27 dezembro 2005

Comentários ao blogue (2)

Candoz > Os primos Joana (Graça) e Miguel (Barbosa), há vinte e tal anos atrás... Quando ainda se faziam enormes medas com as canas do milho... Candoz é mais do que um espaço físico: é também o universo (mágico) da infância de tios e primos... © Luís Graça (1980)














Queridos tios e primos,

Depois do nosso encontro de ontem, fantástico, vim de imediato consultar o vosso blogue...Sem dúvida fiquei muito orgulhosa por aquilo que vi.Tenho vaidade e orgulho por fazer parte desta familia!
Parabéns!

Beijinhos da sobrinha e prima que vos admira.

Vera Carneiro

25 dezembro 2005

Vivó os noivos!!!

Para o mano velho, Carneiro, que nesse dia era o home mais feliz à face da terra... Eles versinhos andavam por aí perdidos, mas hoje passam a fazer parte do álbum de Candoz... Até por que hoje, dia de Natal de 2005, fomos visitar o Jorge e a Paula que, além da Carolina, têm também a uma lindissima Maria... Saúde e alegria para ele e elas no novo ano que aí vem... LG


Viv' os noivos, vivam todos
Os amigos que aqui estão,
Uns são mouros, outros godos,
Fazem bela união.

Fazem bela união
O Jorge e a Paulinha
Que hoje deram a mão,
Para o resto da vidinha.

Para o resto da vidinha,
Deram o nó a preceito,
Numa velha igreijinha,
Com os amigos do peito.

Com os amigos do peito,
Os dois Ruis mais o Vitor;
O casamento está feito,
O resto é só amor.

O resto é só amor,
Já cá temos a Carolina
É uma jóia, é uma flor,
Uma querida menina

Uma querida menina,
Diz o pai, Jorge Dinis,
O amor é uma mina
P'ró economista f'liz!

P'ró economista f'liz
Amor vem sempre primeiro
A Paula assim o quis,
Com a benção do Carneiro

Com a benção do Carneiro,
No vale dos Raposinhos
Não falte paz e dinheiro
A este par d'amorzinhos

Boda do casamento e baptizado,
28 de Agosto de 1999

Os amigos da mesa seis

Rosa Carneiro
Alice Carneiro
Ana Carneiro
José Carneiro

mais os consortes: Quim, Luis, Gusto e Teresa, respectiavmente

22 dezembro 2005

A matança do porco de antigamente


O amanhecer em Candoz... Porto Antigo, ao fundo, coberto de nevoeiro cerrado.



Manhã cedo, quase a alvorecer, fria como convinha. Ao longe, as serras estão brancas, cobertas com um manto de neve. Típica manhã de Dezembro.

Os dedos enregelavam. O dono da casa e os filhos já espigadotes, com corpo de homem, agasalhados com capotes e samarras com pele de coelho no colarinho, calçados com socos de madeira que estropiam nos montes de geada congelada no chão, esfregam as mãos tentando fazer girar o sangue para as aquecer.

Era o dia da matança do porco.

Dia esperado com alguma ansiedade pois parecia dar abundância naqueles tempos de míngua, de escassez. A matança era um momento solene, porque muitas famílias não tinham mais nada além do porco.

O ambiente ia sendo preparado. O carro de bois já tinha sido colocado de feição. As panelas com água já estavam na lareira, entretanto acesa, para ferver água. Molhos de palha, amarradas como archotes, estavam prontos. Um alguidar com um pouco de vinho verde tinto no fundo aguardava junto ao carro.


O velho carro de bois, agora peça de museu, onde, antigamente, se sacrificava o animal...

Os preparativos estavam feitos.Munido das suas facas e do respectivo afiador, eis que chegava o matador. Homem experiente, já de certa idade, lavrador como todos os outros mas que há já muitos anos, nestas alturas, se dedicava a matar os porcos que a vizinhança das redondezas lhe solicitava. Era uma arte a que poucos se dedicavam.

A dona da casa já tinha preparado o mata-bicho (broa de milho e centeio e aguardente – alguns preferiam-na com um pouco de açúcar) para aquecer os corpos, ainda esfriados como a manhã.

O dono da casa, o matador e mais três ou quatro filhos lá se dirigiam para a corte onde o bicho, qual condenado sem saber a sentença que lhe coubera de sorte – mas parecendo que a adivinhava – olhava de soslaio, e com alguns guinchos, para aqueles vultos que não era costume aparecerem àquelas horas para lhe darem de comer – o que tanto desejava pois desde o dia anterior que pouco ou nada tinha comido, apenas alguma água de lavagem. Desconfiado, ia-se resguardando no canto mais recôndito que encontrava na corte.


O porco era o governinho da patroa e o boizinho, vendido na feira do Marco, uma das poucas fontes de receita dos caseiros, para além do vinho.


O dono da casa ou normalmente o próprio matador, munido de uma corda de amarrar os bois, entrava e aproximava-se do animal. Os outros, à porta cercavam o local.

- Oh bicho! Oh bicho!

Com alguma dificuldade mas com a mestria de quem tantas vezes já tinha efectuado aquela tarefa, o matador colocava a corda, como um açaimo, em redor do focinho e entre os dentes do animal.

Agora, puxado para fora da corte e com os restantes homens a vigiar – não fosse o bicho fugir, o que não seria a primeira vez – era conduzido para o carro de bois. E todos num verdadeiro esforço lá conseguiam deitá-lo com a cabeça para baixo junto à cabeceira do carro.

Os quatro homens seguram-no, cada um em sua pata e colocado o alguidar com o vinho (para o sangue não coagular) por debaixo da cabeça do bicho, o matador, dando uma palmada (tal como se fosse para dar uma injecção) por cima do sítio onde a faca iria entrar, espeta-a com precisão cirúrgica, junto à goela, no único sítio que fará com que o sangue flua completamente para o alguidar. Os berros do bicho são essenciais para que o sangue saia todo e são sinal que a faca foi espetada no sitio certo.

- Sim senhor! A faca foi bem metida! Nem uma pinta de sangue lá ficou! Deu-o todo!

O alguidar já vai para a cozinha onde o sangue será cozido (a água já ferve na panela de ferro que está à lareira) para, daqui a pouco, ser levado como pitéu, juntamente com broa e vinho verde tinto, aos homens. È o dejuadouro (deixar de estar em jejum) daquele dia.


A matança do porco (c. 1980): uma cena que Bruxelas quer banir definitivamente baniu dos nossos campos e aldeias em nome de uma concepção fundamentalista da saúde pública e de uma Europa globalizada, normalizada e tecnocrática, matando a etnodiversidade...


Aceso um molhe de palha pouco a pouco vai-se tostando a pele do bicho, queimando-se os pêlos para que o couro fique o mais liso possível. Os homens já não sentem tanto o frio. O esforço e a tocha a queimar a pele do bicho já os fez aquecer. Entretanto já lá vem o sangue cozido que, com a broa e o vinho, os fará aquecer ainda mais. Os casacos e as samarras já são um estorvo!

- Bicho ! ...Pesa bem cem quilos!
- Eu não dou tanto! P’raí uns noventa e três!
- Depois veremos! Há aí uma balança para tirar as teimas!

A pele do animal já está quase escura. Com sacholas, facas, escovas e pedras rapam-se os pêlos já queimados, lavando ao mesmo tempo o couro.


A palha de centeio com que se limpava e tostava a pele do animal...



Escaldada a língua e a orelheira, faz-se a limpeza a essas partes. Dá-se agora mais uma achega de calor com a palha a arder para que a pele fique mais tostada – a cor dum verdadeiro leitão assado – e com água e sabão completa-se a aparência final.

Com as mãos da frente amarradas a um estadulho do carro de bois e o mesmo para as patas traseiras o bicho é erguido pelos quatro homens que, quais gatos-pingados em cortejo fúnebre, o levam para a loja da casa – o sítio mais fresco – onde pendurado nuns ferros fixos ao tecto (que sempre lá existiram para o efeito) e com a cabeça para baixo será preparado para uma primeira dissecação.


A desmancha do bitcho na loja (1)...


Enquanto os homens se ocupam em outros serviços (é tempo de podar as videiras), o matador e a dona da casa iniciam a primeira operação de desmanchar o porco. Aberta a barriga desde a garganta até ao ânus, são-lhe então retiradas as tripas (que depois de frenética e convenientemente lavadas em água corredia, passadas várias vezes por água bem quente, esfregadas com sal e limão e marinadas com vinho alho e limão serão usadas para fazer as moiras e os salpicões); os miúdos (coração, bofes, goela, etc.) que no dia seguinte devidamente cortados em pequenos pedaços, adicionadas com vinho verde tinto, algum sangue, de carne das capas e demais condimentos, darão as referidas moiras que depois de fumadas no sarilho (cravado na chaminé por cima da lareira), propiciarão um lauto manjar de arroz “a fugir pelo prato fora” com feijão branco e grelos.



A língua servirá para um óptimo salpicão que será apreciado no Carnaval. O fígado cozia-se para depois ser comido frio, ás fatias, com um bom naco de broa. A bexiga, depois de cheia com ar e amarrada no topo, como um balão, vai a secar junto ao fumo da lareira como sinal que se tinha feito uma matança de porco e em alguns casos para servir como irrigador para dar clisteres a quem deles necessitava. Desde o unto à bexiga nada se podia perder. Nesses tempos, o porco era o governo da casa, algo de que a patroa se poderia socorrer sempre que era preciso confeccionar uma refeição mais elaborada (em dias de festa por exemplo) para a família ou para eventuais visitantes citadinos que de quando em vez apareciam. Era uma boa oportunidade para a patroa pôr à prova os seus dotes culinários e de gestão alimentar transformando o corpulento animal em fartura para a casa durante o ano.

Já sem as entranhas, com a barriga bem aberta e segura por espetos de madeira cravados duma banda à outra para melhor expor o interior, recheado de ramos de folhas de loureiro aí vai ficar o bicho a secar e a arrefecer a carne até ao outro dia.

A porta devidamente fechada à chave não só para prevenir a entrada de moscas (não são normais neste tempo de frio mas…) que poderão conspurcar a carne, mas também não vá aparecer um daqueles vizinhos maganões que por brincadeira leve o porco da loja deixando os donos da casa atormentados e com os cabelos em pé por pensarem que lhes roubaram o que tanto lhes tinha custado a criar no último ano e que seria o principal sustento da família durante o próximo.

O almoço já apetecia. O odor do salpicão paioto (o maior) – reservado até agora da matança do porco do ano anterior – a cozer juntamente com um arroz malandro convidava ao repasto e fazia crescer água na boca.

Novo dia. Nova expectativa de mais fartura.

A meio da manhã, o matador chegava preparado para a segunda operação de desmanchar o porco. Descido dos ganchos que o sustiveram durante a noite era então levado para a balança.

- Cento e cinco quilos!
- Eu sempre tinha razão! Tenho o peso nos olhos!
- Pois olhe, eu fazia-lhe menos um bocado!

Preparada a tábua – em cima de uns cepos – com uma toalha de linho onde o porco seria dissecado, preparados os panos – também de linho – onde as várias qualidades de carne seriam colocadas consoante o seu destino – o matador, sob a vigilância aguçada da dona da casa, começava a desmancha cortando sabiamente cada peça de forma a ter o maior aproveitamento possível.

- Corte mais por ali! Tire as capas mais fininhas!
- Tá bem, Tia Maria!
- Arredonde-me mais esse presunto! Essa gordura vai para pingue!

Meticulosamente cada peça dá o seu melhor para a salgadeira ou para o fumeiro.

A desmancha do bitcho na loja (2)...

E pouco a pouco as várias partes do porco lá iam sendo cortadas, preparadas e separadas: as bandas (para fazer os rojões), os coelhos (para os melhores salpicões pois é a coisa mais gostosa que tem o porco, muito tenrinha.), a cabeça com as orelhas a serem comidas por altura do Entrudo ou na primeira lavourada, a caluba (para salpicões), a espinha (para dar sabor à sopa), os lombos (para os salpicões), as costelas, as capas (donde saíam as melhores fêveras para assar – que sabor… – mas poucas, pois poupar era preciso e eram bem necessárias para as moiras), os meios, os presuntos, as pás e finalmente a cumeeira (couro com a parte mais gorda que se usava para fazer banha ou unto – cortava-se aos poucos, um bocadinho de cada vez, para durar o ano todo - e juntava-se à sopa para lhe dar a gordura que a enriquecia ou, quantas vezes, migava-se com sal fazendo-se assim extrair mais gordura).

A hora de almoço chegava e naturalmente era servido um arroz de costelas mas, um ossinho para cada pessoa e, só porque era o dia da matança. À lareira umas boas brasas aqueciam o ambiente frio da manhã e … assavam fêveras das bandas, só com uma pitada de sal para – uma por pessoa – acompanhar aquele arroz com o suco que delas saía.

O cheirinho que exalava.

- Oh! Sabor dos sabores… Só possível dum porco caseiro, criado durante quase um ano com os restos da comida caseira. Era quando uma boa caneca de vinho verde tinto da casa, da colheita há pouco acabada de fazer, com o característico sabor málico – a transformação malo-láctica ainda não se tinha efectuado – bem adstringente, fazia exclamar:

- Isto até dá vida a um morto! …

Acabada aquela soberba refeição e enquanto os homens se dirigiam para os trabalhos do campo (podar, cortar erva para os bois, pensar o gado, etc.), o matador e a dona da casa lá iam para a loja tratar de salgar o porco.



E esfrega que esfrega, os presuntos e as pás, mais que as outras peças, lá iam ficando bem impregnados de sal. Então, na salgadeira (caixa enorme de madeira) – o frigorífico da altura – onde iriam ser consumidos entre cem a cento e vinte quilos de sal, as peças, de acordo com a sua utilização temporal iam sendo acondicionadas com cuidado e sempre bem cobertas e aconchegadas com o sal – nisso a “patroa” era intransigente –.

- Olhe, Tio Rocha, aqui está a cumeeira! Ponha-a bem no fundo! Tem que dar para o ano todo!

E lá seguiam os presuntos (que aí permaneceriam cerca de quatro meses, para depois, previamente esfregadas com colorau - pimentão doce - e conjuntamente com as pás, serem expostas ao fumo), as pás (cerca de três meses), os ossos a calçar as várias peças, as unhas, os lombos (aí estariam só cerca de dois a três dias para depois serem colocados em vinha d’alhos e quarenta e oito horas depois se fazerem os salpicões) e a cabeça.

Mais umas boas garfadas de sal a cobrir tudo para que nada ficasse exposto ao ar e… estava terminado o trabalho.


A panela de ferro onde se faziam os rojões...


A noite aproximava-se. Era preciso preparar a panela de ferro onde os rojões seriam feitos para dar cumprimento à tradição e ao manjar final do dia da matança do porco. Uma pequena parte, das bandas do porco, já tinha sido separada e cortada aos pedaços. A carne entremeada de uma parte gorda e outra magra (próprio daquela parte da barriga), juntamente com o couro e sempre acompanhada do redenho ou gola ou lenço – tecido que separa as tripas grossas das finas – é então deitada na panela com um pouco de banha e com paciência e a ajuda de uma colher de pau, mexe e remexe e torna a mexer, lá se vai vendo os rojões a ficar douradinhos, untados, deliciosos quanto baste para se ter a tentação – sem que a dona da casa o visse – de sorrateiramente se surripiar um, bem quentinho, directamente de panela, que é o que melhor sabe de todos os que se irão comer. A boca até parece empolar com a quentura e sofreguidão com que é facilmente mastigado e digerido. As batatinhas mais miúdas – separadas especialmente para o efeito – também já estão prontas e bem molhadas na banha que serviu para as cozer.


Os rojões douradinhos...


Que cheirinho!... Que sabor!... Que saudade!…

Uns bons travos de vinho para acompanhar e está terminado o dia da matança do porco. Durante o ano que se vai aproximar, naco a naco, o porco vai ser utilizado para ocasiões especiais mas sempre poupadinho para durar até à matança do próximo.



A matança do porco era também uma festa...

Vinham os vizinhos, os amigos e os familiares de mais perto e de mais longe...


Hoje em dia, a matança do porco ainda se realiza aqui ou ali, mas com menos frequência e os métodos utilizados também evoluíram sendo já mais modernos. Cada vez é mais rara a criação doméstica do porco e tende a desaparecer a tradição da matança. Em Bruxelas vai-se discutindo se isto é uma tradição mas, mesmo que decida em sentido contrário (alguém se importará?) tal não é necessário porque enquanto este costume se for mantendo a tradição completar-se-á. Naturalmente, pouco a pouco, este uso vai perder-se porque é mais fácil, menos trabalhoso, provavelmente mais económico ir a qualquer grande ou pequeno supermercado comprar as partes e quantidades necessárias para simular uma matança de porco.

