espólio (Fotos nº 2 e 3).


Foto nº 2 - [1978]: Discriminação dos dias de trabalho do ramadeiro José Carneiro (82 1/5) e da equipa:   A. V. [António Vieira]: 44,5> A. Rx. [António Rocha ?]: 45,5; Ar. C. [Armando Cardoso]: 19,5; M. V. [?] [Manuel Vieira ?]: 22.


Foto nº 3- [1978]: Uma das últimas obras  que o José Carneiro deve ter feito, e em que gastou 22 dias, e pelos quais recebeu um total de 10325$00. Cliente: António [de] Ermezinde, telef. 972560.

Registe-se op facto de com ele continuarem a trabalhar companheiros dos anos 50 como os amigos e vizinhos António Vieira e Armando Cardoso. Ao longo destes anos, o José Carneiro ganhou honradamente o seu dinheiro e deu a ganhar, não havendo grande oferta de trabalho na freguesia de Paredes de Viadores. Foi uma atividade que ele exerceu, durante muitos anos, sem concorrência a nível local, e que lhe dava prestígio, a para da sua condição de proprietário rural, dono de duas quintas, Candoz e a Carreira Chã (esta arrendada a caseiros).

Luís Graça (com contributos do Gusto, da Nitas, da Alice e do Zé)


08 setembro 2010

Efemérides: Angola, Camabatela, 8 de Setembro de 1970: O mano Zé estava na guerra e fazia 22 anos anos...







Imagens: A Nossa Quinta de Candoz (2010). Todos os direitos reservados



Reprodução da carta que a mana  Chita mandou ao mano Zé quando ele fez 22 aninhos... Ele, lá longe, no Norte de Angola, em Camabatela, para onde a Pátria o chamou, entre 1969 e 1972, uma eternidade...Ela já a trabalhar, mas ainda a viver em Candós, na casa dos pais... O mano Zé era 1º Cabo Transmissões de Infantaria, de rendição individual, numa companhia que guardava os cafezais lá região, perto de Negage e de Quitexe... Mas a gente não se lembra agora do número da companhia... Sabemos que o Zé nunca mais se voltou a encontrar com os seus antigos camaradas... 40 anos depois, quando faz 62 aninhos, quisemos fazer-lhe esta surpresa. Eu,  Chita, o Luís, a Nitas, o Gusto, a Rosa, o Quim... e o Pedro, sócios de A Nossa Quinta de Candoz, só lhe podemos desejar mais outros 40!... Muita saúde e longa vida, porque a um homem bom como tu Deus dá tudo... Um xi-coração apertadinho da tua mana...

PS - Ah!, e obrigada por teres arquivado as cartas e os aerogramas que a gente te mandava!... Tudo direitinho!...

Candós, 9.9.70


Querido Mano:


Após algumas horas terem passado do teu aniversário [, ontem, dia 8,], aqui estou a contar-te como o passámos.


Como já há 6 anos que lá não [ ia, à festa do Castelinho, ], este ano sempre me decidi e fomos, eu, o pai, a Rosa, o Quim, António e Graça. Fomos de manhã e chegámos à noite.


Para te dizer que gostei muito, isso não. Sabes que só era alegria quando fazíamos as viagens a pé. Agora ninguém o faz e portanto deixa de ter aquela alegria sã como dantes. Isto é a minha opinião!... Mas julgo que a dos outros será a mesma.


Assisti à Santa Missa no adro e depois do almoço fui para o penedo onde permaneci até vir embora. Não estava calor, pois de manhã tinha chovido, portanto não fazia pó. Fomos todos à capela rezar por ti e assim se passou o dia.


Não andava muito contente mas isto são problemas de 'amor'. E também por que estou muito magra, depois que vim de Lisboa já emagreci ainda mais 4 kg. 

Também te quero dizer que hoje mesmo recebi mais uma carta tua. Até que enfim te decidiste a escrever-me. Acredita que andei uns tempos chateada, mas já passou. 

Quanto às fotos realmente tens razão. Eu tinha uma série delas tiradas em Pegões, e ficaram de mas mandar, mas até hoje ainda nada apareceu. Até eu estou a ficar aborrecida, mas o remédio é ter paciência. Quando me for possível, eu tas mandarei.


Neste momento estou a escrever-te do consultório médico. Vim com a mãe, vamos ver o que diz o médico. Não te aflijas porque [ela] anda bem, o médico é que quer ver se está melhor.

Quanto às uvas, para já o preço de 2$80 o kg, não é mau de todo mas a s vindimas só podem ser feitas a partir do dia 28. Isso é que será pior e mais ainda se agora não parar a chuva, então teremos tudo podre.


Por hoje é tudo, resta-me finalizar com um abraço da família Barbosa e meninas, cumprimentos dos vizinhos, beijinhos dos pais e da tua mana uma xi-coração de amizade. Maria Alice.


PS – Escreve para casa porque, embora trabalhe todos os dias, venho cá dormir.





















Angola > > Cuanza Norte > Ambaca > Camabatela > Janeiro de 1974 > Avenida central de Camabatela; ao fundo,  a igreja católica.  A cidade de Camabatela (ou Kamabatela, como também se escreve hoje ) foi fundada pelos portugueses em 1611, e é  sede do município de Ambaca, na província do Cuanza Norte (ou Kwanza-Norte), a leste de Luanda. Foto de Henrique J. C. de Oliveira, Cambatela, 1/1/1974.

Foto: Cortesia de Prof2000 > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital