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08 setembro 2013

Parabéns, querido Zé, pelos teus 65!... Muita saúde e longa vida (2): Quadras de Luís Graça


Vídeo (2' 17''). Alojado em You Tube > Nhabijoes

Marco de Canaveses, Paredes de Viadores. Continuação da festa da família Ferreira, agora na casa da Quinta de Candoz.. 7-8 de setembro de 2013. Parte musical: Júlio e João (violinos), Gusto e Tiago (acordeões), Manuel (violão), Filipe e Miguel (violas)..Joãozinho e Nitas (cavaquinhos). Luís Graça diz quadras de parabéns ao cunhado, Zé Ferreira Carneiro, que fazia 65 anos, e que é o caçula da família. Vídeo (sem condições de luz...): Alice Carneiro (2013).



Teresa e Zé, o aniversariante. 

Foto e texto: Luís Graça (2013)

É rapaz de quarenta e oito
O nosso mano Carneiro,
Se não é o mais afoito,
É todos o mais po...rreiro!

Parabéns ao nosso Zé
Por mais este aniversário,
Bem se livrou da Guiné,
N'Angola não foi otá...rio!

Dois anos por lá andou,
No norte, em Camabatela,
C'o rádio às costas penou,
Foi um tempo bem... fatela!

Com muitos esses e erres
È o Zé Rei, Sua Alteza,
Bendito entre as mulheres,
Dona Olinda, Dona... T'resa!

Pode ser um bocado marreta
Mas é grande trabalhador,
Da enxcada à picareta,
E das Madames condu...tor.

É um poço de ternura
Para cunhados e manos, 
Tê-lo em Candoz é ventura,
Para mais em dia de...anos!

Saúde e longa v ida,
É o que a gente te deseja,
Diz a Teresa, querida,
Pondo no bolo a...cereja.

Venha daíu a champagna
Que hoje é dia de borracheira,
Não é francês, não é patranha,
É do nosso Murga...nheira!


08 setembro 2012

Cartas de Camabatela (Angola, 1970/71): do Zé para a mana Chita...



Candoz > 23 de agosto de 2012 > O Zé, com o seu afilhado João, filho mais novo da sobrinha Susana... O Zé, reformado dos seguros,  também já é avô, tem um belo neto, o Diogo, filho do Pedro.



Lourinhã, Praia da Areia Branca > 17 de agosto de 2012 > A mana Chita, na hora do pôr do sol... Em 1973 ela veio trabalhar para a Lourinhã, por um mês, para suprir a falta de um elemento da equipa local da Junta de Colonização Interna...

Texto e fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


1. O Zé faz hoje anos. 64. Nasceu no dia da festa do Castelinho, a 8 de setembro de 1948. O mais novo de 7 irmãos, 3 rapazes e 4 raparigas (das quais uma morreu, ainda criança).

Como todos os rapazes da sua geração, foi chamado a servir o país, durante a guerra do ultramar. Esteve em Angola. Foi 1º  Cabo Transmissões de Infantaria, de rendição individual, numa companhia que guardava os cafezais lá região, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe. Hoje, Camabatela ou Kamabatela, sede do município de Ambaca, pertence à província de Kwanza Norte. CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar. A CCAÇ 312 estava Belongongo e CCAÇ 311 em Mussungo.

O Zé  não parece ter grandes saudades do seu tempo de tropa e de guerra. Recebia e escrevia muitas cartas e aerogramas, isso sim. Das que recebeu (dos manos, pais, cunhados,  amigos, amigas ...) guardou-as todas, e arquivou-as, uma a uma, por autor e data... S´da Chita, tem mais de 100, no seu arquivo. Essa coleção é já um hoje um fonte de informação interessante não só para a história da família mas também sobre o quotidiano da guerra em África, e das necessidades e preocupações que os nossos militares deixavam transparecer. As saudades da terra eram sempre mais do que muitas, as referências às festas anuais, à matança do porco, às vindimas, ao Natal, etc., eram frequentes.  Era isso que fazia lembrar a pátria distante... Nos dois anos que lá esteve, nunca veio a casa, que as viagens eram caríssimas.

Quisemos fazer-lhe uma pequena surpresa, selecionando algumas das cartas que ele mandou à mana Chita, e que felizmente chegaram até nós (apenas umas 20 e tal). Muitas outras ter-se-ão perdido, com o tempo. A Alice já trabalhava e andou por vários sítios. Aqui vai então uma pequena antologia de excertos dessas cartas, com os parabéns natalícios da mana Chita (e do Luís). Para o Zé, que merece tudo, muita saúde e longa vida!...AC / LG





2. Cartas de Camabatela: do Zé Carneiro para a mana Chita (1970/71) > Excertos

Remetente: José Ferreira Carneiro, Caixa postal 150, Camabatela, Angola

Camabatela 19/05/70 

Querida mana.