A freima, aquela pequena festa, aquela fugaz alegria de ter fartura durante uns tempos, essas não se compram e... o sabor da carne daquele porco caseiro, criado durante quase um ano com os restos da comida caseira, algum farelo, couves, batata cozida, etc., esse… muito menos.


A festa à volta da mesa...



Texto de Augusto Pinto Soares (2005)
Créditos fotográficos: Luís Graça e Luís Filipe Soares

em dezembro era natal

em dezembro
não fazia frio

em dezembro
não fazia ainda neve

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal

não havia neve
à porta dos camponeses pobres do norte
nem as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil

batem leve levemente
como quem chama por mim...
ah onde está o tipicismo da miséria rural
que os escritores burgueses descobriram antes de nós
o camilo o eça o ramalho o aquilino

em dezembro
o pai natal já não descia pelo fumeiro
por entre os salpicões e os presuntos
vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparrillos pra malta fumar
à lareira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró gado
e cantava a plenos pulmões
uma canção do sul

candoz.

natal de 1976

luis graça



Publicado originalmente no Blogue-Fora-Nada, em post de 28 de Janeiro de 2005 > Blogarias V - Em Dezembro

30 outubro 2005

Vindimas: a tradição já não é o que era!...




Tempos que já lá vão, ou como se diz agora, por influência do slogan publicitário, a tradição já não é o que era!

Com efeito, um bom par de anos atrás, as vindimas eram uma festa para alguns – os convidados, familiares ou amigos, citadinos – e azáfama e preocupação para a maior parte:

(i) os pobres caseiros ou rendeiros na expectativa do terço que lhes poderia caber;

(ii) os pequenos proprietários, sempre na incerteza da colheita que iriam ter e fazendo contas à vida, incluindo alimentação (um peso grande em tempos de míngua – era o tempo da sardinha para três) que haveria de se dar ao pessoal que ajudava à vindima.


Era o tempo em que a data da vindima era marcada de acordo com as disponibilidades dos outros lavradores do lugar ou das proximidades, para que, os pais e os filhos (normalmente mais de seis por família) pudessem distribuir-se na ajuda a prestar uns aos outros. Era o sistema comunitário, a serviçada, a funcionar.

Então era ver, manhã cedo, homens e rapazes com escadas de madeira (até 12 passos) às costas, com a cesta de vime com o cambito pendurado ao ombro, em romaria às várias propriedades onde a vindima se ia realizar.

Iniciado o corte das uvas, após um frugal mata-bicho – bagaço com açúcar e um naco de broa de milho e centeio –, as conversas, os ditos, as interjeições iam-se sucedendo entre os homens e as mulheres, procurando assim animar os espíritos e dar algum intervalo às dores de costas dos homens, que para além de constantemente terem de mudar as escadas pesadas entre as uveiras altas – as vides como que serpenteavam os choupos que serviam de armação: a tradicional vinha de enforcado – ainda tinham, quantas vezes, de se encarrapitar para fora da escada de forma a chegar a um cacho de uvas que teimava em ficar a amadurecer por mais algum tempo.


















As mulheres, essas, no seu corrupio entre as leiras e a adega com os cestos de vime pesados à cabeça e com o sumo das uvas, de tão calcadas, a escorrer-lhes pela cara e costas abaixo chegavam afogueadas e com o suor adocicado.

Até as crianças e moçoilas, ainda sem idade para acartar cestos, tinham o seu quinhão na azáfama da vindima. Como diz o ditado, “o trabalho do menino só não o quer quem não tiver tino “, e então era vê-las, cada qual com o seu açafate, empenhadas na sua válida tarefa de apanhar todo e qualquer bago que caísse ao chão, pois desperdiçar era proibido e muitos bagos (envolvidos em terra ou sem ela) sempre davam mais uns quantos litros de vinho.

Aqui e ali ouviam-se os cantaréus, ao despique, efectuados por 3 ou 4 moças que se juntavam junto às bordas, no intervalo de mais um carreto de cestos e que, ecoando vale abaixo, indicavam aos vizinhos que ali se vindimava e qual o seu estado de alma.

(i)

Lá vai o comboio, lá vai
Lá vai ele à’sobiar,
Lá vai o meu rico amor
Par’à vida militar.

Par’á vida militar,
Par´áquela triste sina
Lá vai o comboio, lá vai
Leva pressa na subida.

Leva pressa na subida,
Leva pressa no andar,
Lá vai o meu rico amor
Par’à vida militar.

(ii)

Deitei meus olhos ao rio,
Para ver teu brio.
Estavas a lavar.

Lava, lava, lavadeira
Estás na brincadeira,
Estás a namorar.

Deitei meus olhos ao rio,
Para ver teu brio.
Estavas a torcer.

Torce, torce, lavadeira
Tua roupa branca,
Que se pode ver.

Deitei meus olhos ao ar,
Para ver de que lado
O sol estav’à dar.

Para nesse lindo arame,
Estender tua roupa,
Para a ver secar.

(iii)

Tenho no meu agulheiro
Agulhinhas de bordar
Para dar ao meu amor
Quando ele aqui chegar.

Borboletinha olaré meu bem
Borboletinha olaré quem tem

(iv)

Tenho uma toalha branca
Fiada à luz da candeia.
O trabalho é oração.
È assim a vida d’aldeia.


(v)

Se vires o mar vermelho!
Não temas que é sagrado.
São as lágrimas de sangue,
Que por ti tenho chorado.


