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26 junho 2017

In memoriam: Jorge Dinis (1962 2017)




Marco de Canveses > Paredes de Viadores > Festa da família Ferreira > 10 de julho de 2011 > Da esquerda para a direita: o Tiago (que fazia 29 anos), o Jorge Dinis, a Paul e, de costas, a filha mais velha da Paula e do Jorge, a Carolina ("Kika")






Marco de Canveses > Paredes de Viadores > Festa da família Ferreira > 10 de julho de 2011 > O Jorge e a Paula (Ana Paula, para os amigos)



Marco de Canveses > Paredes de Viadores > Festa da família Ferreira > 10 de julho de 2011 > Alguns dos muitos músicos que animaram a festa: a Carolina e o João (violino), o Mariano (guitarra portuguesa) e o Luís Filipe (viola)

Fotos do álbum das famílias Carneiro e Soares (2011)






Tanatório de Matosinhos > 27 de junho de 2017 > A despedida

Foto de Luís Graça (2017)


Oração fúnebre  ao nosso querido 
Jorge Dinis (1962-2017)



Querido Jorge:


Já não estás entre nós
neste princípio do verão do nosso descontentamento,
o barqueiro de Caronte
levou-te para a outra margem.
Há agora um rio a separar-nos
definitivamente,
a separar os deuses e os heróis
dos simples seres humanos, mortais.
Só os primeiros têm o privilégio
de fazer a viagem de ida e volta.

Mas estamos todos aqui a despedirmo-nos de ti,
para que esse rio não seja
o do esquecimento e da ingratidão.
Em termos poéticos,
é uma imagem poderosa,
que nos vem da antiguidade clássica,
essa do rio Caronte
e do seu barqueiro
a quem os mortos têm que dar uma moeda
para que os leve, em paz, para a outra margem.

Jorge:
a vida, a história, a geografia
aproximaram-nos e separaram-nos.
Os dois, tu e eu,  nunca fomos íntimos
mas tínhamos o privilégio de pertencer
a uma grande família,
pelo casamento.
E é em meu nome e de todos eles,
e, por extensão, em nome dos teus demais amigos
que eu te faço esta singela oração fúnebre
(ou elegia ou, talvez até com mais propriedade, elogio).

A última vez que te vi foi há seis anos,
na festa da família,
em 10 de julho de 2011,
acompanhado das mulheres da tua vida,
as tuas "princesas".
Guardo de ti e das poucas fotografias que temos de ti,
a serenidade do  teu olhar,
o teu trato afável,
o teu fino sentido de humor,
o grande amor que tinhas pela tua família,
a paixão pela vida 
e o prazer das coisas boas da vida.
Lembro-me de ter estado contigo
também nalgumas datas especiais,
como as festas de Natal,
sem esquecer o dia o teu casamento com a Paula:
levavam já vocês a Carolina, ao colo!...
Dupla festa de casamento e batizado,
e que bonita que foi!

Deixa-me recordar aqui os versinhos que te fiz,
em nome dos tios e  tias da família Carneiro,
que estavam na mesa  seis,
com os respetivos consortes,
Deixa-me transcrever as três últimas quadras
que rezavam assim:


(…) Uma querida menina,
Diz o pai, Jorge Dinis,
O amor é uma mina
P'ró economista f'liz!

P'ró economista f'liz
Amor vem sempre primeiro
A Paula assim o quis,
Com a benção do Carneiro

Com a benção do Carneiro,
No vale dos Raposinhos
Não falte paz e dinheiro
A este par d'amorzinhos. (…)

Depois veio a Maria
para completar a vossa felicidade.
Tiveste tudo na vida ou quase tudo.
A tua morte deixa-nos agora devastados,
a todos nós, teus familiares,
e aos teus amigos, 
os teus "caros", como lhes chamavas,
aqui presentes
para te render a última homenagem 
e despedir-se de ti.

É sempre triste a despedida,
a separação,
e, pior ainda, quando não anunciada.
Um dia destes,
num qualquer dia de uma das Quatro Estações do Ano,
também nós tomaremos lugar
nesse barco do barqueiro de Caronte.
Mas até lá, vamos teimar
em continuar a ver-te
com o teu ar sedutor,
com a tua presença luminosa,
com a tua facilidade em estabelecer 
relações e amizades.
Falo daqueles que te conheceram,
e tiveram o privilégio de lidar contigo,
a começar pelas tuas mulheres,
que muito te amaram e te amam.