Aqui me tens de novo, conversando como estivesses a meu lado. Começo por te desejar óptima saúde na companhia das tuas colegas e de toda a nossa família.

Já deves ter conhecimento de que estou de novo no destacamento. Cá estou a passar mais 45 dias de férias no mato…

Quanto ao meu castigo, tenho-te a dizer que ficou tudo em águas de bacalhau. O Capitão chamou-me e só me disse que não devia ter feito a troca sem o avisar. Escusas de te preocupar, está tudo bem.

Por hoje é tudo. Recebe do teu mano um xi coração muito forte, adeus até 1971. 



Camabatela 16/06/70

Querida mana Chita

Estou a escrever uma carta porque os aeros [aerogramas] chegam a demorar cerca de um mês até chegarem ao seu destino, isto quando não são devolvidos. Estou mesmo muito aborrecido com isto. Pensei agora só escrever cartas, mas de 15 em 15 dias. Assim as cartas só demoram 3 dias a chegar a vossa mão. Tens que escrever é para a caixa postal. Que achas? Assim não repetimos as notícias. Quando receberes carta minha, peço-te que telefones aos pais para ficarem descansados. Está bem assim?

Já te mandei o nº dos sapatos por 4 vezes e ainda continuas a pedir!.. Isto quer dizer que não tens recebido o correio.

Então como anda a tua saúde? Iniciei a carta sem fazer aquela lenga, lenga de sempre… Quanto a mim, desde já te digo que estou forte e que gozo de boa saúde.

Termino com um xi coração muito apertado do teu mano que te adora. Bjs 


Camabatela 04/07/70

Agora mesmo acabo de receber mais uma carta tua, juntamente com uma encomenda que trazia os sapatos e a camisa. Cada vez as encomendas estão a demorar menos tempo. Comparar com as primeiras que foram enviadas!...

Os sapatos e a camisa ficam-me a matar, só não queria que mos oferecesses. Tens mais em que gastar o dinheiro, mas aceito. Esta não está esquecida!

Já estou de novo em Camabatela, já estava cansado de tanto capim. Não posso dizer mal, porque desta vez engordei 3kg e aqui perco sempre peso.

Faz hoje 11 meses que embarquei em Lisboa, já pouco mais falta do que um ano, e um já se passou!...


Camabatela 18/11/70

Depois de ter chegado de uma operação que durou 5 dias, aqui estou a dar-te notícias.

Hoje mesmo parto novamente para o mato, onde vou passar o Natal e talvez o Ano Novo. Desta vez calhou-me a mim, o ano passado foram os meus colegas.

Com isto, estou quase a entrar no ano da peluda [, fim da comissão e passagem à disponibilidade]. Cada vez falta menos. Oxalá que este termine sem problemas.

Apesar de ainda não saber o que vou fazer quanto ao meu futuro de vida, não me sinto com ideias de meter o xico….

Por aqui vou ficar, mandando cumprimentos para todos os nossos vizinhos, as tuas colegas, e tu do mano muito amigo, um forte xi coração. 


Camabatela 14/01/71

Aproveito estar uma grande trovoada e chuva para te escrever, porque assim as comunicações não funcionam, tenho que desligar os aparelhos.

A encomenda que mandaste, chegou dois dias depois do Natal. Chegou tudo bem. As castanhas começamos a comê-las e só terminamos quando acabaram. Sabes uma coisa? O bolo Rei não tinha fava!

Já só faltam 7 meses! Isto vai com calma.

Enquanto vós estais aí com grandes nevões, (segundo dizem os jornais), por aqui a temperatura é agradável, só as chuvas é que são esquisitas.

Já estou de novo em Camabatela. Já estava saturado de estar no mato e de ver tanto capim.

Acompanhado duma boa musiquinha, consegui estar contigo no pensamento.

Agora que o temporal já lá vai, tenho que regressar ao trabalho e ligar os aparelhos que já me provocam raiva só de olhar para eles. Tenho que estar em forma.

E assim me despeço com um forte xi coração do teu mano amigo. Adeus e até Agosto ou Setembro.


Camabatela 15/02/71

Querida mana,  não calculas como eu fiquei ao ler a tua carta e me falavas da matança do porco. Aquelas fêveras e os rojões de que falavas. Não continha a minha cabeça e os meus pensamentos. Pareciam o Rio Douro quando traz uma enchente das chuvas. O mano António também me falou do mesmo.