(vi)

Do lado d’além do Rio,
Tem meu pai um castanheiro
Dá castanhas em Abril,
Uvas brancas em Janeiro.


(vii)

Oh! Erva-cidreira
Que estás na varanda,
Quanto mais te rego
Mais tu cais pr’á banda.

Mais tu cais pr’á banda,
Mais t’hei-d’eu regar.
Oh! Erva-cidreira,
Que t’hei-d’eu cortar.


(viii)

Deitei o cravo ao poço. Olé!
Fechado, meio aberto.
Dá cá, toma lá.
Rapaz com’ó Chico.
Não há, não há.


(ix)

Venho de cima do Douro,
Num barquinho de papel.
Já há muito que não ouvi,
Suspiros do meu Manel.


(x)

Ana! Estava na cozinha
E sua mãe a chamou.
Oh! Ana! Oh! Ana!
Senhora Minha Mãe, já vou!



Eis que chegavam as 10 horas da manhã. E, com um cestinho de vime, bem composto com broa de milho da casa, azeitonas, cebola cortada numa malga ou covilhete com um fio de azeite e vinho tinto, um pedaço de toucinho, umas lascas de bacalhau salgado da peça e … pouco mais, coberto com um alvo paninho de linho, lá aparecia a dona da casa.

Fazia-se assim um merecido mas breve intervalo para recompor um pouco as forças já que naturalmente não faltava o garrafão empalhado, com o vinho tinto da casa que ainda sobrara da colheita anterior. Era vê-los, sentados no chão em redor da toalha de linho onde eram dispostos todos aqueles saborosos acepipes ou, quando chovia, com um saco de serapilheira à cabeça com um vértice do fundo dobrado para o interior a fazer de capote ou debaixo dos guarda-chuvas. Era a hora do almoço (hoje pequeno almoço).

- Ó Tio Zé! Beba mais uma pinga! Olhe que ele ainda está .

Digerida a bucha lá se seguia para mais uma ramada (parreira ou latada) para encher mais uns cestos, para mais uns carretos.

Ao longe já se ouvia o chiar dos carros de bois, por entre caminhos tortuosos, íngremes por vezes, na sua função estóica de levar os cestos carregados de uvas para a adega dos Senhores (ou fidalgos), sempre que as propriedades não tinham lagar, onde as uvas tintas de todos os caseiros, conjuntamente, seriam sovadas. Sim porque as uvas brancas já tinham sido apanhadas e vendidas para Adegas pois era muito complexo fazer vinho branco de bica aberta, já que normalmente nunca calhava bem.

Meio-dia! Hora do jantar (hoje almoço).

Hoje, infelizmente, tem chovido intensamente, toda a manhã! Os homens e mulheres estão ensopados em água! O trabalho pouco rendeu!

- Oh Tio Zé! Parece que chove a cântaros! Pode ser que ainda venha um ausio (aberta) e dê para apanhar uma lagarada!

A dona da casa, afogueada e preocupada chega a correr:

- Oh! Zé! Chego a panela pr’á frente ou afasto-a p’a trás?

- Oh! Mulher! Cheg'à pr’á frente!

Com dificuldade lá se conseguiu improvisar uma substancial refeição. Uma tachada de arroz salpicado com feijão branco com sardinhas fritas ou de macarrão com espinhas de bacalhau ou batatas cozidas com um naco de presunto ou salpicão que religiosamente foi sonegado às refeições da família durante o ano para agora poder ser servido como lauto pitéu. E naturalmente o vinho tinto da casa que ainda terá de chegar até ao vinho novo.

Sobremesa? Isso era uma fidalguia que não fazia parte dos hábitos alimentares desses tempos. Com muita sorte poderia aparecer um prato de rabanadas ou um prato de aletria que com o seu sabor adocicado merecia mais uma caneca de vinho. Mas tais doçarias raramente apareciam ao almoço, ficavam para a ceia (hoje jantar) ou para depois ou durante a sova.

Findo o repasto, novamente a azáfama durante a tarde em tudo igual ao que aconteceu durante a manhã. A meio da tarde, mais uma merenda com os mesmos ingredientes daquela que aconteceu a meio da manhã.
















A noite chega. Provavelmente a vindima ainda terá que continuar no(s) próximo(s) dias. Agora é tempo de descansar um pouco, preparar as selhas onde os homens lavarão os pés para entrarem no lagar e meter as uvas a vinho. E, de calças arregaçadas até ao joelho ou em cuecas, lá vão eles pisando e repisando os cachos de uvas até que a grainha comece a boiar no cimo do mosto. Às mulheres era interdita esta função: estragavam o mosto, diziam os antigos. Era um tabu que, a custo, só hoje foi esquecido e ultrapassado.

Para se vingarem dessa interdição, elas costumavam esconder abóboras no meio das uvas para que os homens ao entrarem no lagar escorregassem nas mesmas e caíssem no meio daquela massa de uvas e mosto ou então, pediam ao homem que durante a vindima ia metendo as uvas a vinho (para muitas mais caberem no lagar) que calcasse as uvas junto a um ou mais cantos (criando assim as mulas) para dificultar aos homens (sobretudo aos rapazes) da sova o levantamento das mesmas para as poderem arrastar e pisar com os pés.

E quando as moças se lembravam de surripiar as calças que os homens tinham tirado ao entrar no lagar cosendo as pernas das mesmas, uma à outra, rindo-se depois até ás lágrimas – riso puro, jovial, sadio, contagiante - quando depois de sair do lagar os homens tentavam, cambaleando e por vezes caindo, vesti-las?
















