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25 agosto 2018

Viva a Festa da Família Ferreira, 2018 - Parte I: P'lo menos pelas redondezas / Não há festa como esta...


Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Foto de grupo, com gente da 5ª, 6ª e 7ª geração (i).





Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Foto de grupo, com gente da 5ª, 6ª e 7ª geração (ii).



Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Foto de grupo, com gente da 5ª, 6ª e 7ª geração (iii).




Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração, hoje na casa dos 70/80 anos: a Rosa Carneiro, filha de Maria Ferreira e de José Carneiro.




Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração, à direita, o António Carneiro, o mais velho da família Ferreira Carneiro, de Candoz. A zseu lado, o Joaquim Barbosa, casado com a Rosa.




Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração: o "caçula" da família Ferreira Carneiro (Candoz), o José Ferreira Carneiro, que faz 70 anos no próximo dia 8 de setembor, dia da festa do Castelinho... À direita, a Mi, casada com o Manuel Ferreira Carneiro.




Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração: da direita para a esquerda, Zé Ferreira, filho do António Ferreira (de alcunha, "Vitorino"), o Manel (viúva da Luisa, filha da tia Aninhas) e o António Pinto (viúva da Balbina, irmã do Zé). 



Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração,  ao centro o Quim Vieira Mendes, filho de Rosa Ferreira.



Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração, a Ana Ferreira Carneiro (Pinto Soares, pelo casamento)... 




Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração: a Maria Alice Ferreira Carneiro e o primo Quim.



Paredes de Viadores > Sítio da Nª Sra. do Socorro > 25 de agosto de 2018 > Festa da Família Ferreira, 2018 > Representantes da 5ª geração,  o Zé Ferreira com o Gusto Soares, marido da Nitas (Ana Ferreira Carneiro).


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2018). Todos os direitos reservados


Viva a Festa da família Ferreira, 2018

Em homenagem aos nossos pais, avós e bisavós

António, Maria, Rosa e Ana,

filhos de Balbina Ferreira (1876-1938), casada com José Nunes Ferreira (, de alcunha ‘Vitorino’) (1875-1948);

bisnetos de João Ferreira, o primeiro (1821-1897), casado com Mariana Soares (1822-1895). (São estes as nossos antepassados comuns, conhecidos, mais antigos, donos das terras de Candoz e Leiroz; tiveram 6 filhos, 3 Ferreira e 3 Soares, entre eles o João Ferreira, segundo (1847-1918), casado com Maria Joaquina (1845-1895); quando completarmos a nossa árvore genealógica, iremos descobrir que a família Ferreira é velha como o carago…).

Estão aqui hoje representantes da 5º geração, a do António Carneiro, filho de Maria Ferreira e José Carneiro; tudo gente na casa dos 70/80 [levantar o braço]

Representantes da 6ª geração, a das filhas do António e da Graça; gente na casa dos 30/40/50 [levantar o braço]

Representantes da 7ª geração, a dos netos do António e da Graça… [levantar o braço]

E já temos gente da 8ª geração: por exemplo, a prima Lena, do Alto, já é bisavó…[levantar o braço].

Da 4ª geração, gente que hoje teria mais de 100 anos, não temos infelizmente já cá ninguém. Mas estão cá os seus descendentes:

(i) O mais velho era o António Nunes Ferreira, o ‘Vitorino’, o brasileiro, que nasceu em 1910 e casou com Amélia Rocha; [levantar o braço]

(ii) A mais nova era a Ana Ferreira, nascida em 1917, e que casou com Joaquim Cardoso; [levantar o braço]

(iii) As do meio eram a Maria Ferreira, que casou com José Carneiro [levantar o braço];

(iv) e a Rosa Ferreira, que casou com o José Vieira Mendes…[levantar o braço]

Filhos fora do casamento não consta que tenha havido… Mas se estiver aqui algum, que levante a mão…

Relembrando aqui os encontros anteriores:

(i) o primeiro, a 29 de setembro de 1984, em Fandinhães, Paços de Gaiolo, terra antiquíssima, freguesia do extinto concelho de Bem-Viver, onde nasceu toda a 4ª geração… 