Sabes uma coisa? Estou muito, muito cansado. Andei 3 dias e 3 noites no mato a andar sem poder dormir e ainda carregado com o respectivo rádio. A roupa molhou-se e secou-me no corpo por 3 vezes. Foi por esta razão que te demorei mais a escrever.

Querida mana, quanto ao que vou fazer quando acabar a tropa, o mais certo é eu ir estudar. Sem isso eu não tenho possibilidades de ter um emprego digno. Já falei com o Capelão para me colocar como Perfeito no Seminário, assim já podia estudar e trabalhar. 


Camabatela 17/05/71

Espero que esta minha carta te vá encontrar de óptima saúde, bem como toda a nossa família.

De facto tens razão em dizer que estou a esquecer-me um pouco de voz, mas não. Nada tem acontecido de grave por cá. Tudo corre pelo melhor.

Não te devia dizer, mas já estou de novo no mato. Esta estadia aqui, será a última para completar a minha comissão.

Não estejas preocupada que eu aqui no mato só tenho como rival o isolamento. De resto tudo é melhor do que na vila de Camabatela.

Quando me falas do que vou fazer quando regressar. Nada te sei dizer, estou a ver tudo muito escuro, mas na lavoura eu não quero ficar.


Camabatela 14/06/71

Querida mana.

Só hoje recebi a tua carta e logo te respondo. Parece impossível que as cartas demorem tanto tempo. Entre tu escreveres e eu receber, chegam a demorar 15 a 20 dias. Chegamos a estar 20 dias sem correspondência o que é muito duro para quem está aqui. As coisas ainda pioram mais quando estamos no destacamento (mato) que chegamos a estar 45 dias.

Também penso o mesmo que tu, que sou preguiçoso, que já não tenho saudades vossas, etc. etc. mas o que interessa é que só faltam 50 dias para isto acabar.

Vou te contar um segredo: Andei a fazer umas economias para comprar uns presentes para vos levar, mas acontece que um colega que sabia do meu mealheiro, foi lá e roubou-mo. Eram 2.500$00. Este colega foi-me falso e ando muito triste, mas tenho que esquecer. Depois quando eu chegar, te contarei melhor como tudo aconteceu.

Gostava de chegar aí e tu estares ainda de férias, seria bom, mas a tropa é que manda!..


Camabatela 04/08/71 


É precisamente o dia que devia terminar a minha comissão e que te escrevo para desta forma estar em contacto contigo.

Aquilo que desejas saber, ainda não é desta. Porque apesar de ter terminado a minha comissão, ainda não chegou o substituto para me render, mas como há falta de pessoal tenho que aguentar. Com a graça de Deus tudo vai acabar bem.

Desta vez a minha carta levou pouco tempo a chegar aí. Nesse mesmo dia escrevi também a mana Nitas.

Desculpa não escrever mais, mas estou cheio de sono.

Um forte abraço de saudades do teu mano Zé

08 setembro 2010

Efemérides: Angola, Camabatela, 8 de Setembro de 1970: O mano Zé estava na guerra e fazia 22 anos anos...







Imagens: A Nossa Quinta de Candoz (2010). Todos os direitos reservados



Reprodução da carta que a mana  Chita mandou ao mano Zé quando ele fez 22 aninhos... Ele, lá longe, no Norte de Angola, em Camabatela, para onde a Pátria o chamou, entre 1969 e 1972, uma eternidade...Ela já a trabalhar, mas ainda a viver em Candós, na casa dos pais... O mano Zé era 1º Cabo Transmissões de Infantaria, de rendição individual, numa companhia que guardava os cafezais lá região, perto de Negage e de Quitexe... Mas a gente não se lembra agora do número da companhia... Sabemos que o Zé nunca mais se voltou a encontrar com os seus antigos camaradas... 40 anos depois, quando faz 62 aninhos, quisemos fazer-lhe esta surpresa. Eu,  Chita, o Luís, a Nitas, o Gusto, a Rosa, o Quim... e o Pedro, sócios de A Nossa Quinta de Candoz, só lhe podemos desejar mais outros 40!... Muita saúde e longa vida, porque a um homem bom como tu Deus dá tudo... Um xi-coração apertadinho da tua mana...

PS - Ah!, e obrigada por teres arquivado as cartas e os aerogramas que a gente te mandava!... Tudo direitinho!...

Candós, 9.9.70


Querido Mano:


Após algumas horas terem passado do teu aniversário [, ontem, dia 8,], aqui estou a contar-te como o passámos.