Chegam entretanto as filhas da casa com uns pratinhos de aletria – feita com ovos caseiros, amarelinhos – bem quentinha, ainda a fumegar, salpicada com uns pozinhos de canela que sabe pela vida e se presta a mais uma rodada da caneca branca de porcelana cheia de vinho, sempre tinto!

Entremeado por ditotes, por cândidas anedotas, adivinhas, alguns cantares (por vezes ao desafio) e de quando em vez alguma música (os proprietários de mais posses chegavam a contratar uns músicos com instrumentos tradicionais), a massa que vai ficando depositada no fundo do lagar é levantada com os pés de forma a encontrar alguns bagos de uvas ainda inteiros e ser esmagados.
















As pernas dos homens já escorrem mosto vermelho, qual sangue vivo que começa a brotar para uma nova vida.

O patrão dá a ordem:

- Mais uma volta e podem sair!

Está terminado o dia de trabalho

A patroa já tem pronta a ceia (hoje jantar). Arroz de galinha, ou talvez umas batatas cozidas com bacalhau ou se “fizer minga” (se calhar) uma arrozada com um bom naco de toucinho ou presunto – que sempre se foi poupando para estas ocasiões –. No fim sempre se improvisava umas rabanadas para servir de final de repasto. Mais uns bons tragos de vinho para compor e…:

- Por hoje está feito, Tio Zé!

Levantada a mesa, uns entreter-se-ão a jogar as cartas (normalmente a bisca ou o burro) com a algazarra própria da batota de alguns ou das chias que por vezes iam acontecendo, outros na amena cavaqueira sobre os problemas da vida e da esperança que a colheita fosse boa e para que o ano que vem fosse um pouco mais farto e que um vinho esbelto e sadio, agora em preparação, saísse para as pipas mantendo o sabor inalterável da uva até à nova colheita.

Começam a sair. As lanternas (de petróleo ou carboneto) começam a acender-se – embora a electricidade tivesse já atravessado a Serra ainda não tinha chegado ao povoado –. A noite já vai longa e é preciso dormir para recuperar energias porque os dias que se aproximam serão cansativos, tal como o de hoje.

A vindima é agora, nos tempos que correm, um ritual mais técnico, sem o sabor bucólico e festivo doutros tempos, sem o mesmo esforço, a mesma freima.

A marcação da vindima é já feita em função do grau de maturação das uvas, da disponibilidade do pessoal da casa (poucos chegam) aos fins-de-semana. Já não há festa – também já não há os convidados citadinos para assistir e tudo se processa de uma forma mais racional.

Porque as videiras estão armadas em bardos baixos – portanto mais expostas ao sol –, porque as operações da poda verde (espoldra ou deladroamento, desponta, desparra ou desfolha) permitem uma melhor exposição dos cachos de uvas, a colheita é mais fácil e célere. Rapidamente os cestos (agora de plástico) ficam cheios e o seu transporte para a adega é de imediato feito através do tractor.

Agora – os tempos são outros! – a plantação é de videiras de uvas brancas originando vinho branco de bica aberta. Verde Tinto é mais complicado de trabalhar, mais complexo, mais demorado e com menos aceitação e saída, a não ser localmente.

Na adega as uvas são imediatamente esmagadas com a desengaçadora, jorrando o mosto assim obtido para uma dorna e de imediato para as cubas de aço, onde feita a sulfitação apropriada, aí repousará até à sua defecação nas próximas 24 a 48 horas para depois iniciar a sua fermentação.

















A prensagem, um pouco mais demorada, pois a prensa hidráulica – que até uma criança pode facilmente accionar – precisa de algum tempo para esmagar o mais possível o cangaço. Contudo ao fim de algumas horas – ao início da manhã seguinte – já estará pronta para ou levar mais uma carga ou ser limpa.

Os repastos (pequeno almoço, almoço, jantar e merendas) são mais triviais, mais avantajados. Já incluem sobremesa, café e digestivos.

O mosto já está nas cubas à espera de um novo ciclo – agora o ciclo do vinho – as alfaias estão limpas e arrumadas, os cestos já estão lavados.




















Terminou a vindima!

O ciclo da videira chegou ao seu fim.

A nossa vida já começa a contemplar muitos ciclos completos da videira.

Amanhã começará outro.



















Texto de Augusto Pinto Soares (2005);

Créditos fotográficos:

© Luís Graça (1997, 2004, 2005);

© Augusto Pinto Soares (2005)

16 outubro 2005

Cancionairo de Candoz (III): Loas na festa do Zé (menino e moço, no aniversário dos seus 50 anos)















Legenda: O Zé e a irmã Alice

1
Tinha seis dedos na mão
O menino ao nascer;
Ou gigante ou anão,
Qualquer coisa há de ser.

2
Qualquer coisa há de ser,
Dizia o pai Carneiro;
Comigo vai aprender
A arte de ramadeiro.


3
A arte de ramadeiro
Exige força e jeito;
Para ganhar o meu dinheiro,
Com seis dedos, estou feito!
















Legenda: José Carneiro, construtor civil
de ramadas (Documento de 1953)



4
Com seis dedos, estou feito,
Minha mãe, quero uma faca;
P’ra ser um rapaz perfeito,
Corte-me esta mão de vaca.

5
Corte-me esta mão de vaca,
Senhor doutor do hospital;
Aqui deitado na maca,
Muito sofro deste mal.

6
Muito sofro deste mal,
De não ser como toda a gente;
Por favor, quero ser igual,
Corte-me este dedo, rente.

7
Corte-me este dedo, rente,
Mais não tenho precisões;
Já posso usar o pente
E comer os meus pinhões.
















Legenda: Outra celebração, desta vez em 8
de Setembro de 2004. Do lado direito os manos
António, Zé e Manuel; do lado esquerdo, a Chita