(ii) o segundo, no ano seguinte, em Montedeiras;

(ii) os seguintes foram já aqui, em Paredes de Viadores, no parque de merendas da igreja de N. Sra. do Socorro: o terceiro em 10 de julho de 2011; o quarto em 7 de setembro 2013;

(iii) e agora o quinto em 25 de agosto de 2018. 34 anos depois do primeiro… Alguns de vós ainda não tinham nascido…

Parabéns a todo os que chegaram até hoje, vivos e de boa saúde, e que nos alegram com a sua presença, neste 5º encontro. Lembramos os já falecidos e naturalmente os ausentes.

O próximo encontro será quando a malta quiser [... E já ficou maracado para  sábado, 31 de agosto de 2019].  Nessa altura seria giro publicar o livrinho com a árvore genealógica da família Ferreira, em edição revista e aumentada…Mais as receitas das nossas "comidinhas", as letras e as músicas das nossas "tunas rurais", bem como os "canteréus"...

Para não vos maçar mais, vamos às quadras populares que escrevi para a ocasião... E se não se esqueçam, no fim, de dar o nome, o telemóvel e o endereço de email… Além de pagar o porco…

Estamos obrigados/as à Ana Maria, o João Monteiro, a Becas, a Zezinha, o João Carneiro, e toda uma vasta equipa que tornaram possível este encontro.



1
P’lo menos pelas redondezas,
Não há festa como esta,
Dizemos não às tristezas,
Com a gente que nos resta.

2
Com a gente que nos resta,
Da família Ferreira,
Não há tempo para a sesta,
Queremos é bailar na eira.

3
Queremos é bailar na eira,
Como no tempo dos avós,
Danados p’ra a brincadeira,
Nunca estávamos sós.

4
Nunca estávamos sós,
Nem os primos da cidade,
Que se juntavam a nós,
Formando grande irmandade.

5
Formando grande irmandade,
Gente boa, três maninhas,
Um rapaz, de maior idade,
C’o a mais nova, a ti Aninhas.

6
C’o a mais nova, a ti Aninhas,
Que era muito gaiteira,
Rosa, a santa das santinhas,
E a Maria, a lavradeira.

7
… O rapaz, o “Vitorino”,
Andou lá pelo Brasil,
Voltar foi seu destino,
Antes do 25 de Abril.

8
Antes do 25 de Abril,
Estava gente para nascer,
Outro deram o corpanzil
Para a Pátria defender.

9
Para a Pátria defender
Nas terras do Ultramar…
Ficou muito para ver
E muito mais pra contar.

10
E muito mais pra contar
Da família, a grande gesta,
Mas o tempo não vos quero roubar,
Vamos é curtir a festa!

11
Vamos é curtir a festa,
Comer, beber e pular,
Do porco já pouco resta,
O dia é para reinar.


12
O dia é para reinar,
Toca a rabeca chuleira,
Com o violão a acompanhar,
Viva a festa dos Ferreira.

13
Viva a festa dos Ferreira,
Em Paredes de Viadores,
Tudo gente bailadeira,
As senhoras e os senhores.

14
As senhoras e os senhores,
Ainda dão seu pé de dança,
Músicos e cantadores,
Temos alma de criança.

15
Temos alma de criança,
E a vida aqui celebramos,
No futuro temos esp’rança,
E pró ano cá voltamos!


Paredes de Viadores, sítio da N* Sr* do Socorro,  25 de agosto de 2018




01 março 2017

"A melhor prenda que tu me podes dar!... Ao Gusto, no dia em que faz 70 anos




Gusto:

O que é que um homem há-de dizer a um amigo que faz 70 anos ?

Primeiro, felicitá-lo por ter chegado até aqui, ao km 70. E depois desejar-lhe boa continuação da viagem.

Chegar ao km 70 já é obra, para nós, para pessoas da nossa geração. Quando nascemos, em 1947, a esperança média de vida era bem menor.

Como hoje te disse de manhã, "não estamos velhos, os nossos filhos é que cresceram" e também eles se fizeram à estrada...