Como já há 6 anos que lá não [ ia, à festa do Castelinho, ], este ano sempre me decidi e fomos, eu, o pai, a Rosa, o Quim, António e Graça. Fomos de manhã e chegámos à noite.


Para te dizer que gostei muito, isso não. Sabes que só era alegria quando fazíamos as viagens a pé. Agora ninguém o faz e portanto deixa de ter aquela alegria sã como dantes. Isto é a minha opinião!... Mas julgo que a dos outros será a mesma.


Assisti à Santa Missa no adro e depois do almoço fui para o penedo onde permaneci até vir embora. Não estava calor, pois de manhã tinha chovido, portanto não fazia pó. Fomos todos à capela rezar por ti e assim se passou o dia.


Não andava muito contente mas isto são problemas de 'amor'. E também por que estou muito magra, depois que vim de Lisboa já emagreci ainda mais 4 kg. 

Também te quero dizer que hoje mesmo recebi mais uma carta tua. Até que enfim te decidiste a escrever-me. Acredita que andei uns tempos chateada, mas já passou. 

Quanto às fotos realmente tens razão. Eu tinha uma série delas tiradas em Pegões, e ficaram de mas mandar, mas até hoje ainda nada apareceu. Até eu estou a ficar aborrecida, mas o remédio é ter paciência. Quando me for possível, eu tas mandarei.


Neste momento estou a escrever-te do consultório médico. Vim com a mãe, vamos ver o que diz o médico. Não te aflijas porque [ela] anda bem, o médico é que quer ver se está melhor.

Quanto às uvas, para já o preço de 2$80 o kg, não é mau de todo mas a s vindimas só podem ser feitas a partir do dia 28. Isso é que será pior e mais ainda se agora não parar a chuva, então teremos tudo podre.


Por hoje é tudo, resta-me finalizar com um abraço da família Barbosa e meninas, cumprimentos dos vizinhos, beijinhos dos pais e da tua mana uma xi-coração de amizade. Maria Alice.


PS – Escreve para casa porque, embora trabalhe todos os dias, venho cá dormir.





















Angola > > Cuanza Norte > Ambaca > Camabatela > Janeiro de 1974 > Avenida central de Camabatela; ao fundo,  a igreja católica.  A cidade de Camabatela (ou Kamabatela, como também se escreve hoje ) foi fundada pelos portugueses em 1611, e é  sede do município de Ambaca, na província do Cuanza Norte (ou Kwanza-Norte), a leste de Luanda. Foto de Henrique J. C. de Oliveira, Cambatela, 1/1/1974.

Foto: Cortesia de Prof2000 > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital

01 janeiro 2008

Álbum de família (1): A visita do sargento Touguinha

Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz> Circa 1965 > O nosso António, o mais velho, depois de regressar do Brasil, aos 24 anos, teve de cumprir o serviço militar. Estamos em meados dos anos sessenta. Com a especialidade de Magarefe, da Manutenção Militar, foi mobilizado para Moçambique.

Em Tete, o António sofreu um grave acidente com uma pistola-metralhadora ligeira, uma UZI, disparada acidentalmente por um camarada... Milagrosamente salvou-se. Hoje é um DFA - Deficiente das Forças Armadas (com cerca de 2/3 de incapacidade).

Depois do seu regresso do Hospital Militar Principal, em Lisboa, recebemos a visita de um sargento da sua unidade, o Sargento Touguinha, que foi para o António um verdadeiro anjo da guarda. Sem a a acção dele, provavelmente o nosso mano não se teria salvo.

Na foto, podemos ver da esquerda para a direita, o António, de cigarro na boca, o Touguinha e a esposa, a Nitas (que deveria ter 18 anos), a Fernanda (vizinha, filha do sapateiro), o pai Carneiro (fazendo as honras à casa, com o copo e a caneca de vinho na mão), a Alice e a Rosa (já casada, a viver no Porto)... As criancinhas são as filhas da Rosa (e do Quim), a Zeza (a mais velha), junto à mãe, e a Natália. Por este pormenor, deduz-se que a foto terá sido tirada no Verão, na época das férias. Por outro lado, o pai Carneiro estava com os socos com que costumava andar no campo, a regar o milho.

A foto deve ter sido tirada com tripé e temporizador. Há uma outra foto em que aparece o Zé, ao lado da Rosa.

Onde quer que este nosso amigo esteja (disseram-nos que já morreu), os nossos eternos agradecimentos por tudo o que ele fez pelo nosso mano António.