E aqui deixa-me
destacar a nossa Paula
a tua Paula
por quem rezamos,
para que não lhe falte a fortaleza dos rochedos 
das praias de Gaia,
nesta hora de grande provação,
bem como as tuas filhas Carolina e Maria
cujo amor e coragem
passarão a ser uma referência
para todos nós.

A última consolação que nos resta
é a de saber que, se há um lugar
para os humanos
no condomínio de luxo dos deuses,
lá no Olimpo,
tu já ganhaste esse lugar, 
por decisão nossa e mérito teu em vida.
Quando também chegar a hora
da  nossa partida
no barco de Caronte,
haveremos então, todos juntos,
de reatar as conversas
que a tua morte estupidamente  interrompeu.

Foste à frente de todos nós,
mas a tua vida iluminou-nos
e a tua nobreza na adversidade
engrandeceu-nos,
a todos nós,
teus familiares e amigos.

Jorge, temos muito orgulho em ti!

E, no entanto,
quantos projetos não ficaram ainda 
por concretizar,
meu amigo!
E se tu tinhas ganas
de viver,
de vivê-los,
com a tua Paula
com as tuas filhas Carolina e Maria
com os teus amigos!...
Com a tua Carolina, a tua Kika, 
que quer ser médica 
e há-de ser um grande médica,
para orgulho teu 
e de todos nós!

Guardaremos connosco
as melhores recordações
do melhor de ti,
tu que foste um homem inteligente
e bom
e generoso

e amigo do seu amigo!

Quem fica do lado de cá,
separado por esse rio intransponível,
fica sempre desolado e inconsolável
pela perda irreparável
que é a morte,
a tua morte,
a qual é também a nossa futura morte.

Quem fica do lado de cá,
como nós,
fica a dizer-te adeus,
numa despedida
que é sempre breve,
porém dolorosa,
tingida já da agridoce saudade,
que dizem ser tão típica dos portugueses.
Os teus amigos de Gaia e do Porto
e de todos os lugares do mundo
onde foste feliz,
ficam no cais do rio Douro a dizer-te a adeus,
convencidos que partiste apenas
para outra cidade noutro continente,
ou noutra outra galáxia.
Como disse um amigo teu, 
com dolorosa ternura, no Facebook,
vamos supor que mudaste apenas
para o andar de cima
da casa dos teus sonhos no vale dos Raposinhos.

Leva contigo estas últimas palavras
dos teus amigos e familiares,
que elas te ajudem a atravessar o Caronte,
e a fazer boa viagem.

De regresso a casa,
vamos ajudar as tuas "princesas",
a  suportar um pouco melhor,
a tua trágica partida.
a dulcificar as lágrimas de sal,
a fazer o luto,
a construir a ponte sobre o Rio de Caronte.
É por isso que aqui estamos,
é para isso que servem a família
e os muitos e bons amigo que tu tinhas 
(e continuarás a ter) .

Até sempre, Jorge!... Ou até logo!

Tanatório de  Matosinhos, 27 de junho de 2017, 11h


a) Luís Graça, em nome da família Carneiro 
e demais amigos

13 fevereiro 2014

In Memoriam: Maria da Graça (1922-2014)



Lourinhã, jardim da Senhora dos Anjos, 1947: eu, aos 8 meses,
ao colo da minha mãe, Maria da Graça (1922-204) e ao lado do
meu pai, Luis Henriques (1920-2012). Foto: LG


In Memoriam, Maria da Graça (1922-2014)


Oração dos filhos, nora e genros, netos e bisnetos,
demais parentes bem como amigos
que vieram de mais longe ou de mais perto
(Porto, Fundão, Lisboa, Torres Vedras, Nadrupe, Atalaia, Lourinhã...),
para acompanhar a Maria da Graça,
"até à sua última morada",
e a quem eu estou muito grato e reconhecido.

Um xicocoração apertado para a Nitas, o Gusto, o Zé e o Quim
que, num dia triste de chuva e vento, fizeram mais de 500 km
para nos apoiar e consolar.
Obrigado ao resto da grande família de Candoz
que nos telefonou,
dando uma palavrinha de consolo.
Luís/Alice e restante família da Lourinhã


Minha querida mãe,
em nome de todos nós,
tua família e amigos,
e por ser o filho mais velho
deixa-me dizer-te
algumas palavras, breves, de despedida,
mas também de agradecimento e esperança.