Quanto a nós, comprámos um bilhete até aos 100. Vamos lá a ver como decorre o resto da viagem, ao lado daquelas e daqueles que muito amamos. Por mim, já sabes… considero-te o irmão que nunca tive, com a vantagem de não termos os laços de sangue, mas apenas o do parentesco social… Espero poder continuar a estar na lista dos teus amigos favoritos…

Como eu gosto de dizer, em linguagem da tropa (e da guerra que tu felizmente não fizeste), boa continuação, para ti, para a tua Nitas, para os teus filhos, que nossos filhos são, para a tua neta, para as companheiras dos teus filhos e para os demais presentes na tua festa dos 70 anos (o Zé, a Berta, filhos, genro, nora,  netos…)… uma boa continuação da viagem pela “picada da vida fora”…

Saberás proteger-te e protegê-los, àqueles que amas,  das “minas e armadilhas” que nos vão pondo pelo caminho… Não só os nossos inimigos mas também alguns amigos da onça… Como diz o provérbio português, que “Deus me proteja dos meus inimigos, que dos meus amigos cuido eu”.

Estes votos são naturalmente meus e do resto da minha família, a Alice, a Joana e o João… Para estes dois, tens sido também mais do que o tio Gusto…


E agora deixa-me que dizer-te um soneto, ligeiramente brejeiro, à moda do Bocage, que fiz na viagem de comboio, de Lisboa até aqui, esta tarde… e que é uma pequena homenagem ao homem dos sete ofícios, e sobretudo ao esposo, ao pai, ao tio, ao cunhado, ao mano,  ao amigo, por quem todos nós, na família, temos o maior apreço, estima e amor.


A MELHOR PRENDA QUE TU ME PODES DAR…

Para o Gusto, no dia em que faz 70 anos…



Já o senhor doutor engravatado
Não sou!... Olha-me, Nitas, só p’ra esta mão,
Com calos que não são de cirurgião,
Mas de um podador bem calejado.

Depois de tantos anos de lavoura,
E de ver os meus sócios pobretanas,
Confesso que às vezes tenho ganas
De, às urtigas, mandar a tesoura.

E logo hoje que faço setenta,
E não me levam a fora jantar!
Pois não me desfaço da ferramenta!...

Nitas, a melhor prenda que me podes dar,
É mandar certificar, aos oitenta,
Que, por ti, continuo a bem podar!...


Luís Graça, 1/3/2017

02 outubro 2013

Histórias de vida: Maria da Graça (n. 1922, Nadrupe, Lourinhã): entrevista feita em 1/8/2009


Vídeo (3' 27''). Alojado em You Tube > Nhabijoes

Lourinhã, Praia da Areia Branca, 1/8/2009. Entrevista a Maria da Graça, a Dona Graça, amiga de Candoz, mãe de Luís Graça, casada com Luís Henriques (1920-2012), e mãe de 4 filhos, 12 netos e 5 bienetos ... Na altura já a viver no Lar e Centro de Dia Nossa Senhora da Guia,  Atalaia, Lourinhã.  Nasceu em 1922, no Nadrupe, Lourinhã. Era filha de Maria do Patrocínio, natural da Lourinhã e Manuel Barbosa, natural do Nadrupe, freguesia e concelho de Lourinhã.  Vídeo (3' 27'')

26 outubro 2012

Vivó' s noivos: As bodas de ouro da Rosa & e do Quim (1962-2012) (11). Não há festa sem música (Parte IV): "Vem viver a vida, amor / Que o tempo que passou / Não volta, não"...O coro dos filhos, netos e sobrinhos


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 20 de outubro de 2012 > Festa das bodas de ouro da Rosa & do Quim (1962-2012) > Filhos, netos  e sobrinhos do casal entoam em coro uma paródia da conhecidíssima canção do José Cid (letra e música), "Vem viver a vida, amor / Que o tempo que passou / Não volta, não"...

Foi projetado também  um belíssimo filme feito pelo Miguel, relembrando estes cinquenta anos de amor de um casal que deu ao mundo quatro filhos (Zeza, Natália, Cristina e Miguel)...