8
E comer os meus pinhões,
Ciosamente guardados;
Como se fossem tostões,
Um a um foram contados.


9
Um a um foram contados,
Com muito amor e carinho;
E p’las manas preparados
Com sabor a rosmaninho.

10
Com sabor a rosmaninho,
A minha casa voltei,
Agora sem o dedinho,
A que maldito chamei.

11
A que maldito chamei,
Por querer ser ramadeiro;
E afinal o que hoje sei
Aprendi com o pai Carneiro.


12
Aprendi com o pai Carneiro
A arte dos sete ofícios
De trolha a picheleiro,
Todas as manhas e vícios.

13
Todas as manhas e vícios,
De contínuo a tesoureiro;
Do tal dedo nem resquícios,
E do gás sou engenheiro.

14
E do gás sou engenheiro:
Agora cinquentenário,
Sou feliz, estou porreiro
Na festa de aniversário.

Viva o nosso menino e moço!
festa do Zé
(que fez 50 anos em Setembro de 1998)

Fonte: Album da Família Carneiro
e da Quinta de Candoz

Créditos fotográficos:
© Luís Graça (2004)

14 outubro 2005

É domingo de Páscoa, na aldeia!















Texto de Luís Graça, originalmente publicado no Blogue-Fora-Nada > 13 Abril 2004 >
Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

Texto revisto nesta data.

1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas.

A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacro-profano que me dizem ser mais celta do que mouro.

2. Um citadino, como eu, não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham.


















Um citadino não tem o privilégio de ouvir falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que autoestradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos.

Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Já fumegam as chaminés enquanto ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais.

In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses da região, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar:
- Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou! - diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacro-profana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris.























Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moínhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos, proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as auto-estradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete, oito ou mais gerações, que ois tesu registos só vão até 1820. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.


















6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte.

Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacro-profano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo.

E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso:

- Dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes de Viadores.



















7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS:
- Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!.

Créditos fotográficos: © Luís Graça (2005)

13 outubro 2005

Comentários ao blogue (1)


© Luís Graça (2005)


1. Nitas e Gusto: Preciso da vossa concordância... A ideia é termos um sítio no ciberespaço, para lá do cantinho (físico) que já temos em Candoz...Para porem os textos (ou posts), aqui ficam com o nome de utilizador (...) e a password (...). Se não concordares, a gente corrije, edita, altera... ou desmonta a tenda!... Um grande chicoração. Chita


2. Alice/Luís: Naturalmente que concordo mas, não sou sócio (.... apenas parte trabalhadora por afinidade) e acho que também devemos perguntar aos outros sócios. "A Nossa Quinta de Candoz" sobreviverá enquanto a sua manutenção for feita por uns na parte física e por outros na forma blogonáutica, quanto mais não seja para dar satisfação ao nosso ego.
Um abraço. Gusto.

3. Nelo Couto disse…

Olá amigos,

antes de mais espero que esteja tudo bem. Envio este mail com muita satisfação, para vos dar os parabéns, depois de ter visto o vosso site, e ter ficado maravilhado com a vossa descrição e acima de tudo com o vosso empenho para transmitir aos visitantes a história da vossa família, mas também o que se passa na realidade numa aldeia que é Paredes de Viadores.

Achámos muito bonita a forma como foi elaborado, através de versos transmitindo a vossa história.

Cumprimentos e um grande abraço,
Dos visitantes,
Nelo Couto e Olga Couto

[Manuel Francisco Ferreira do Couto>
couto.nelo@sapo.pt ]
7:49 AM


4. Anónimo disse…

Já vi que esse gajo é o puto mimado da família! Um admirador do vosso blog.
Gostava que ajudassem a promover o nosso concelho. Dei com o vosso blog quando andava à procurava de coisas sobre o Marco.•
Toda a gente se ria quando falava do Marco, por causa do Avelino. Espero que as coisas agora mudem com o PSD na câmara. Dizem que o povo é estúpido, mas o povo não é estúpido não. Os marcoenses são gente humilde mas com sabedoria feita da experiência da vida. Como vocês, que parecem ser uma família às direitas.
9:17 PM

5. jonnygrace disse:

Aqui de longe, em Itália, aplaudo esta brilhante ideia com entusiasmo. Não só porque tenho, naturalmente, saudades das minhas raízes, mas porque aqui na toscana se produz bom vinho, diz-se. Uma garrafa de Brunello di Montalcino custa cerca de 150€! Eu, pelintras, só bebo do branco carrascão...
1:04 PM

6. luís graça disse…

Vocês digam-me lá se o nosso Zé (vd. foto inserida entre os versos 41 e 42), na América, não passava mesmo por irmão ou sósia do Bush? Será que o tetravô do tetravô do tetravô do presidente dos Estados Unidos da América não terá saído do antigo e medievo concelho de Bem Viver? A propósito, o Marco de Canaveses nasceu só há 150 anos e resulta da fusão de uma série de concelhos que foram extintos com a reforma administrativa do liberalismo (entre eles, Bem-Viver, Soalhães, etc.).
12:54 PM

7. Pedro Alexandre Carneiro disse…

Com que então existe um blog sobre a quinta e sou sempre o último a saber... parabéns tio pelo excelente trabalho, terá todo o meu apoio em tudo que estiver ao meu alcance. Pedro Carneiro email PedroARCarneiro@hotmail.com
comprimentos aos primos e à tia claro Abraços para todos
3:36 PM

8. luís graça disse…

Pedro:
Não tinha o teu endereço de e-mail, daí ainda não te ter contactado...
É claro que tu és um actor importante neste filme. És mais do que filho (único, ao que se saiba) do nosso Zé, és já, por morte da tua mãe, um dos cinco sócios da nossa Quinta de Candoz... Cabe-te a ti (e aos teus primos, que ainda não são herdeiros) continuar esta estória, que até agora tem sido bonita, mesmo que às vezes pareça (e seja) bem dura...
De facto, não foi fácil chegar até aqui, que o digam o teu pai e os teus tios e tias. Mas uma vez aqui chegados, só se olha par trás para lembrar os nossos entes queridos que já morreram. Um grande abraço do teu tio Luís, da tua tia Alice e dos teus primos de Lisboa.
PS – Aparece e sobretudo escreve.
1:24 AM

09 outubro 2005

Cancioneiro de Candoz (II): É a vida que renasce...