Chegaste ao fim da autoestrada da vida,
ao km 91,
serenamente, sem dor, em paz.
E preparas-te para fazer outra viagem,
a travessia do rio Caronte,
como diziam os gregos antigos:
uma viagem de que nenhum mortal alguma vez regressou.

Estamos aqui,
na igreja onde tu me trouxeste para me batizares,
num dia frio como este, em 1947,
estamos hoje aqui
para te dizer
quanto te amamos.
Não ficarás na história com H grande,
mas ficas na nossa história,
nos nossos corações,
nas nossas memórias,
nas fotos e vídeos que fizemos,
nas palavras que sentimos,
nas palavras que te dissemos ou escrevemos,
nos gestos de amor, afeto e carinho
que trocámos…

Despedes-te da terra da alegria,
como diz o poeta Ruy Belo,
despedes-te da grande família
que, como uma verdadeira matriarca,
criaste, alimentaste, cuidaste…

Não vou dizer que foste a melhor mãe do mundo
porque estaria a fazer comparações sem sentido.
Para nós,
teus filhos, netos e bisnetos,
foste muito simplesmente
a mãe querida,
a sogra amada,
a avó babada,
a bisavó velhinha,
a boa amiga…

Não há palavras
para explicar o mistério da vida e da morte,
mas aqui, nesta oração, cabe uma palavra,
de reconhecimento,
de agradecimento
pelo amor incondicional que sempre tiveste por nós,
e pelo nosso saudoso e querido pai.
Por nós, teus filhos, nunca esqueceremos
os teus pequenos grandes gestos de amor,
desde a preciosa vida que nos deste
até ao desvelo e carinho
com que ajudaste a nascer e a a criar
e viste crescer os teus netos e bisnetos.

Foste uma boa mãe,
como todas as mães do mundo...
e eu, da minha parte, nunca esquecerei
que, com as minhas irmãs e o meu pai,
rezavas por mim, todos os dias,
nos quase 700 dias
em que estive lá longe,
na guerra, na Guiné.

Como rezavas por todos nós,
pelos teus demais filhos e netos
nas horas difíceis,
na véspera de um exame
ou na incerta hora de um parto.

Tal como pai, que tratava carinhosamente
por “Maria, minha cachopa”,
partes em paz contigo,
com o mundo,
e com Deus.
A tua vida foi um livro aberto,
a de um mulher simples e generosa
que nada ou muito pouco pedia em troca
e que tanto deu,
em serviço aos outros.

A tua vida,
a tua morte
são também um exemplo,
para todos nós,
de esperança, de tenacidade, de verdade e de bondade.
O teu exemplo e a tua doce memória
vão-nos acampanhar pelo resto das nossas das vidas.

Deixa-me, por mim, mandar-te um recado
dos teus netos e bisnetos,
estão aqui todos,
exceto o Filipe
que não pôde vir a tempo, de Inglaterra,
mas que está connosco em pensamento.

Avó linda, avó velhinha,
estamos-te gratos
por tudo o que nos deste em vida.
Falaremos de ti com saudade e ternura.
Vela por nós,
lá do alto,
onde já tens uma estrelinha com o teu nome,
Maria da Graça.

Igreja de Santa Maria do Castelo, Lourinhã, 13/2/2014

13 abril 2012

Na morte de Luís Henriques (1920-2012): uma palavra de agradecimento e apreço ao Lar de Nossa Senhora da Guia, Atalaia, Lourinhã


De.- Luis Graça e família

Para: Direção do
Centro de Dia e Lar Nossa Senhora da Guia
Estrada Nossa Sra. Guia 2
Atalaia
2530-014 ATALAIA LNH
Email –aschatalaia.asocial.anacaetano@gmail.com 
Telefone: 261 423 971

Assunto – Luis Henriques: agradecimento da família



À direção e a todo o pessoal desta prestigiada associação privada de solidariedade social, eu quero transmitir, em meu nome, em nome da minha mulher Maria Alice, e dos meus filhos Joana e Joana, duas palavras, uma de agradecimento e de outra de apreço, na sequência da morte do meu pai, Luís Henriques (1920-2012). Estou autorizado a falar também em nome do resto da família, e em especial das minhas irmãs Graciete, Maria do Rosário e Ana Isabel.