Vídeo (2' 48''):

16 abril 2012

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte III)

Luis Henriques (19.8.1920-8.4.2012)  > Praia da Areia Branca, esplanada do Bar dos Cinco Paus > 17 de março de 2012 > A sua despedida do mar azul,com as Berlengas ao fundo, que ele tanto amava... 

(Continuação)

Era um bom lourinhanense, muito querido e estimado por toda a gente. Espirituoso, bem humorado, com jeito para o improviso poético, definia assim a sua terra: 


Lourinhã, uma vila catita, 
Bonita, sem vaidade,
Tem montras como uma cidade, 
Mas também ninguém nos engana: 
Ao fim de semana, 
Sem sol, sem bola e sem missa, 
É uma terra de preguiça… 

Ou noutra variante: 

Lourinhã tem três entradas, 
Três saídas, 
Três igrejas, 
Três ermidas,
Três  moinhos de vento 
 E ladrões em todo o tempo.

Era um homem de palavra e de palavras, que nunca usou como arma de arremesso contra ninguém. Talvez por essa razão não tinha inimigos conhecidos: 

Palavra fora da boca 
É pedra fora da mão, 
Tu pensa bem as palavras 
E tira-as do teu coração.

Trabalhador por conta própria, deu trabalho a muita gente, numa época em que o emprego era escasso e mal remunerado… Muitos deles, os que ainda estão no meio dos vivos, falam dele como um patrão que dava camisa ao seu empregado... Ao fim da semana, podia não haver dinheiro em casa, mas não falhava a semanada do seu pessoal...


Tinha, por outro lado,  inúmeros clientes, quer da vila, quer das aldeias mais a norte do concelho (do Sobral a São Bartolomeu) e até fora do concelho (Bufarda, por exemplo). Terá percorrido, na sua vida, muitas dezenas de milhares de quilómetros, de bicicleta, levando e trazendo calçado dos seus “fregueses”, que muito o estimavam. 

O seu negócio teve altos e baixos, e conheceu várias sociedades e vários locais. A última e a mais conhecida das suas oficinas foi na Praça Coronel António Maria Batista, nº 9 (junto ao beco quer liga à Rua João Silva Marques). Daí também o seu desabafo, sob a forma de parlenda popular: 

À segunda [o tradicional dia de descanso dos sapateiros] , o trabalho abunda; 
à terça, dor de cabeça;
 à quarta, trabalho à farta; 
à quinta, dança a pelintra; 
à sexta, o patrão é uma besta; 
ao sábado, o patrão arreliado… passa-se para o outro lado! 

Foi, além disso, um bom pai e um avô carinhoso. Tinha orgulho nos seus filhos, netos e bisnetos, os quais, por sua vez, tiveram a rara felicidade de estarem junto dele na hora, difícil, da sua partida deste mundo. Viveu pobre e morreu pobre.  A maior riqueza que lhes deixa são os valores por que norteou a sua vida, o seu sorriso, a sua bondade, o seu exemplo de  trabalhador honesto e incansável, enfim, a sua alegria de viver que contagiava tudo e todos.


Foto à esquerda, acima: Lourinhã > Abril de 1991 > Luís Henriques (1920-2012) e a sua companheira de toda uma vida, Maria da Graça (n. 1922)

Morreu com dignidade, vítima de doença prolongada. Viveu os seus últimos quatro anos no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, na Atalaia, onde encontrou uma segunda família. 


Em 30/10/2008 escrevia no seu diário: “(…) nesta nova família que nos arranjaram, fico triste pelos que se encontram piores do que eu. Não tenho culpa de ter nascido assim. Por tudo isto, sou feliz, embora pobre, mas alegre, e gosto de conviver com todos. É esta a minha política: esquecer as minhas dores lembrando dos que se encontram bem piores do que eu (…)”.

Os seus familiares e amigos mais próximos lembrá-lo-ão sempre como uma homem simples mas único que irradiava alegria de viver e boa disposição à sua volta.

