Retrato do pai (do artista, quando jovem)
Meu querido
João,
A vida passa
tão depressa por nós…
Ou somos nós
que passamos tão depressa pela vida !?
Ainda ontem
estavas a nascer,
faltava meia
hora para o dia 22 de janeiro de 1984...
E uma hora
antes, íamos aos solavancos, de carro,
até ao Hospital
Particular,
ouvindo, na
rádio, canções com letras de um poeta,
Ary dos
Santos,
falecido
três dias antes, aos 46 anos...
Sabes, fomos
para o Hospital Particular,
para teres
um pouco mais de privacidade, ao nasceres,
que o melhor
daquele Hospital era estar
ao pé da
Maternidade Alfredo da Costa,
para o que
desse e viesse,
dizia a tua
mãe…
Ainda ontem eu
te segurava (mal) ao colo,
enquanto lia
os jornais do fim de semana,
e a tua mãe
te lavava os cueiros…
e eu te
deixava cair por entre as pernas,
e tu já começavas
a gatinhar
e a explorar
o pequeno grande mundo à tua volta.
Ainda ontem
te levava às cavalitas, logo de manhã,
até à
senhora que, perto de casa, tomava conta de ti
enquanto a
gente trabalhava em Lisboa.
(Não, quem
eu levava às cavalitas, era a tua mana, Joana,
cinco ou
seis anos atrás...).
Ainda ontem
te levava pela mão
até ao
jardim e creche
do Instituto
Nacional Nacional de Saúde
Doutor
Ricardo Jorge,
onde fostes
a criancinha mais feliz do mundo
no meio de
tantas outras crianças felizmente felizes…
Ainda ontem
me desenhavas e pintavas,
cabeludo e
barbudo,
e, confesso, foi o mais belo retrato
que me
fizeram:
guardo-o com
todo o carinho.
Tinhas que
ser artista,
não fostes
pintor, foste músico…
Ainda ontem,
andavas na escolinha do Bairro Azul…
Ainda ontem,
te trouxe um violino de Dublin,
para tu
começares a “serrar presunto”,
como dizia a
tua mãe,
que fez tudo para alimentar a tua veia musical,
incluindo
levantar-se, às quatro da manhã,
para
arranjar um senha
na altura
das matrículas no Conservatório…
Ainda ontem
eu te levava,
aos 12 anos,
pela mão,
até ao
Bairro Alto, até ao Conservatório,
onde
estudavas violino,
para depois regressares
a casa sozinho, de autocarro...
Era de
pequenino que se torcia o violino
e se
exorcizavam os medos.
Ainda ontem
jogávamos à bola na praia do Caniçal,
ou andávamos
à caça dos gambozinos,
nas noites
quentes de verão na Quinta de Candoz…
Com os
muitos primos que, felizmente, tens,
no Norte e
no Sul.
Ainda
ontem...
Ainda ontem te
obriguei a fazer um blogue,
quando
fostes fazer um ano de Erasmus em Florença,
e donde nos
enviaste, com regularidade
um bilhete
postal,
de setembro
de 2005 a julho de 2006…
“Arriverdecci
Portogallo”!...
Eras o Jonny
Grace Da Vinci
…E
aprendeste lá que o mundo era uma aldeia global,
onde podemos
(e temos de) caber todos,
com tudo o
que nos une
e até com
o que nos pode separar.
Ainda ontem
os teus avós eram vivos,
os de Candoz
e os da Lourinhã…
Ainda ontem
tu gostavas de anotar,
nas toalhas
de papel das mesas dos restaurantes,
as anedotas,
as quadras, os trocadilhos
do avó
Luís-que-é-como-quem-diz...
Ainda ontem…
Ainda ontem,
foste à Guiné,
num das mais
belas experiências humanas da tua vida
e fizeste
questão de ir a alguns sítios
onde o teu
pai fizera a guerra e a paz,
no século
passado…
Ainda ontem…
Ainda ontem
foste pai, de uma Clarinha Klut da Graça,
E hoje és feliz,
a três, com a tua Catarina...
E tens a Senhora
do Monte que vos protege,
com Lisboa a
seus pés,
e o Funchal,
mais ao longe,
para lá da
linha do horizonte...
Visto do
alto dos meus quase 73 anos,
a fazer
daqui a dias,
fico
orgulhoso, meu filho,
ficamos
orgulhosos,
eu e a tua
mãe, e a tua mana,
por teres
nascido
e seres o
que és,
um grande
ser humano!
Que é o que
importa, a essência,
a humanidade
que passamos de geração em geração,
dos teus
avós e dos teus pais,
para ti e a
tua filha…
O resto é
acessório, é currículo, é circunstância...
Parabéns,
meu filho, pelos teus 36… aninhos!
Muita saúde,
felicidade e longa vida,
porque tu
mereces tudo.
Teu pai,
Luís
Tua mãe
Alice, tua mana Joana
Quinta das
Conchas, Lisboa, 21 de janeiro de VINTE-VINTE. 11h00
PS - Ainda
hoje... não tinhas nascido.
E já aqui
vão, pela manhã,
os meus/nossos
versinhos de parabéns.
Já os tinha
magicado,
ontem à noite, na hora dos poetas...
Hoje, passei-os a escrito...
ontem à noite, na hora dos poetas...
Hoje, passei-os a escrito...
Estou na
Quinta das Conchas, meio empenado,
enquanto a
tua mãe faz a caminhada dela,
com os caminheiros
da nossa tertúlia...
Mas sempre
gostei de escrever à mesa dos cafés,
vício da gente
da minha geração...
E não leves
a mal que eu os já tenha partilhado, em parte,
com todos
aqueles que te amam e te estimam...
Mais logo, ao
jantar,
espero poder
dizer-tos de viva voz,
ao pé da tua
Clarinha e da tua Catarina,
da tua mãe,
da tua mana e da prima Urchi.
Um
"quebra-costelas", à moda alentejana...
Teu pai.
Teu pai.

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