O meu pai foi vosso utente desde meados desde 2008. Infelizmente, a morte levou-o no passado dia 8, num soalheiro domingo de Páscoa. Mas nestes quase cinco anos que aí viveu, na companhia da minha mãe, ele sentiu-se sempre em casa, e referia-se a esse Lar como a sua nova família.

Pelo menos, desde setembro de 2008 até abril de 2011, o meu pai foi escrevendo, por sugestão minha, um diário onde registava, com regularidade, os “pequenos nadas” da sua existência nesta fase terminal da sua vida. Tenho os três cadernos que constituem o seu diário, com mais de 500 páginas manuscritas. Precisarei de tempo e vagar para os ler e analisar.

Há frequentes referências aos serviços e ao pessoal dessa instituição. Segue em anexo uma coleção de excertos do 1º caderno (de 9/10/2008 a 7/6/2009), selecionados a título meramente exemplificativo. Julgo ser também do vosso interesse conhecer melhor a autoperceção que têm os vossos utentes, relativamente às suas necessidades, expetativas e preferências, e avaliar a sua satisfação (bem como a satisfação dos seus familiares) em relação aos serviços prestados.

No seu diário, o meu pai refere-se sempre com grande delicadeza e ternura ao pessoal do Lar: as cachopas, as meninas, a senhora doutora, as senhoras cá da casa, as cachopas novas (estagiárias), o médico, a menina da enfermaria… E faz questão de mencionar os seus nomes: hoje deu-me banho a menina tal…

Por outro lado, mostrava sempre particular cuidado com a segurança e o bem-estar da nossa querida mãe, Maria da Graça, sua esposa e companheira de quarto… E sabia que podia contar com o precioso e pronto auxílio das vigilantes dos quartos, em caso de ocorrência de qualquer acidente ou incidente durante a noite…

Ele gostava também de participar em iniciativas do Lar, tais como festas, convívios, jogos, saídas e outras atividades de animação e lazer… Sentia-se bem quando o apreciavam e achavam graça aos seus ditos espirituosos, aos seus versos improvisados, às suas anedotas e historietas… Colaborava com agrado, sempre que solicitado: No lar querem versos do Natal (19/10/2008).

Amiudadas vezes referia-se à comida do lar, apreciando a sua qualidade e variedade… Sentia-se em casa, embora gostasse muito de receber visitas e de sair… Faz hoje 7 meses que aqui estamos, no Lar, até aqui tudo bem (23/1/2009).

Tinha um forte sentido de compaixão e de solidariedade: conformava-se com as suas dores crónicas, sabendo que havia outros utentes em pior situação que a dele… Embora limitado na sua autonomia, gostava de ajudar e sobretudo animar os outros.

A cultura do lar era também congruente com a sua idiossincrasia: Fico triste pelos que se encontram piores do que eu. (…) Sou feliz, embora pobre, mas alegre, e gosto de conviver com todos (30/10/2008).

Julgo que a sua atitude e os seus comportamentos em relação ao Lar, ao pessoal e aos utentes não mudaram muito nos anos seguintes, não obstante o agravamento do seu estado de saúde, em especial a partir de meados de 2011. Era, pelo que sabíamos e víamos, uma pessoa popular e querida de todos. Não creio que tenha criado inimizades.

Acima de tudo, ele encontrou neste Lar pessoas de grande qualidade humana e de elevado profissionalismo. Exprimiu-o, no seu diário, de forma singela, mas assertiva.

Compete-me a mim, interpretando também o sentimento de toda a nossa família, reforçar essa palavra de apreço por essa instituição que é a diversos títulos singular e exemplar: (i) a sua proximidade e abertura a (e constante interação com) a comunidade local, incluindo os familiares dos utentes; (ii) a eficiência e a eficácia com que os seus profissionais realizam as suas tarefas diárias; (iii) o seu elevado sentido de missão, o seu empenho e a sua competência; (iv) a humanização presente na organização e funcionamento do lar; (v) o ‘human touch’, o toque humano, que se sobrepõe (e deve sempre sobrepor-se) aos programas, aos planos, aos orçamentos, às políticas, às tecnologias; (vi) a discrição e a humildade com que ali se trabalha, fora das ‘luzes da ribalta’; (vii) a disponibilidade e a sensibilidade com que se lida com (e se tratam) seres humanos tão vulneráveis como são os nossos idosos institucionalizados; (viii) o forte espírito de corpo de cada uma das equipas que asseguram o funcionamento do Lar; (ix) o constante cuidado com o bem-estar, físico, mental, psicológico e até espiritual, dos utentes; e, por fim, e não menos importante, (x) o saber estar, o saber ser, o saber fazer dos vossos profissionais em relação à morte e ao morrer…