Uma palavra muito especial de agradecimento é devida à direção do SCL e ao Lar e Centro de Dia da Atalaia (na pessoa da sua diretora técnica dra. Ana Caetano, do médico dr. Rui Martins e dos demais profissionais que cuidaram do meu pai, até à sua morte, com uma inexcedível competência, dedicação e humanidade). Mas também aos seus parentes, amigos, conterrâneos e vizinhos que se interessaram pelo seu estado de saúde e que o acompanharam até à sua última morada na terra. 


Por fim, um xicoração muito especial aos elementos do Coro Municipal da Lourinhã, Rui Mateus, Moura, Quim Zé e Ana Mateus que no cemitério cantaram para ele e para todos nós a famosa e sublime canção alpina “Signore delle cime”, composta em 1958 pelo italiano Giuseppe de Marzi: 

Dio del cielo, Signore delle cime,
Un nostro amico hai chiesto alla montagna. 
Ma ti preghiamo, ma ti preghiamo: 
Su nel Paradiso, sul nel Paradiso lascialo andare per le tue montagne…

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte II)




Lourinhã > Vídeo feito em 19 de agosto de 2010, no 90º aniversário > Luis Henriques, nascido na Lourinhã, em 19 de Agosto de 1920, filho de Domingos Henriques e Alvarina de Jesus. Casado com Maria da Graça, 88 anos. Foi expedicionário em Cabo Verde (Mindelo, 1941/43). 

Órfão de mãe aos dois anos, foi criado por um tio, sapateiro e músico (Francisco, Fôfa). Começou a trabalhar aos 9 anos, como caxeiro, na loja do fotógrafo da terra (e o primeiro da Praia da Areia Branca, no final dos anos 20). Aos 13, aprendeu o ofício do tio. Fez a tropa, no RI 5, foi mobilizado para Cabo Verde. Regressou à vida civil em Setembro de 1943. Casou em 2 de Fevereiro de 1946, com Maria da Graça, natural de Nadrupe (e que como muitas outras raparigas camponesas, do seu tempo, foi criada de servir em Lisboa, até casar). 

Estabeleceu-se por conta própria depois da tropa, os negócios conheceram altos e baixos. O futebol foi sempre a sua paixão, primeiro como jogador e depois como treinador (nomeadamente das camadas juvenis e júniores). É o sócio nº 1 do Sporting Club Lourinhanense. O Ti Luis Sapatêro  é uma das figuras mais populares e queridas da sua terra. Tem 4 filhos: Luís, Graciete, Maria do Rosário, e Ana Isabel. Tem 12 netos e 4 bisnetos. Vive hoje, com a esposa, no Lar Nossa Senhora da Guia, Atalaia, Lourinhã. Ainda escreve o seu diário... e lê (jornais e romances).

Vídeo (10'  50''): ©    Luís Graça (2010). Alojado em You Tube > Nhabijoes 

(Continuação)


Aos 20 anos assenta praça no Regimento de Infantaria nº 5, Caldas da Rainha. Em 1941 parte para Cabo Verde, como expedicionário, com o posto de 1º Cabo Inf da 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5. Tinha memórias muito vivas (incluindo registos fotográficos) dos difíceis tempos que passou no Mindelo, Ilha de São Vicente (26 meses, entre julho de 1941 e setembro de 1943; nos últimos 4 meses esteve hospitalizado, por problemas pulmonares, entre maio e agosto de 1943).
A saudade da terra era mitigada pela presença de diversos lourinhanenses, o Caixaria, o Boaventura Horta, o Jaime Filipe, o Leonardo, e outros - naturais da vila, da Atalaia, da Serra do Calvo... - que pertenciam à mesma unidade (RI 23, constituído na Ilha de São Vicente, 1941/44).

 Numa época de elevado analfabetismo, sacrificava os seus tempos livres escrevendo dezenas de cartas por semana em nome de muitos dos seus camaradas. Aos 91 anos ainda se lembrava dos números de tropa (!) de alguns dos seus camaradas, e até das moradas (!) para onde enviava as cartas. 