II Parte > Mais loas (ao clã e aos amigos da família Carneiro e da Quinta de Candoz)



1
P’ra acabar esta história
Muita gente falta ainda;
E p’ra que fique a memória,
Saudemos a Dona Olinda.













2
Saudemos a Dona Olinda
Mais o seu neto Luís;
A esta casa é bem vinda,
E não é o Zé que o diz.


3
E não é o Zé que o diz
Nem tem que o dizer:
Se a Teresa assim o quis,
É mesmo para valer.
















4
É mesmo para valer
A palavra de um amigo;
Nós gostamos de o cá ter,
Senhor Pinto, é o que lhe digo.

5
Senhor Pinto, é o que lhe digo,
A si e à sua esposa:
- Avô é fixe, estou contigo,
Mais a avó que é carinhosa.


















6
Mais a avó que é carinhosa,
Assim pensa o Tiago,
Que n’é ovelha ranhosa,
É um Carneiro do carago.

7
Um Carneiro do carago
Também é o Quicas, sim,
Há-de vir da China gago,
Ou a falar mandarim.












8
Ou a falar mandarim,
Que é língua de gente esperta.
E p’ra animar o festim
Estão cá o Zé e a Berta.

















9
Estão cá o Zé e a Berta,
Da família também são:
A porta está sempre aberta,
E na mesa há vinho e pão.

















10
E na mesa vinho e pão,
Mais o anho da Maria;
Em chegando o Verão,
É que vai ser correria.


11
É que vai ser correria,
Não sei se p’ra bem, p’ra mal:
Mas com tanta mordomia,
É só turismo rural.
















































































































12
È só turismo rural
E eu já tenho uma suite,
Mobília imperial
E uma crise de gastrite.


13
E uma crise de gastrite
Por causa do turistame
Que vem cheio de apetite
P’ra dar cabo do vasilhame.


















14
P’ra dar cabo do vasilhame
E beber o vinho novo;
Não há ninguém que me chame,
Isto ‘tá cheio como um ovo.

















15
Isto ‘tá cheio como um ovo,
Não há nada p’ra ninguém,
Mas o coitado do povo
P’ra férias não tem vintém.


16
P’ra férias não tem vintém,
Nem a Rosa aluga o quarto;
O melhor é o armazém
Da coop’rativa do Marco.
















17
Da coop’rativa do Marco
De que a gente até é sócio.
P’rós que vierem de barco
Talvez se faça negócio.


















18
Talvez se faça negócio
Em turismo de habitação:
Mas como, se o tempo d’ócio
É p’ra... lixar o coirão !?















19
É p’ra... lixar o coirão,
Nem é coisa razoável:
Era muita indigestão
Servir ao almoço sável.


20
Servir ao almoço sável
Com criado de libré,
É de todo impensável,
Davam cabo do estaminé.


21
Davam cabo do estaminé,
Que é casa de gentes boas:
- Eu não estou a ver o Zé
Co’uns turistas das Lisboas!















22
Co’uns turistas das Lisboas,
Eu, embrulhado num fraque,
A ouvir as suas loas,
Ainda m'dá o ataque.


23
Ainda m'dá o ataque,
Um ataque de coração;
Isto é pior que o Iraque,
Os convivas aí estão:















24
Os convivas aí estão,
Só p’ ro mor do arroz de forno;
Se o anho não chegar,
Sempre se arranja um corno.


25
Sempre se arranja um corno
P’rós amigos que hão-de vir;
Não havendo arroz do forno,
Põe-se a ovelha a parir.

















26
Põe-se a ovelha a parir,
Se o Manel tiver ovelhas:
O caso não é p’ra rir,
Que a gente deu cabo delas.


27
Que a gente deu cabo delas,
Excepto o Gusto e a Joana:
Um nem cheirá-las nem vê-las;
A outra, leva-las p’ra cama.


28
A outra leva-las p’ra cama,
Gosta muito dos animais:
- Há gente muito sacana,
Mais parecem canibais.

















29
Mais parecem canibais,
Assim pensa o doutor,
Que das artes musicais
É o nosso professor.


30
É o nosso professor,
Mas ainda é muito novo;
Outro que é tocador,
Não se mistura com o povo.


31
Não se mistura com o povo,
O malandro do tunante:
Na China come um ovo,
Aqui tinha espumante.
















32
Aqui tinha espumante
P’ra brindar à geração
Que do trabalho é amante
E nos deu esta lição.


33
E nos deu esta lição:
A gente sonha, a obra faz-se;
Com a força da união,
É a vida que renasce.













34
É a vida que renasce
Nesta pedra, neste chão;
Não temas que ela se gaste,
Se a viveste com paixão.

(In memoriam dos pais fundadores desta casa, José Carneiro & Maria Ferreira)

Texto de L.G.; créditos fotográficos: © Luís Graça (2004 e 2005); 
© Augusto Pinto Soares (2005)


Candoz, Setembro de 2004/Maio de 2005