Queria sublinhar a maneira sempre hospitaleira, franca e carinhosa, como, no meu caso pessoal, da minha mulher e dos meus filhos, somos recebidos e tratados nesse lar, enquanto visitas. As minhas irmãs também partilham esta opinião. A verdade é que, ao fim destes anos todos, também já nos sentimos em casa, sempre que aí vamos, em geral aos sábados.

Muito em particular, foi para mim e para a minha mulher, Maria Alice, muito importante termos podido passar, com o meu pai, a noite de 4 para 5 de abril de 2012, depois de uma viagem de quase 4 horas, vindos do norte onde nos preparávamos para celebrar a Páscoa.

Nos três últimos dias da sua existência, podemos sempre visitar o meu pai e estar com ele no seu quarto, dentro do respeito das vossas regras de funcionamento. Gostaríamos, no entanto, de deixar aqui um sugestão quanto à possibilidade de os familiares mais próximos (em nº necessariamente restrito) poderem estar ao lado dos seus entes queridos, nos últimos momentos da sua vida.

Acreditamos que a organização do Lar pode não estar, de imediato, preparada para responder a este pedido ou sugestão. Mas seria, se não um exemplo pioneiro (há já hospitais e outras instituições onde tal acontece), pelo menos um passo muito significativo na humanização da morte e do morrer em Portugal.

Sabemos que o nosso pai não morreu sozinho, teve a seu lado duas das vossas melhores profissionais que, por razões óbvias, não vamos identificar, por que correríamos o risco de subvalorizar o trabalho de outras colegas, em iguais circunstâncias.

Estávamos a acabar de chegar ao Lar quando o meu pai exalou o último suspiro. Conforta-nos saber que ele se despediu desta vida, em paz consigo, connosco, com Deus e com o mundo. E que morreu com a dignidade humana possível.

Peço à direção do Lar que dê conhecimento, a todos os profissionais dessa casa, do conteúdo desta mensagem, e que lhes transmita toda a nossa gratidão, reconhecimento e apreço pelo carinho, amizade e compaixão com que trataram o meu pai e continuam a tratar a minha mãe.

O melhor do Lar e Centro de Dia de N. Sra. da Guia são as pessoas que lá trabalham, no ‘front office’ e no ‘back office’. O nosso sentimento de apreço e de agradecimento é extensivo, naturalmente, às pessoas que compõem os órgãos de gestão e de direção técnica.

A todos/as, o meu, o nosso Bem Hajam !

Luís Graça, em nome de toda a família de Luís Henriques e Maria da Graça.

Alfragide, Amadora, 12 de abril de 2012.

__________________

Anexo - Diário de Luís Henriques (2008-2011): Seleção de excertos do 1º caderno (de 9/10/2008 a 7/6/2009)

10/10/2008

(…) As cachopas já reinam com o ti Luís, chamo a isto uma verdadeira família (…).

14/10/2008

(…) Veio cá a televisão filmar-nos. Eu fui entrevistado, […]indicado para falar na apresentação de casais dos mais recentes desta casa (…).

19/10/2008

(…) No lar querem versos do Natal (…)

30/10/2008

(…) desta nova família que nos arranjaram, fico triste pelos que se encontram piores do que eu. Não tenho culpa de ter nascido assim. Por tudo isto, sou feliz, embora pobre, mas alegre, e gosto de conviver com todos. É esta a minha política: esquecer as minhas dores lembrando dos que se encontram bem piores do que eu (…).

7/11/2008

(…) A comida continua a ser boa. Tivemos ontem ao almoço cozido à Portuguesa (…).

8/12/2008

Nª Sraª da Conceição: festa cá na casa, missa na capela, seguida de almoço que demora a tarde inteira com atuação de animação variada e música, etc.(…)

16/12/2008

(…) 4ª feira, [17], é o almoço nos Teimosos, vamos ver como corre a partida (….).