Em nome do Fortunato Borda d'Água, do Cercal, Azambuja, por exemplo, chegava a escrever 22 cartas por semana... O Fortunato tinha duas namoradas, "uma que chorava ao pé da mãe dele, e outra que se ria, em plena rua"... O meu pai um dia teve que o ajudar a decidir-se:
- Ó Fortunato, afinal de quem é que tu gostas mais ? Com queres casar ? Da que se ri, na rua, ou da que chora no ombro da tua mãe ?...
- Ó Luís, claro que é da que chora...


  A seca e a fome que assolaram Cabo Verde nessa época, e que fizeram dezenas de milhares de mortos, tiveram impacto na sua consciência de bom português e bom cristão. O seu "impedido", o Joãozinho, que ele alimentava com as suas próprias sobras do rancho, também ele morreu, de fome e de doença, em meados de 1943. Comove-se ao dizer-me que deu à família do miúdo todo o dinheiro que tinha em seu poder (c. de 16$00) - na altura, estava hospitalizado -, para ajudá-la nas despesas do enterro. Lembro-me de ele me dizer que um cabo ganhava na época qualquer coisa como 130$00 por mês... De volta à metrópole, não terá mais do que 200$00 ou 300$00 no bolso. Para ele o dinheiro nunca foi fêmea...

Do Mindelo escreve à sua namorada, futura noiva e esposa: 


Maria, minha cachopa,
Não me sais do pensamento,  
Tão logo saia da tropa, 
Trataremos do casamento… 

De regresso à Lourinhã, em setembro de 1943, vinha cheio de saudades… de comer uvas. Faz sociedade, durante mais de 10 anos, com o seu irmão Domingos Severino. Abrem a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda. Chegam a ter bastantes empregados. Na época ainda não havia produção industrial de calçado. 

Casa, entretanto, em 2 de fevereiro de 1946 com a Maria da Graça, natural do Nadrupe, criada de servir de senhores e senhoras de Lisboa, da Praia e da Lourinhã, desde tenra idade [Foto à esquerda, acima].

A 29 de janeiro de 1947 nasci eu. Até 1964, terá ainda mais três raparigas: Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel. [Foto à direita, eu e a Graciete, por volta de 1953].

Continua a jogar futebol, como atleta amador, e ao mesmo tempo participa na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o SCL - Sporting Club Lourinhanense,   até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia. É mordomo de festas (como a da Sra dos Anjos e de São Sebastião). 


Quando morreu, era de há muito o sócio nº 1 do SCL, coletividade que de resto sempre o acarinhou e o homenageou, tanto em vida como na morte.

(Continua)






Luís Henriques (1920-2012) é mobilizado  para Cabo Verde. 1º Cabo Inf, nº 188/41, 1º Pelotão, 3ª Companhia, 1º Batalhão, Regimento de Infantaria nº 5 (Caldas da Rainha). Esteve no Mindelo, S. Vicente,  entre Julho de 1941 e Setembro de 1943. Neste episódio, conta como foi de táxi da Lourinhã para Lisboa, em estrada de macadame (70 km), com mais camaradas, chegando atrasado à formatura para o embarque, em 15/7/41... Ouve, pela última vez, a caminho do Cais da Rocha Conde de Óbidos, a voz da sua amiga Fernandinha, que conhecera na Praia da Areia Branca... Quando  voltou, 26 meses depois, procurou-a e soube da triste notícia...da sua morte.

Vídeo (4'  14''):  ©  Luís Graça (2009). Alojado em You Tube > Nhabijoes  

Luis Henriques (1920-2012), "meu pai, meu velho, meu camarada" (Parte I)


Luís Henriques, mais conhecido por Luís Sapateiro, nasceu na Lourinhã, distrito de Lisboa, em 19 de agosto de 1920, na atual rua da Misericórdia, num prédio hoje em ruínas. Homem de fé, morreu numa manhã soalheira de domingo de Páscoa, no passado dia 8 de abril, na Atalaia, no Lar e Centro de Dia de N. Sra da Guia, onde vivia com a esposa, Maria da Graça, desde meados de 2008. 