17/12/2008

(…) Foi um dia bem passado, ela [, Maria da Graça,] até dançou, a meu pedido, com as senhoras cá da casa, até a própria doutora (…). Muita gente, velhotes também de outros lares, foi bonito, e não esperavam tanta gente (…).

23/1/2009

(…) Faz hoje 7 meses que aqui estamos, no Lar, até aqui tudo bem (…)

4/2/2009

(…) Estou contente de cá estar nesta nova família, estou a escrever e a ver televisão (…)

5/2/2009

(…) Hoje entrou mais gente para o Lar. E também mais estagiárias, gente que entrou para trabalhar, cachopas novas (…)

11/2/2009

(… ) Fui ao médico, Rui Martins, médico da casa: estava eu a jogar ao dominó, senti dores de cabeça e queixei-me à senhora da enfermaria. Chamou logo o doutor que depois observou-me e disse à menina para eu ir tirar análises (…).

13/2/2009

(…) Notei que o café fez-me bem disposto, até 4 novos elementos que aqui estão a estagiar riram com as minhas anedotas. Eles tiraram fotografias connosco. (…)

17/2/2009

(…) Fui convidado para irmos à Lourinhã, 4ª feira, desfilar, o pessoal cá do Lar, Moleiros e Padeiras (…).

1/3/2009

(…) Hoje foi um dia calmo neste Março Marçagão, de manhã inverno, à tarde verão (…)

5/3/2009

(…) O almoço foi coelho com arroz, bem bom. À tarde, peixe (goraz ou pargo ?), cozido com batatas, salada de alface, e uma pinga de tinto em cima (…)

20/3/2009

(…) Fomos avisados para estar na sala de televisão, ás 2h30. Foram passados retalhos do Natal, do Carnaval, etc. (…)

23/3/2009

(…) faz hoje 9 meses que aqui chegámos a este Lar. Depois do almoço tivemos uma sessão [sobre] vários jogos intergrupos. Foi engraçado, ver responder com gestos sem falar e tentar compreender, etc. (…)

25/3/2009

(…Faleceu a [cunhada] Elvira Barbosa (…). Levaram-nos ao Nadrupe (…). Fomos só velar o corpo e falar com alguns familiares. Chegou a hora dela, e a nossa também chegará (…).

29/3/2009

A menina F… deu-me banho (…)

/4/2009

(…) Boa comida, já escrevi aqui atrás. Tanto ao almoço como ao jantar (…)

6/4/2009

(…I) Esta noite passada a Maria da Graça caiu da cama abaixo. Eu consegui levantá-la. Eu pedi socorro, elas apareceram, mas já não foi preciso (…).

16/4/2009

5ª feira, dia de banhos, De manhã não saí à rua. De tarde veio cá o comandante da GNR da Lourinhã, a avisar os utentes cá do Lar, por causa do conto do vigário (…)

7/5/2009

(…) Hoje há uma pequena festa, o almoço e a merenda são passados lá no Pavilhão Multiusos com dança, e o Inácio está convidado para cantar e fazer variedades. Logo se vê como decorre a coisa. (…) Às 11.30 fomos para o Pavilhão, almoçámos lá todos, os do lar, os utentes, todo o pessoal que trabalha lá, e as próprias doutoras (…) Foi bom, dançaram, e 2 concertinas a tocar, e o Inácio também a cantarolar, etc. (...)

18/5/2009

(…) A Maria da Graça tem estado aparvalhada. Eu não alertei ninguém de cá, do que se passa (…).

19/5/2009

(…) Hoje foram apanhar a Espiga, tudo bem, mas eu não quis ir, fui até ao café buscar tinto para o almoço (…)

29/5/2009

(…) Esta noite a Maria da Graça passou a noite a vomitar, tive que chamar as meninas de serviço (…)

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Sitografia:

Blogue A Nossa Quinta de Candoz > 1 de julho de 2008 > Mensagem dos pais do Luís e sogros da Alice, agora no Lar e Centro de Dia de N. Sra. Da Guia, Atalaia Lourinha.

http://anossaquintadecandoz.blogspot.pt/2008/07/mensagem-dos-pais-do-lus-e-sogros-da.html

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 11 de abril de 2012 > Guiné 63/74 - P9731: Blogoterapia (208): Ajudando-me a fazer o luto pela perda de uma pessoa tão especial como o meu pai (Luís Graça)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/04/guine-6374-p9731-blogoterapia-208.html