Morreu em paz, consigo, com os seus descendentes (4 filhos, 12 netos, 5 bisnetos), com Deus e com o mundo.

Tinha raízes, pelo lado do pai, Domingos Henriques, no Montoito, e pelo lado da avó materna, Maria Augusta de Sousa, em Ribamar. O meu avô paterno, que ainda conheci na infância, terá morrido com 91 anos. Usava muletas e fumava a sua beata: é a imagem que eu tenho dele. Dizia o meu pai que ele tinha ficado mal das pernas por causa do mar: como muitos agricultores das zonas ribeirinhas (Montoito, Atalaia, Areia Branca...), era nos tempos livres um mariscador, dedicando-se à apanha tradicional de polvos e crustáceos. Foi homem de teres e haveres, tendo casado três vezes. Do primeiro casamento, não teve filhos; do segundo, teve o meu pai e o meu tio (e padrinho de batismo), Domingos Severino, já falecido. Do terceiro casamento, teve "uma equipa de futebol e um suplente", como dizia, com graça, o meu pai.


Sua mãe, Alvarina de Jesus [, foto à esquerda], filha de Francisco Sousa, da Lourinhã, e de Maria Augusta, de Ribamar, morreu jovem, em 1922, de tuberculose, fato que o marcou para toda a vida: a mãe nunca lhe pôde dar um beijo!... E nos seus três últimos dias de existência, em que eu tive o privilégio de o acompanhar no seu leito de morte, evocou o nome da mãe Alvarina por mais de um vez. 

A minha avó paterna, Maria Augusta, nasceu em 1864, em Ribamar. Era uma Maçarica, que veio casar na Lourinhã, com um peixeiro.

Luis Henriques, órfão aos dois anos, viveu nos primeiros anos de infância com a nova família do pai, que casou pela terceira vez. Ao todo teve uma dúzia de irmãos. Fez a instrução primária (na época quatro anos de escolaridade) na velha Escola Conde de Ferreira (demolida pelo camartelo camarário antes do 25 de abril), sob a direção do saudoso Prof José António, que ainda conheci na minha infância, pai do nosso conterrâneo Jorge Pedro.

O meu primeiro emprego foi como… “máquina registadora e de calcular”, nas duas lojas do fotógrafo e comerciante Manuel Lourenço da Luz, que veio da Praia da Vieira para a Lourinhã, na primeira ou segunda década do séc. XX, e que foi pai do fotógrafo António José da Luz (Foto Luz). 

 A loja, na Rua Miguel Bombarda, vendia uma miscelânea de artigos fotográficos, vidraria, molduras, papelaria e bijuteria  [Vd. foto à direita, cortesia da bisneta do Manuel Lourenço da  Luz, a Ana Luz Pignatelli].

O Luís era muito rápido e fiável a fazer contas. Terá trabalhado para o seu primeiro patrão, na Lourinhã e na Praia da Areia Branca, a troco apenas da alimentação e de algumas gorjetas, durante cerca de 4 anos. 

O meu pai tinha recordações muito nítidas da época balnear, na loja da praia. Além da fotografia, o negócio do Manuel da Luz incluía o comércio de equipamento para caça e pesca. À segunda feira, ia com o patrão para a caça de patos, perdizes e coelhos ao longo do rio Grande…

Aos 13 anos, o meu pai terá uma nova família de acolhimento, a do seu tio materno, Francisco de Sousa (Fofa), músico e industrial de sapataria. Aprende o ofício de sapateiro. É criado com os seus primos António Francisco Sousa, Carlos Sousa e Milu (esta felizmente ainda viva; e todos eles com excelentes dotes musicais: o António tocava saxofone e fundou a primeira "banda de jazz" da terra, o conjunto Sol Do Ré Mi; o Carlos era um especialista em prata na banda da Lourinhã; e a Milú uma bela menina de coro; e o António Sousa era pai da Teresinha, a minha querida prima Teresinha, hospedeira de bordo em Angola, morta num um acidente aéreo, cujo ano não consigo precisar).

(Continua)